No documentário “Eis os Delírios do Mundo Conectado”, o diretor Werner Herzog entrevista um jovem cientista que desenvolveu um time de futebol de robôs. “Você acha que um dia seu time ganhará da seleção brasileira?”, pergunta o diretor. “Espero que sim”, o cientista responde.
Herzog é alemão e poderia ter citado a Alemanha. Escolheu o Brasil porque, para ele e para boa parte do mundo, somos a expressão mais pura e encantadora do futebol. Um pouco como a Itália para a pintura e a Grécia para a filosofia.
Nenhum outro país tem à disposição um ativo como esse: de reputação pronta, construída ao longo de um século e que supera barreiras de idiomas, religiões e ideologias. Apesar disso, países com produtos bem menos valiosos fizeram muito mais.
A Coreia do Sul tratou o K-Pop como política pública e montou um sistema para financiar, exportar, promovê-lo no exterior. O mesmo para o Japão com anime, mangá e games. A Tailândia com sua culinária. Os Estados Unidos e o cinema, o jazz e a televisão. Para não falar de França e Espanha com as Alianças Francesas e os Institutos Cervantes pelo mundo.
Nenhum desses países inventou o produto. Apenas perceberam que existia uma indústria local que produzia simpatia, familiaridade e prestígio lá fora.
Fabricar algo assim do zero é caríssimo e quase sempre fracassa. Muito mais viável é dar escala ao que já tem força própria. E por que não fazemos isso com o futebol?
Em período eleitoral, se torna mais clara nossa falta de imaginação. Quase nenhum candidato, de qualquer partido, apresenta um plano para transformar o futebol em fonte de desenvolvimento e de projeção internacional. Como se o futebol já não fosse, por natureza, um “campeão nacional”.
Para mudar isso, não basta prever um Plano Nacional do Esporte, a ser proposto pelo Ministério dos Esportes, como já fazia a Lei Pelé (1998) e voltou a fazer a recente Lei Geral do Esporte (2023).
Primeiro, porque esses planos nunca sequer foram apresentados, e olhe que a Lei Pelé tem quase 30 anos. Segundo, porque deixar essa tarefa nas mãos do Ministério do Esporte, tradicional moeda de troca na formação de maiorias no Congresso, é pouco eficaz. Terceiro, porque política de futebol não é meramente esportiva, dela precisam fazer parte os ministérios da Fazenda, do Turismo, da Educação, das Relações Exteriores.
Nenhum ministério isolado dá conta disso, tamanho é o papel econômico, cultural e geopolítico que o futebol brasileiro pode e deve desempenhar. Daí a proposta lançada pelo professor Rodrigo Monteiro de Castro, um dos autores da Lei da SAF: uma secretaria especial do futebol vinculada diretamente à Presidência da República.
Pelé, Marta, Garrincha, Formiga, Romário, Ronaldo, Neymar e tantos outros transformaram o nosso futebol em patrimônio reconhecido no mundo inteiro. Está na hora de a classe política transformar esse legado em uma verdadeira política de Estado.
Rodrigo de Abreu Pinto
Advogado, filósofo e professor. Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Formado em Direito das Sociedades Anônimas de Futebol (SAF) pela CBF Academy. Presidente do Instituto Brasileiro de Finanças Digitais (IFD). Presidente da Comissão de Inovação e Mercado de Capitais da Associação Brasileira de Advogados de Direito Imobiliário (ABAMI). Presidente da Comissão de Estudos da Sociedade Anônima de Futebol da OAB-PE. Vice-Presidente da Câmara de Comércio Brasil-Portugal de Pernambuco. Membro do Conselho Curador da Fundação Gilberto Freyre. Membro da Comissão de Direito Societário e Mercado de Capitais do Instituto Brasileiro de Direito Empresarial (IBRADEMP). Membro da Comissão de Inovação e Tecnologia do Instituto Brasileiro de Direito Imobiliário (IBRADIM). Membro da Comissão de Direito Empresarial do Instituto dos Advogados de Pernambuco (IAP-PE). Membro da Comissão de Mercado Financeiro e de Capitais da Ordem dos Advogados de Pernambuco (OAB-PE).



