O Avaí vive, ao mesmo tempo, seu pior momento financeiro em anos e sua maior oportunidade de capitalização da história. Esse é o paradoxo que explica por que o Conselho Deliberativo do clube aprovou, na última terça-feira, 30 de junho, por 112 votos a 54, a venda de 90% da futura SAF para a Kactus Capital, em uma operação avaliada em mais de R$ 400 milhões.
Para entender o tamanho do movimento, é preciso olhar primeiro para o buraco. O passivo do Avaí saltou de R$ 159 milhões em 2023 para algo próximo de R$ 295 a 300 milhões hoje, segundo levantamento apresentado ao próprio Conselho. Ou seja, a dívida praticamente dobrou em três anos. O clube já está em recuperação judicial e vem honrando o plano de pagamento em curso, o que muda a leitura da operação: a Kactus não está resgatando um clube inadimplente do zero, está acelerando e reforçando uma reestruturação que já estava em andamento. Ainda assim, é esse cenário de estresse financeiro que torna a proposta da Kactus tanto um alívio relevante de caixa quanto um teste de governança para os sócios do clube.
Quem está por trás da proposta
A Kactus Capital é uma gestora de investimentos com 16 anos de mercado no Brasil e ligação com um family office inglês, o que reforça a tese de capital internacional estruturado migrando para dentro do futebol brasileiro via modelo SAF. Entre os sócios da empresa estão Rafael Matheus e Darius Alamouti. Segundo Matheus, em entrevista à rádio CBN Floripa, a Kactus atua tanto na gestão de patrimônio de famílias de alta renda quanto em operações de antecipação de recebíveis e equity, o que ajuda a explicar o desenho financeiro da proposta ao Avaí.
A gestora não é estreante no futebol catarinense. Antes de fechar com o Avaí, a Kactus havia oferecido R$ 150 milhões pela SAF do Figueirense, proposta rejeitada pelo conselho alvinegro em junho, que optou pela Pan Sports. A empresa também tem histórico de operações envolvendo Coritiba e o clube francês Le Mans. O grupo de investidores conta ainda com a presença do ex-meia Rodriguinho, bicampeão brasileiro pelo Corinthians, que deve atuar como elo entre a gestão esportiva, o mercado e o elenco.
Vale registrar que, antes da Kactus, o Avaí esteve em negociação avançada com o investidor americano Mike Melby, da Sunday Ventures, mas o clube não avançou por não encontrar um modelo contratual que oferecesse proteção adequada.
O que diz a proposta
O acordo prevê a aquisição de 90% da SAF por mais de R$ 400 milhões, mas esse número não deve ser lido como um cheque único depositado no caixa do clube. A estrutura financeira se divide em duas frentes principais. A primeira é a redução do passivo do Avaí, hoje estimado entre R$ 290 e 295 milhões. Vale destacar que a fatia mais expressiva desse passivo, cerca de 70% do total, é de natureza tributária, e o clube deve assinar em breve uma transação tributária para equacionar essa parte específica da dívida, o que torna essa etapa a mais decisiva da reestruturação financeira. A segunda frente é o investimento direto no futebol, algo em torno de R$ 100 a 110 milhões, distribuídos ao longo do tempo.
Dentro dessa segunda frente, o desenho é escalonado. Estão previstos aportes mínimos de R$ 25 milhões por ano nos três primeiros anos, direcionados ao futebol profissional e à infraestrutura. Outros R$ 20 milhões estão reservados para as categorias de base ao longo de dez anos, e R$ 5 milhões para obras estruturais em um horizonte de cinco anos. Como medida imediata de fôlego financeiro, a Kactus ainda oferece um empréstimo-ponte de R$ 5 milhões, que deve entrar assim que a operação for definitivamente aprovada.
Um ponto que merece atenção de qualquer leitor com viés de M&A é o que fica de fora do perímetro do negócio. O acordo não envolve os ativos imobiliários do clube, como o Estádio da Ressacada e o CFA, que permanecem sob controle da associação. Da mesma forma, símbolos institucionais como escudo, cores, hino e alcunha ficam protegidos contra alteração pela SAF. O investimento da Kactus está vinculado exclusivamente à operação futebolística.
A governança também foi desenhada com salvaguardas para o clube de origem. O Avaí manterá 10% da SAF e um terço das cadeiras no comitê gestor, mesmo vendendo a maioria do controle acionário. Há ainda previsão de que torcedores possam, no futuro, se tornar sócios investidores, adquirindo uma fatia mínima de participação na estrutura.
A aprovação que falta
Apesar do resultado favorável no Conselho Deliberativo, a operação ainda não está fechada. A decisão final cabe à Assembleia Geral dos sócios do Avaí, convocada para o dia 9 de julho, que vai definir por maioria simples se o clube efetivamente cria a SAF e vende os 90% de participação à Kactus Capital. É esse detalhe que separa uma operação aprovada de uma operação apenas encaminhada, e é justamente nesse tipo de etapa que negociações de SAF costumam travar quando a base associativa não está alinhada com a diretoria.
Por que isso importa além de Santa Catarina
O case do Avaí ilustra um movimento maior no mercado brasileiro de futebol: a SAF como instrumento de reestruturação de passivo, não apenas como veículo de captação de investimento novo. Quando mais da metade do valor de uma proposta é destinada a quitar dívida acumulada, o valuation do clube deixa de ser sobre potencial de receita futura e passa a ser, em boa parte, sobre o custo de resolver uma crise de solvência. É um desenho que tende a se repetir em outros clubes brasileiros com histórico de desequilíbrio entre folha salarial e receita operacional, e que vale acompanhar de perto nos próximos meses.
Do ponto de vista de quem analisa estrutura de M&A no futebol, essa é uma das propostas mais bem desenhadas que já vi no mercado brasileiro. O motivo não é o tamanho do cheque, é a arquitetura por trás dele. Em vez de um aporte único que infla o valuation no papel e desaparece no primeiro ano de operação, o modelo escalona o investimento ao longo do tempo, com metas mínimas anuais para futebol profissional e base, o que reduz o risco de descontinuidade que costuma acompanhar SAFs mal estruturadas. A decisão de deixar o patrimônio imobiliário, Ressacada e CFA, fora do perímetro do negócio também merece destaque: protege o ativo mais estratégico e menos líquido do clube de qualquer eventual reversão de rota do investidor. E o desenho de governança, com o Avaí mantendo assento no comitê gestor e abrindo caminho para que o próprio torcedor vire sócio investidor no futuro, é o tipo de cláusula que costuma faltar em operações mais afobadas. É um modelo que resolve o problema real do clube, a dívida, sem entregar o controle sobre o que dá identidade a ele.
Fica o convite ao debate: essa deveria ser a régua mínima de proteção institucional em toda operação de SAF no Brasil?
Estamos diante da nova potência do Brasil? Imagine seu clube com recuperação judicial em dia, pagando, e ainda recebendo 400 milhões?
Felipe Araujo
Diretor de Estratégia M&A e FP&A no Futebol. Especialização em Gestão de Clubes de Futebol e MBA em Gestão Financeira. Une a experiência de liderança em multinacionais à análise técnica do ecossistema das SAFs. É o criador da newsletter ‘Sala do Diretor’, referência em inteligência de mercado e gestão esportiva.



