O pedido de recuperação judicial do Paysandu passou a ser apresentado oficialmente como uma resposta a um passivo em torno de R$ 16 milhões, valor encaminhado à Justiça para reorganização. Nos bastidores, porém, a dimensão do problema é descrita como muito maior. Segundo Frederico Carvalho, ex-diretor de futebol do clube, a dívida total estaria na casa de R$ 75 milhões, somando passivos trabalhistas, fiscais e compromissos acumulados e “empurrados” de um exercício para outro ao longo de mais de uma década.
A diferença entre os números amplia o debate sobre como o clube chegou ao atual cenário e quais são os limites e expectativas do processo aprovado pela Justiça.
Frederico Carvalho sustenta que o valor declarado no processo não reflete a real crise financeira do Papão. Para ele, a soma dos débitos trabalhistas, fiscais e obrigações postergadas eleva o total a um patamar muito superior ao apresentado formalmente.
Na avaliação do ex-dirigente, a crise é consequência de um período longo de gestões marcadas por antecipações recorrentes de receitas e pela fragilidade de governança, mesmo com mudanças de presidentes ao longo do tempo. Ele afirma que, na prática, o comando político teria se mantido ligado a um mesmo grupo nos últimos 13 anos.
Antecipação de receitas vira ponto central do diagnóstico
O agravamento da situação, segundo as avaliações relatadas, começou a ficar mais evidente em 2023, quando o clube passou a antecipar receitas futuras para fechar contas do presente, prática que teria se tornado frequente.
O advogado Petterson Sousa, ouvido no contexto do debate, aponta que a antecipação contínua é um sinal clássico de falta de caixa e de falhas graves de planejamento. Ele afirma que o risco aumentou porque a estratégia teria sido mantida mesmo com a instabilidade esportiva. Com o rebaixamento, a estrutura financeira que já era frágil teria entrado em colapso, já que o clube teria antecipado receitas apostando em permanência em divisões superiores — o que não ocorreu.
Críticas sobre responsabilidade política e falta de prestação de contas
Frederico Carvalho atribui responsabilidades a todas as presidências do período, sustentando que “mudavam os nomes, mas o comando era o mesmo”. Nesse contexto, ele menciona diretamente Maurício Ettinger e Roger Aguilera como figuras centrais da política interna do clube ao longo da última década.
Sobre Aguilera, Frederico afirma que o ex-presidente, eleito em 2024 após ter sido vice e ocupar cargos estratégicos, já teria plena ciência da situação financeira quando assumiu. A crítica mais dura, no entanto, recai sobre a transparência: Frederico diz que o clube não conseguia fechar balanços consistentes, mesmo em períodos de arrecadação elevada. Segundo ele, quando auditorias apontavam inconsistências, havia troca de auditor, sem que houvesse consolidação de prestação de contas confiável.
Ele também menciona possíveis movimentações financeiras irregulares, como depósitos de recursos do clube em contas e empresas ligadas a dirigentes de gestões passadas, citando auditorias internas e documentos públicos como base.
O ex-diretor reforça a crítica ao lembrar números de arrecadação recentes: segundo ele, o Paysandu teria arrecadado mais de R$ 75 milhões em 2024 e mais de R$ 85 milhões em 2025, ainda assim terminando endividado, o que, em sua visão, evidencia um problema estrutural de gestão, e não apenas de desempenho esportivo.
Clube descarta SAF por ora e detalha efeitos imediatos da recuperação judicial
Enquanto o debate sobre o tamanho real do passivo se intensifica, a direção atual não trabalha, neste momento, com a possibilidade de conversão em SAF. Em entrevista, o diretor jurídico do Paysandu, Bruno Castro, afirmou ser “prematuro” discutir esse caminho agora, destacando a cultura de clube presidencialista e mencionando a existência de “legislação própria” no horizonte, o que, para ele, reforça a cautela sobre o tema.
Com a recuperação judicial em andamento, o clube busca renegociar o débito declarado de R$ 16.762.086,24 (próximo de R$ 17 milhões). O presidente Márcio Tuma afirmou que o Paysandu terá 60 dias, a partir do deferimento do processo (na sexta-feira, dia 20), para apresentar um plano de pagamento aos credores.
Um efeito imediato do deferimento é a suspensão das cobranças por 180 dias, período previsto em lei e que pode ser prorrogado por mais 180 por decisão judicial. O advogado Felipe Borges descreve esse intervalo como um “tempo técnico”, no qual a organização pode se reestruturar para voltar a cumprir suas obrigações de forma viável, inclusive com possibilidade de capitalização ou investimento, a depender do desenho apresentado aos credores.
O clube cita exemplos de recuperações judiciais realizadas por Coritiba e Chapecoense, sendo que esta última teria sido concluída em 2025.
Rubrica de ex-presidente concentra 70% do valor declarado e clube fala em equívoco
Dentro do valor apresentado no processo, um ponto ganhou destaque: um débito que representa 70% do total. Pouco mais de R$ 12 milhões aparece vinculado ao ex-presidente Roger Aguilera em documento que lista credores.
Procurado, Aguilera afirmou que o nome dele consta porque ele assinava como mandatário do clube à época e disse que já pediu à atual gestão que corrija o “mal entendido”. Do lado do Paysandu, o diretor jurídico Bruno Castro reconheceu a existência de um equívoco relacionado à rubrica e afirmou que a lista pode ser retificada, destacando que erros nesse tipo de documento são considerados passíveis de correção a qualquer momento.



