O América-MG segue ativo nas negociações pela venda da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do clube. Nessa quarta-feira (26), foi apurado que o clube recebeu uma oferta da Global Seven Eleven Energy Oil FZ-LLC, companhia ligada à exploração de petróleo com sedes em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e em Gana, pela compra da SAF. A promessa de investimento mínimo seria de R$ 800 milhões, mas os valores poderiam chegar à ordem de R$ 1,03 bilhão. A proposta prevê a compra de 80% das ações da SAF americana, com um aporte inicial de R$ 20 milhões, dividido em quatro parcelas mensais de R$ 5 milhões — sendo a primeira paga no ato da assinatura do contrato e as demais nos meses subsequentes.
Também nessa quarta-feira, o Conselho Consultivo do América se reuniu para debater o Memorando de Entendimentos (MoU) dos possíveis investidores e o parecer técnico-jurídico sobre a oferta. O documento apontou 25 pontos considerados como “riscos” na leitura integral do memorando e sugeriu a apresentação de uma contraproposta ao fundo árabe.
O parecer e os pontos de atenção
Um dos principais alertas do parecer diz respeito ao compromisso de “Geração de Recursos” na ordem de R$ 800 milhões em dez anos. Segundo o documento, as próprias receitas geradas pelo clube — como patrocínios, contratos comerciais e outros faturamentos — estariam computadas como investimentos nessa cláusula, ou seja, sem o uso de dinheiro externo. O América-MG projeta uma média de receitas anuais na ordem de R$ 70 milhões no período de dez anos, o que totalizaria R$ 700 milhões. Além disso, o parecer aponta uma indefinição sobre o investimento de outros R$ 80 milhões restantes para o cumprimento da meta de R$ 800 milhões. O documento destaca que, caso a receita média do clube suba para R$ 80 milhões por ano, não seria necessário nenhum novo aporte para o cumprimento do objetivo. Assim, os investidores poderiam adquirir a SAF do América com um aporte de R$ 20 milhões e gerar o montante restante de R$ 780 milhões com fundos do próprio clube.
Entre as condições iniciais da proposta, destaca-se que o percentual do América na SAF só poderá ser diluído a menos de 20% após a geração integral do montante de R$ 800 milhões. Vale lembrar que, conforme a “Lei das SAF” (Lei nº 14.193/2021), é assegurado que o clube mantenha, no mínimo, 10% das ações como forma de garantir a propriedade intelectual da marca, como símbolos, brasão, hino, cores e afins. O memorando também ressalta o compromisso dos possíveis investidores em assumir o pagamento das dívidas do clube, até o limite máximo de R$ 197 milhões — promessa que, pelo parecer, careceu de cronograma de pagamentos, sendo destacado ainda que o pagamento dos passivos pode se tornar investimento por parte dos possíveis compradores.
Os ativos do clube na proposta
A oferta prevê ainda a exploração conjunta de um projeto imobiliário no CT Santa Luzia, estruturado com os investidores detendo 80% do Valor Geral de Venda (VGV), enquanto o América ficaria com os 20% restantes, com previsão de implementação e conclusão em até 120 meses (dez anos) após a aprovação do clube. A contribuição do América-MG seria limitada à disponibilidade e transferência da propriedade aos investidores, sem aporte adicional de recursos. O documento também apresenta condições para a alienação do CT Lanna Drumond, com uma cláusula dando aos investidores o prazo de até 24 meses para apresentar um projeto de exploração do terreno — caso a parceria não fosse estabelecida nesse período, a opção contratual cessaria. Segundo a proposta, os valores auferidos na alienação deverão ser utilizados integralmente para investimentos da SAF nas atividades desportivas, incluindo futebol masculino, feminino e categorias de base.
Além disso, como ato integrante do fechamento da operação, está prevista a celebração de contrato de cessão do Independência pelo América em favor da SAF pelo prazo de 35 anos, automaticamente prorrogável por mais 35 anos, totalizando 70 anos. O contrato tem como condição a previsão de que os resultados econômicos líquidos com a exploração do estádio sejam distribuídos na proporção de 50% para cada uma das partes, com todas as obrigações em relação ao Independência — investimentos, manutenção, operação e exploração — sob responsabilidade exclusiva dos investidores. Há ainda a previsão de construção de um museu do América na Arena Independência, com investimento limitado a R$ 13 milhões, e um projeto para a construção de um novo Centro de Treinamento na Região Metropolitana de Belo Horizonte, sob a condição de transferência da propriedade do CT Lanna Drumond aos investidores.
