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O silêncio dos protagonistas

Não adianta negar. O povo brasileiro ainda torce pela seleção.

Mesmo com aquele pessimismo caricato, baseado em não tão infundadas percepções do jogo, o brasileiro se esconde em bravatas que tenta acreditar. Talvez acredite mesmo. Mas no fundo, comemora o gol, mesmo silenciosamente. Se alegra com a classificação. Sofre com uma eliminação. Se sente humilhado quando passamos por momentos como o a eliminação para Noruega.

Nelson Rodrigues escreveu que o Brasil precisava recuperar a fé em si mesmo. Em 1958, o “complexo de vira-lata” fazia o brasileiro acreditar que qualquer europeu era naturalmente superior. Aquela geração venceu porque decidiu abandonar esse sentimento.

Hoje, a falta de fé continua existindo, mas ela se manifesta de outra maneira. Falta compreender o tamanho do papel que se ocupa.

Há uma diferença enorme entre errar tentando decidir e sequer assumir o direito de decidir. Em 1986, Zico se recuperando de uma lesão no joelho, entrou no jogo contra a França em uma quartas de final de Copa do Mundo e assumiu a cobrança de um pênalti decisivo. Poderia ter deixado para Careca, Sócrates, Alemão ou Branco. Não deixou. Errou. Brasil foi eliminado na disputa de pênaltis. Ele carrega esse erro até hoje. Mas bateu porque era o Zico e entendia o que significava ser o camisa 10 da Seleção Brasileira.

Oito anos depois, na final da Copa do Mundo, Romário caminhou para a cobrança na disputa de pênaltis contra a Itália com uma convicção que dizia muito sobre ele. Nunca foi um cobrador extraordinário. Muito pelo contrário. Ainda assim, queria a bola. Fez. Tirou o Brasil de uma fila de 24 anos sem título. Voltou abraçado por uma nação da qual tinha devolvido o orgulho de pertencer.

O mesmo vale para tantos outros. Ronaldo e Rivaldo disputavam até a artilharia da Copa em 2002. Pode parecer egoísmo, mas havia ali uma convicção inegociável: os protagonistas eram eles. Queriam decidir. Queriam que o jogo passasse por seus pés.

A Seleção Brasileira sempre teve uma característica rara: ela potencializava seus jogadores. Muitos eram grandes em seus clubes, mas se tornavam ainda maiores quando vestiam a camisa amarela. Era ali que Romário virava Romário. Bebeto virava Bebeto. Ronaldo virava Ronaldo. Rivaldo, Cafu, Roberto Carlos e tantos outros encontravam sua melhor versão. A Seleção não diminuía seus craques, mas sim os amplificava.

Hoje parece acontecer o inverso. Jogadores chegam como referências de seus clubes e deixam a Seleção menores do que entraram. Marcelo foi durante anos um dos melhores laterais-esquerdos do mundo pelo Real Madrid, ganhou cinco Champions, mas jamais conseguiu reproduzir nem de perto esse nível de atuação de forma consistente pela Seleção. Marquinhos empilhou temporadas de elite no PSG e, ainda assim, sua trajetória pela Seleção é marcada mais por frustrações do que por atuações memoráveis. O mesmo vale para Casemiro, Raphinha e tantos outros.

Antigamente, vestir a camisa da Seleção parecia acrescentar algo ao jogador. Mas hoje, o craque do clube se transforma em apenas mais um quando chega ao Brasil. Talvez porque a própria Seleção tenha deixado de exigir que ele seja mais do que isso.

A declaração de Raphinha de que os jogadores abriram mão das férias para estar com a Seleção revela, ainda que involuntariamente, o quanto a imagem da Seleção Brasileira parece ter diminuído aos olhos de quem a representa. Desde quando quinze dias de férias se tornaram um argumento diante do privilégio de disputar uma Copa do Mundo? Desde quando representar o Brasil passou a ser comparado ao tempo de descanso perdido?

Quantos desses jogadores cresceram sonhando com esse momento? Quantos imaginaram vestir a camisa da maior seleção da história, ouvir o hino nacional antes de uma Copa do Mundo e carregar a responsabilidade de representar um país inteiro? Durante décadas, esse era o ápice da carreira de qualquer atleta.

Espera-se que o torcedor seja grato porque os jogadores abriram mão das férias para atender à convocação? Como se vestir a camisa da Seleção Brasileira fosse um sacrifício, e não uma das maiores honras que um jogador de futebol pode receber.

É sintomático ver Vinícius Júnior, um dos melhores jogadores do mundo, protagonista de dois títulos da Champions League e autor de três gols em finais, abrir mão de uma cobrança decisiva para entregar a bola a Bruno Guimarães, ainda que por orientação da comissão técnica. Ou ver Endrick desperdiçar uma oportunidade clara e ser imediatamente tratado apenas como “um garoto de 19 anos”. É verdade que é um garoto de 19 anos. Mas também é atacante da Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo. As duas coisas podem coexistir. Não se trata de crucificar jogadores por erros, mas de entender que, quando se representa o Brasil em uma Copa do Mundo, a responsabilidade é diferente.

Hoje ouvimos de um camisa 7 da Seleção que não liga para artilharia, que não é “vaidoso”. Que a comissão teria decidido o batedor. A inversão completa do que se espera de um craque. Na Argentina, quem cobra é o Messi. Em Portugal, Cristiano. Na Inglaterra, Harry Kane. Na badalada França, Mbappé. Pouco importa o que fizeram Bellingham, Declan Rice, Enzo Fernández, De Paul, João Neves, Vitinha, Olise, Dembélé. A Copa do Mundo é o palco dos gênios. Nos momentos de maior tensão e caos que o futebol é capaz de produzir, os grandes jogadores transformam em ato tudo aquilo que os torna extraordinários. Os momentos de decisão sempre pertencem a eles.

E é justamente pensando nisso que surge um nome inevitável: Neymar Jr. O jogador brasileiro mais complexo de analisar nos últimos quinze anos.

Mas há algo que sempre enxerguei em Neymar: ele foi o último jogador a compreender plenamente o que significava vestir a camisa da Seleção Brasileira. Pode-se discutir suas escolhas, sua personalidade, seus excessos e os erros que cometeu dentro e principalmente fora de campo. Tudo isso faz parte da análise. O que não se pode dizer é que tenha sido um jogador omisso. Ele nunca fugiu da responsabilidade. Queria a bola, queria bater o pênalti, queria decidir. Falhava. Mas fazia questão de que o peso da derrota, e da vitória, passasse por ele.

Esse é o ponto que mais faz falta hoje. Conseguimos imaginar alguém tirando a bola dos pés de Neymar em uma cobrança decisiva? Conseguimos imaginá-lo recusando o protagonismo? Eu não consigo.

Setenta anos depois, a frase de Nelson Rodrigues continua atual:

“O problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo”

O povo brasileiro tem fé em seus protagonistas. A pergunta é se os protagonistas ainda sabem que o são.

Luiz Dias

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