Os bastidores jurídicos da Sociedade Anônima do Futebol do Vasco da Gama seguem em ebulição uma semana após a renúncia da advogada Samantha Mendes Longo do cargo de interventora. Nomeada pela Justiça para um mandato de dois meses, Samantha ficou apenas seis dias na função e alegou um fato grave relacionado à sua segurança pessoal como motivo para deixar o posto. Na noite desta segunda-feira (6), o clube protocolou um agravo de instrumento no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro com o objetivo de suspender imediatamente os efeitos da decisão que afastou o presidente Pedrinho e outros dois conselheiros da administração da SAF.
O recurso é considerado um passo fundamental para reverter a intervenção decretada em 22 de junho pela 4ª Vara Empresarial. O Vasco sustenta que a medida provocou uma paralisia estrutural na governança da companhia e desencadeou uma crise institucional generalizada. Um dos argumentos centrais do agravo é que as discussões sobre controle societário e governança já estavam submetidas a um procedimento arbitral na Câmara de Arbitragem da Fundação Getúlio Vargas (FGV), cabendo aos árbitros deliberar sobre tais questões, e não à Justiça comum. O documento também questiona a concessão da tutela de urgência sem que os administradores afastados tivessem sido previamente ouvidos, violando o direito ao contraditório.
Relatório da própria interventora contradiz fundamentos da intervenção
Um dos pontos de maior peso na defesa do clube é o relatório técnico elaborado pela própria Samantha Mendes Longo durante seus breves dias de atuação, protocolado junto à carta de renúncia. O documento reconhece a existência de uma “estrutura de gestão adequada para a condução da Companhia”, apontando apenas falhas pontuais na governança — o que, na visão do Vasco, contradiz diretamente os fundamentos utilizados pela Justiça para justificar a intervenção.
O relatório também revelou um detalhe importante: a existência de um quarto membro no Conselho de Administração da SAF além dos três afastados. Trata-se de Alexandre Cordeiro, vice-presidente de Relações Institucionais do Vasco, empossado no colegiado em 10 de maio. Após a renúncia de Samantha, a Justiça determinou que o comando emergencial da SAF fosse conduzido pela advogada Adriana Campos Conrado Zamponi em conjunto com Alexandre Cordeiro, como forma de garantir a continuidade das atividades até uma nova deliberação judicial.
A crise, no entanto, não parou por aí. O agravo cita nominalmente uma onda de renúncias que sucederam a decisão de intervenção: os três integrantes do Conselho Fiscal da SAF — Marco Schroeder, David Tavares Nunes e Carlos Antonio Rodrigues Jorge — pediram desligamento coletivo no final de junho. Antes deles, o vice-presidente de Integração, José Luiz Trinta, e o vice-presidente de Engenharia e Obras, Luis Guedes, também deixaram seus cargos. O clube argumenta que essas saídas provam que o ambiente institucional tornou-se insustentável após a decisão judicial.
Mudanças na condução do processo e impacto nas negociações
O enredo judicial ganhou contornos ainda mais complexos nos últimos dias. A juíza Caroline Rossy Brandão Fonseca, responsável pela decisão original que nomeou a intervenção, declarou-se suspeita para seguir conduzindo o caso após a identificação de fatos supervenientes. Em novo despacho protocolado nesta segunda-feira, o juiz Arthur Eduardo Magalhães Ferreira também se declarou impedido. Com isso, o processo será redistribuído para a 6ª Vara Empresarial, que passará a comandar os próximos capítulos da ação.
Enquanto a indefinição jurídica persiste, o Vasco alerta para os prejuízos concretos dentro de campo e nos bastidores financeiros. O clube sustenta que a intervenção comprometeu negociações importantes em plena janela de transferências e dificultou o processo de conclusão da venda da SAF para o investidor Marcos Lamacchia. Com um orçamento bastante enxuto, a diretoria trabalha com urgência para resolver a instabilidade judicial e permitir a chegada do novo capital. Paralelamente, o Conselho de Beneméritos convocou uma reunião com a diretoria administrativa na última sexta-feira. Em encontro que contou com a presença de Pedrinho, houve um pedido formal por mais transparência no processo de venda do futebol do clube, ainda que o saldo tenha sido classificado como uma união institucional entre as partes.
Fonte: ge.Globo.



