O movimento de reconfiguração de poder na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) não passa necessariamente pela queda do presidente Samir Xaud, mas ocorre de forma mais sutil nos corredores da entidade e nos tribunais. Enquanto um grupo articulado a partir de Brasília ganha espaço na cúpula da confederação, a liga Futebol Forte União (FFU) enfrenta uma crise jurídica e institucional sem precedentes. Duas ações judiciais recentes — uma no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e outra na 12ª Vara Cível de Manaus — colocam em xeque os contratos de direitos de transmissão que sustentam o bloco formado por grande parte dos clubes das Séries A e B.
O estopim para o racha foi a liminar obtida pelo CSA no Cade em 25 de junho, proibindo a criação de obstáculos para a saída de clubes descontentes da FFU. Em paralelo, o Amazonas ingressou com uma ação na Justiça do Amazonas questionando as garantias de uma emissão de R$ 950 milhões em debêntures pela Sports Media Entertainment (SME), principal parceira da FFU. A SME comprou percentuais entre 10% e 20% dos direitos de transmissão dos clubes por 50 anos, enquanto a comercialização do montante total ficou a cargo da Livemode. O presidente do Amazonas, Wesley Couto dos Santos, afirmou que a emissão das debêntures ocorreu “sem a devida autorização dos clubes” e que os valores não foram integralmente repassados. Um dos desfechos possíveis da ação é que o fluxo de recebíveis deixe de ir para a SME e passe a ser direcionado diretamente ao pagamento dos credores, ou ainda que os direitos de transmissão sejam leiloados.
Nesta quinta-feira (9), a FFU convocou uma reunião com os clubes do bloco na sede da Federação Paulista de Futebol (FPF), em São Paulo. A pauta não foi informada previamente e investidores não foram chamados. Entre as deliberações, ficou decidida a contratação de um advogado independente para tratar da questão no Cade e a criação de uma comissão para discutir a formação de uma liga única com a CBF. Farão parte do grupo Fluminense, Athletico, Corinthians, Internacional, Vasco, Cuiabá, Atlético-GO e Botafogo-SP. O Corinthians, inclusive, já havia enviado um ofício à FFU informando que “não pode negociar em conjunto com um ente associativo que não observe integralmente a legislação concorrencial”.

Filho de Gilmar Mendes negocia liga única
Por trás do movimento de unificação da liga sob a tutela da CBF está Francisco Schertel Mendes, filho do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes. Aos 41 anos, Francisco ocupa formalmente o cargo de vice-presidente da Federação Mato-grossense de Futebol, mas sua influência na confederação vai muito além do título. Ele é o único brasileiro membro do Comitê Disciplinar da Fifa — o mesmo que anulou o cartão vermelho do atacante americano Balogun após pressão do presidente Donald Trump — e lidera um grupo de aliados conhecido internamente como “turma de Brasília”.
O domínio da família Mendes sobre a CBF começou a se consolidar em 2023, quando a entidade firmou um contrato de dez anos com o Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), fundado pelo ministro Gilmar Mendes e comandado pelo filho. O acordo entregou ao IDP a administração da CBF Academy, braço educacional da confederação, com o instituto ficando com 84% do faturamento bruto e a CBF com 16% restantes. O IDP precisou fazer um investimento inicial de quase R$ 10 milhões e levou dois anos para equilibrar as contas da operação. O próprio presidente da CBF, Samir Xaud, é egresso da CBF Academy, e integrantes ligados ao IDP hoje ocupam cargos estratégicos na entidade, incluindo as diretorias jurídica, administrativa e de desenvolvimento do futebol.

A “turma de Brasília” foi responsável pela implementação do fair play financeiro — conjunto de regras que limita o endividamento dos clubes e impede atrasos salariais — e agora está integralmente dedicada a desfazer os contratos da FFU e formar uma liga única sob o guarda-chuva da CBF, sem interferência de investidores externos. O objetivo declarado é rescindir os acordos de 50 anos com a SME e a Livemode, considerados por essa ala como um mau negócio para os clubes. Dirigentes de federações ouvidos reservadamente admitem que a presença do filho do ministro do STF intimida, e que são raros os que têm coragem de contestar abertamente os Mendes.
Após a eliminação do Brasil na Copa do Mundo, Gilmar Mendes utilizou as redes sociais para defender a estabilidade na confederação. “A permanência de Carlo Ancelotti à frente da equipe dá solidez a esse recomeço”, escreveu o ministro, em uma manifestação que não passou despercebida diante do protagonismo cada vez maior do filho dentro da estrutura do futebol brasileiro. Nos bastidores, Francisco já é visto como um possível candidato à presidência da CBF no futuro, consolidando um projeto de poder que começou com a parceria entre a confederação e o instituto da família.
Fonte: Lance; Uol; Pleno News.



