O Santos vai decidir no dia 8 de novembro, em votação do Conselho Deliberativo, se aprova uma reforma estatutária que permite a venda de até 80% do futebol do clube. A mudança é o ponto central de uma polêmica que opõe parte dos conselheiros e os quatro candidatos à presidência — e que chega às urnas antes mesmo da eleição que definirá o novo mandatário do triênio 2027–2029, marcada para dezembro.
Hoje, o estatuto do Santos permite uma Sociedade Anônima do Futebol com participação de até 49%, o que na prática impede que investidores assumam o controle majoritário do futebol. A reforma elevaria esse limite para 80%, abrindo espaço para que um comprador passe a comandar a operação esportiva — mantendo a associação, dona do clube, como sócia minoritária.
O interesse existe e já tem nome. No fim de agosto, representantes da SDC Sports LLC, empresa americana interessada em comprar o time alvinegro, se reuniram com conselheiros pela primeira vez. As partes já haviam assinado um termo não vinculante — documento que formaliza a negociação e confere exclusividade à companhia, sem obrigar nenhum dos lados a fechar o negócio. Os representantes da empresa não mencionaram valores da proposta até o momento, mas circula a quantia de R$ 2 bilhões em investimentos: R$ 1 bilhão para o pagamento das dívidas e R$ 1 bilhão para aplicar de fato no futebol. A SDC Sports foi fundada por Michael Lipman e Diego Garcia, que conduziram a apresentação ao Conselho Deliberativo acompanhados de Jesse Fioranelli, que assumiria o projeto como diretor de futebol, e do analista financeiro Can Keles.
Quatro candidatos, quatro objeções — e um manifesto conjunto
Entre os quatro candidatos à presidência, as ressalvas variam de tom, mas convergem em um ponto: a decisão não deveria ser tomada antes de a próxima gestão estar definida. José Renato Quaresma, ex-diretor da base, sustenta que a negociação precisa se atentar ao perfil dos investidores e aos valores apresentados. “Se um investidor quiser comprar, terá que aumentar o valor e definir percentuais claros para renegociação de dívida, time profissional, renovação da Vila, base e CT. A SAF deve vir para ajudar, não como um produto de mando, desapegando dos torcedores e entregando o clube a um único dono para fazer o que quiser”, disse ao Estadão.
O advogado Ivan Luduvice foi além e criticou a exclusividade concedida à SDC Sports. “Uma empresa que foi fundada em setembro de 2025, ninguém sabe quem são os sócios, que não tem capital, nunca investiu em nenhum clube. Podem estar por trás dessa empresa justamente os credores que endividaram o Santos de maneira proposital para comprar o Santos de graça. De repente o próprio Marcelo Teixeira está por trás”, afirmou. Ele também defendeu uma ordem diferente de prioridades: “A primeira coisa a ser feita é saber quem são os credores do Santos, equalizar essa dívida e buscar parceiros que queiram investir no Santos. O Santos não pode ser satélite, tem que ser o negócio principal. Não pode ser como o Bahia e o Botafogo, que viraram clubes satélites.”
Wladimir Mattos, candidato na última eleição, adotou discurso cauteloso e elencou as perguntas que considera sem resposta: “Na montagem da SAF, existem perguntas para serem respondidas. Quais dívidas serão assumidas? Onde o investimento será aplicado? Quais as garantias de longo prazo? O projeto esportivo? A associação é parte do processo. Precisa quitar as dívidas do passado, planejar o longo prazo.” E acrescentou: “E mais importante, a SAF se sustenta como? O dinheiro inicial é importante, mas não basta. Quais as garantias? Como preservar a imagem e identidade? A SAF não pode vir para pagar as dívidas do Santos, precisa ser instrumento de valorização, não salvamento financeiro.”
Já o empresário Maurício Maruca, vice nas últimas eleições, defende um modelo em que o clube permaneça dono de todo o negócio. “Vai levar de seis a oito meses para montar uma SAF. Tudo aprovado, quem é o dono da SAF? É o Santos, que vai aproveitar o que tem de benefícios, as vantagens tributárias. Minha equipe pretende se reunir com o conselho e sócios para tomar a decisão de a SAF ser vendida, trazer investidores ou se vai continuar a ser do Santos, como é, se não me engano, o modelo do Fortaleza”, explicou. “A SAF precisa ser feita antes de haver propostas. Acho muito duvidoso você fazer uma SAF para determinada proposta. Por que não fazer a SAF e buscar investidores no mundo todo? Esse é o caminho correto.”
Na sexta-feira (23), os quatro candidatos divulgaram uma nota conjunta orientando os associados a votar contra a reforma do estatuto. Alegam que “as emendas aprovadas não teriam sido consolidadas pelos conselheiros” para uma aprovação antecipada, e que o prazo de 15 dias para avaliação do documento após a votação das emendas não foi cumprido. “Essa posição decorre da necessidade de garantir transparência, segurança jurídica, respeito às normas do Clube e a participação efetiva dos associados em uma decisão que impactará diretamente o futuro do Santos Futebol Clube”, escreveram. Por fim, pediram que a Mesa do Conselho Deliberativo esclareça formalmente a situação do texto, apresente a versão integral consolidada e assegure o cumprimento de todas as etapas e prazos previstos nas normas do clube antes de qualquer convocação da Assembleia Geral.
Na prática, o Santos vive um impasse de sequência: o Conselho vota a reforma em 8 de novembro, a eleição presidencial acontece em dezembro e a nova gestão assume em 2027. Se a reforma passar, o clube chega à eleição com o caminho aberto para vender o controle do futebol — decisão que, na avaliação dos candidatos, deveria ser do próximo presidente eleito, e não da gestão que se encerra. Se for rejeitada, a negociação com a SDC perde o desenho jurídico que a viabiliza, e o tema volta à estaca zero até que uma nova proposta seja apreciada pelos sócios.
Fonte: Estadão.