Diante dos pontos considerados temerários aos interesses do América-MG, o parecer técnico-jurídico sugeriu dez pontos chamados de “inegociáveis” para a apresentação de uma contraproposta, além de recomendar a não assinatura do memorando. Dentre eles, destacam-se: pedido de aquisição escalonada das ações, garantias reais e bancárias, marcos anuais auditados, permanência do CT de Santa Luzia com o clube e sugestão de um novo acordo para a exploração do Independência. A recomendação foi de um acordo de exploração do espaço por dez anos, valor mínimo anual, vedação no rateio de despesas e auditoria permanente. Foi recomendada a manutenção das conversas com os possíveis investidores, mas com uma apresentação de contraproposta.
América afasta especulações sobre a SAF e define quem pode falar pelo clube
Em meio à circulação de diferentes informações sobre a proposta dos investidores dos Emirados Árabes Unidos, o América divulgou, nesta sexta-feira (28), quem poderá falar oficialmente em nome do clube sobre uma possível venda da SAF. Em coletiva, o presidente do Conselho de Administração, Márcio Vidal, afirmou que ele e o diretor jurídico, Henrique Saliba, serão os únicos autorizados a tratar publicamente do assunto e representar o Coelho nas conversas com potenciais investidores. Segundo o dirigente, o objetivo da mudança é colocar fim à confusão em torno das informações e evitar novos desgastes para o América. “A gente está vivendo um momento confuso em relação às informações com relação à SAF do América. Então o meu objetivo que hoje é esclarecer de uma vez por todas, passar uma régua no que aconteceu até hoje e explicar como que vai funcionar a partir de agora para a gente evitar o desgaste que o clube vem tendo”, afirmou Vidal.
A partir de agora, as negociações serão conduzidas por uma comissão formada por três conselheiros: Paulo Ramiz Lasmar, conselheiro benemérito; Marcos Monnerat, membro do Conselho Deliberativo; e Tiago Amaral, também integrante do Conselho Deliberativo. Eles trabalharão ao lado de Henrique Saliba e do escritório Portugal e Vilela, do advogado Marcelo Vilela. Márcio Vidal explicou, porém, que a comissão terá autorização para negociar, mas não para aprovar uma eventual operação. “Negociar, não é aprovar. Negociado e cumprido todo o rito que a gente precisa que seja cumprido, isso chega no Conselho de Administração.” Caso uma proposta avance, ela ainda precisará passar por três instâncias antes de qualquer transferência de ações da SAF: primeiro, a operação terá de ser aprovada pelo Conselho Consultivo; depois, pelo Conselho Deliberativo; por fim, será necessária a aprovação da Assembleia Geral. É somente na Assembleia Geral, segundo Vidal, que o América poderá efetivamente transferir ações para um eventual investidor.

Márcio Vidal também esclareceu o que foi discutido na reunião do Conselho Consultivo realizada na quarta-feira (26). Segundo o dirigente, não houve qualquer votação sobre uma eventual venda da SAF — o encontro serviu para avaliar o estágio das conversas com o possível investidor e identificar o que ainda precisa ser apresentado para que a negociação avance. “O que o Conselho Consultivo discutiu foi até que ponto esse propenso investidor andou conosco e, na opinião do clube, o que ainda faltava para avançar. Isso foi discutido na reunião e o clube mostrou que precisamos de documentos que ainda não foram entregues”, afirmou. De acordo com o presidente do Conselho de Administração, a troca da comissão responsável pelas negociações foi sugerida pelo presidente do Conselho Deliberativo, José Flávio Lana Drummond, e posteriormente aprovada pelo Conselho de Administração.
O América também adotará medidas para restringir a circulação de informações sobre as negociações. Segundo Vidal, os integrantes da comissão terão procuração do clube e deverão assinar um termo de confidencialidade. O dirigente afirmou ainda que somente ele e Saliba poderão falar oficialmente pelo América sobre a SAF. “Somente essas duas pessoas poderão falar pelo América, mais ninguém. Qualquer outra pessoa que falar pelo América está desautorizada, passará informações inverídicas, ou, se elas forem verídicas, vamos considerar como vazamento, serão processadas.” Vidal reforçou que o clube poderá recorrer à Justiça caso identifique o responsável por um vazamento de informações sigilosas.



