O presidente do Marília, Alysson Alex, aproveitou a coletiva de apresentação do novo treinador, Marcelo Marelli, para falar sobre a situação do Tigre e anunciar que levará ao Conselho Deliberativo uma proposta para transformar o clube em Sociedade Anônima do Futebol (SAF) — o modelo em que o futebol de um clube passa a ser gerido por uma empresa, com investidores dividindo o controle com a associação. “Vamos convocar o Conselho Deliberativo do clube para votar a proposta da SAF, não tem jeito. Deve ser na semana que vem, mas isso não significa que o MAC vai virar SAF agora, pode levar mais de um ano”, afirmou o dirigente. A ressalva é importante: a votação abre o processo, mas a transformação depende de etapas seguintes, como a formatação da empresa e a chegada efetiva de investidores — por isso o próprio presidente projeta um prazo superior a doze meses.
Alysson também admitiu que a Série A2 de 2027 pode ser a última competição de sua gestão e cobrou maior participação da cidade, dos torcedores e do empresariado de Marília. “Talvez a Série A2 seja a última competição da nossa gestão. As pessoas não estão entendendo isso, mas é hora de a cidade entender o que queremos com o clube. O torcedor me deu a resposta, mas tenho dúvidas se o empresariado quer e eles precisam estar nessa discussão. Sento com qualquer um que queira tocar o clube, com ou sem a minha presença”, declarou.
A pior situação financeira em nove temporadas
O presidente classificou a situação financeira como a pior de suas nove temporadas à frente do clube e relatou dificuldades para manter os patrocinadores. “É o pior momento que vivo no Marília, e estou indo para a nona temporada. Faço um apelo aos empresários e agentes de atletas, que estão pedindo salários astronômicos, enquanto temos pessoas passando fome. Muitos patrocinadores me procuram para diminuir o valor ou sair, e, entre aqueles que visitei até agora, não tive um sim. O momento é o pior possível”, disse. O relato desenha um quadro em que a receita encolhe enquanto as despesas com o futebol seguem pressionadas — combinação que costuma anteceder decisões estruturais, como a própria discussão sobre a SAF.
Na coletiva, o dirigente também cobrou maior apoio da prefeitura e do empresariado, destacando a importância do prefeito Vinicius Camarinha para a manutenção do clube e para as melhorias no Abreuzão, o estádio municipal de Marília que passou por obras recentes. No planejamento esportivo, afirmou que, se a decisão fosse tomada naquele momento, o Marília não disputaria a Copa Paulista de 2027. O presidente revelou ainda que dispensou um jogador por justa causa — medida prevista na legislação trabalhista quando há falta grave comprovada, sem o pagamento de verbas rescisórias.
Autorização federal para captar recursos vai reforçar as categorias de base
Em outra frente, o Marília Atlético Clube recebeu autorização do Ministério do Esporte para captar recursos por meio da Lei de Incentivo ao Esporte (LIE). A receita será destinada à gestão das categorias de base, com o objetivo de fortalecer a formação de jovens atletas e contribuir para a manutenção das atividades do clube. O MAC possui o Certificado de Clube Formador reconhecido pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e está entre as 37 equipes paulistas que atendem a todos os requisitos exigidos para esse reconhecimento. Atualmente, o clube trabalha com jovens das categorias sub-11 ao sub-17.
“Esse apoio do Ministério do Esporte é muito importante para nós. Com essa receita, nós podemos melhorar a estrutura de treinamento dos atletas, garantir mais materiais, acompanhamento de saúde, educação e viagens. Assim, o nosso clube consegue oferecer condições reais para que os nossos jovens cresçam com segurança, disciplina e oportunidade. É um investimento que ajuda a formar não só atletas, mas também cidadãos comprometidos com a cidade e com o esporte”, ressaltou o coordenador das categorias de base do MAC, Marcus Vinícius.
A Lei de Incentivo ao Esporte funciona como um redirecionamento de impostos: em vez de pagar o valor integral do Imposto de Renda ao governo, empresas e pessoas físicas escolhem repassar uma parte desse dinheiro diretamente para um projeto esportivo já aprovado, e o governo federal abre mão dessa arrecadação para financiar o esporte. Empresas tributadas pelo Lucro Real podem destinar até 2% do imposto devido — limite que subirá para até 3% a partir de 2028. Companhias que pagam pelo Simples Nacional ou pelo Lucro Presumido não podem fazer essa dedução, o que explica a participação rara delas. Pessoas físicas que usam a declaração no modelo completo podem destinar até 7% do imposto devido.
Há, porém, uma regra decisiva: a lei é terminantemente proibida para o futebol profissional. Conforme as diretrizes atualizadas pela Lei Complementar nº 222/2025 e pelo Decreto nº 12.861/2026, os recursos de renúncia fiscal não podem remunerar atletas profissionais nem manter equipes e competições profissionais. Na base, o Marília pode usar o dinheiro para salários da comissão técnica das categorias de base — treinadores, preparadores físicos e assistentes sociais —, alimentação, suplementação e equipe de nutrição; materiais de treino como bolas, coletes e cones; e viagens, hospedagens e inscrições em torneios de base organizados por federações. Se o clube tiver futebol feminino, também pode receber recursos da lei para torneios, ligas e manutenção de equipes, desde que as atletas não tenham contrato de trabalho desportivo profissional assinado sob as regras da CBF e da Lei Geral do Esporte.
Na prática, as duas frentes se complementam, mas atuam em velocidades diferentes. A Lei de Incentivo ao Esporte traz alívio imediato para a estrutura da base, sem tocar no caixa do futebol profissional — que é justamente onde a crise descrita pelo presidente aperta. Já a SAF, se aprovada pelo Conselho, é uma resposta de médio e longo prazo, com prazo que o próprio dirigente estima em mais de um ano. Entre uma coisa e outra, o Marília segue dependendo de patrocínios que estão sendo reduzidos ou encerrados e de um apoio do poder público e do empresariado local que a diretoria considera insuficiente até aqui.
Fonte: ge.Globo; Jornal da Manhã; Futebol Interior.



