Por Dr. João Roberto Ferreira Franco
Não é de hoje que a paixão pelo futebol movimenta milhões. Sejam milhões de pessoas ou milhões de valores em qualquer moeda que você quiser comparar. Na última semana estive presente no Fórum SAF 2025 com o lançamento de meu livro e pude ver de perto esta paixão espelhada por empresários e pessoas ligadas ao mercado de futebol que, independente do seu objetivo comercial, demonstram também, que o que os moveu, foi a paixão.
Com debates de alto nível e discussões que vão além das quatro linhas, o fórum discutiu muito a relação entre torcedores e o mercado de futebol, seja ele representado por clubes que são SAF e clubes que ainda orbitam pelo modelo associativo.
O fato é que a marca (clube) tem como maior patrimônio a sua torcida. A torcida é o balizador entre a SAF empresa pura (onde pouco importam os títulos, mas sim o resultado financeiro) e a SAF que embora seja um clube empresa, ainda responde como clube associativo porque a torcida cobra títulos.
Hoje no Brasil, das dez maiores torcidas, apenas quatro clubes entraram com acionistas no modelo SAF. Os quatro primeiros que representam quase a metade dos torcedores do Brasil não possuem em seu horizonte perspectivas de se tornarem SAF’s, independente do seu desastre financeiro.
Não se sabe ao certo se estes clubes não viram SAF por questões políticas ou por falta de interessados em investir na SAF por conta da pressão por títulos que terá como consequência, maior investimento do investidor. Não existe fórmula mágica, quanto maior o investimento maior a possibilidade de títulos, o que pode automaticamente trazer maior resultado para o NEGÓCIO SAF na medida em que novos torcedores surgem, produtos, renda com bilheteria, patrocínios, direito de imagem e etc.
Infelizmente, no Brasil, virar SAF virou sinônimo de fracasso, ou seja, apenas times que chegaram ao fundo do poço decidem criar uma SAF e vender suas ações uma vez que seus péssimos gestores afundaram o clube. Ainda assim, estes gestores serão agraciados com o valor da venda das ações e a participação do clube associativo nos resultados da SAF.
Em verdade, o clube criar uma SAF deveria ser um processo natural porque torna o futebol mais profissional e consequentemente fortalece o mercado. Mesmo para os clubes que estavam no fundo do poço a SAF foi uma reviravolta não só nas contas do clube como nos resultados esportivos. No Brasil, impera a máxima de que se você não é campeão é fracassado. Ora, clubes como Botafogo, Atlético MG, Cruzeiro e o próprio Vasco (que teve problemas com o investidor da SAF) não tinham perspectivas esportivas e apresentaram resultados esportivos positivos nos últimos anos. O Botafogo foi campeão brasileiro e da Libertadores, Vasco e Cruzeiro saíram da série B e não correm risco de retornar. O Cruzeiro figura nas primeiras colocações do campeonato Brasileiro e está na semifinal da Copa do Brasil. O Atlético MG esteve em duas finais no ano passado (Copa do Brasil e Libertadores). O Vasco, mesmo com a discussão com o investidor da SAF, se mantém competitivo e alcançou vagas na Copa do Brasil e outros campeonatos.
Como dito, todos estes clubes, antes de criarem uma SAF, estavam na série B ou eram coadjuvantes no cenário futebolístico esportivo brasileiro. O fato é que o futuro dos clubes de futebol é se profissionalizarem não porque seus gestores pensam no clube, mas porque não terão saída, porque o mercado cresce e se profissionaliza cada vez mais todo dia e o clube que não estiver em sintonia com o mercado ficará fora dele. Enquanto isso, quem fala de futebol precisa aprender que SAF significa profissionalizar o clube e responsabilizar aquele que for dono da SAF por descaminhos na condução do negócio, e não sinônimo de ser campeão de tudo, porque no futuro tendo vinte clubes SAF na série A do brasileiro, quatro vão cair e só um será campeão, o que não significa má gestão ou fracasso na SAF, é que é impossível todos serem campeões.
Dr. João Roberto Ferreira Franco
Advogado, sócio-diretor do escritório Lodovico Advogados, Mestre em Direito Empresarial pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Doutor em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, autor do livro “Sociedade Anônima do Futebol: natureza jurídica, fair play financeiro e o problema do multi club ownership” pela Editora Dialética.



