O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta semana que pretende acabar com as bets no Brasil e disse que os clubes de futebol terão de buscar outras fontes de financiamento caso as apostas deixem de operar no país. A declaração ocorreu na quarta-feira (23), durante o Cultura com Lula, ato com artistas e representantes do setor cultural na Fundição Progresso, na Lapa, no Centro do Rio — após uma reunião com ministros do governo para discutir medidas de restrição ao setor. “Essa não é uma guerra, é uma decisão. Nós vamos acabar com as bets”, afirmou o presidente, que também cobrou outras fontes de financiamento e mencionou o modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF) como alternativa para os clubes. “E os times que aprendam a virar times empresários”, completou.
A possibilidade de uma mudança na legislação, porém, já começa a produzir efeitos nos contratos entre casas de apostas e as equipes do Brasileirão. Algumas empresas do setor já comunicaram aos clubes a possibilidade de encerramento dos acordos caso seja aprovada uma medida que proíba as apostas esportivas. A Superbet, que mantém acordos de patrocínio com São Paulo e Fluminense, notificou os times sobre a possibilidade de rescisão diante de um eventual veto. A Esportes da Sorte também enviou comunicado às equipes patrocinadas — entre elas o Corinthians, que confirmou o recebimento do documento. No caso do Flamengo, a Betano ainda não fez uma notificação formal, mas já informou à diretoria rubro-negra que uma proibição geral das apostas poderia levar ao encerramento do acordo. O contrato prevê diferentes consequências de acordo com o tipo de alteração regulatória e representa cerca de R$ 268 milhões por ano para o clube — uma eventual saída das bets poderia afetar até 20% da receita prevista do time carioca, considerando também valores relacionados a propriedades comercializadas para empresas do setor.
Diante desse cenário, o Rubro-Negro já avalia alternativas para o espaço principal da camisa. A Lubrax, que atualmente ocupa uma posição nas costas do uniforme, demonstrou interesse em assumir a área máster caso a Betano deixe o acordo. O clube também mantém conversas com empresas do setor bancário e recebeu sondagens de multinacionais interessadas na propriedade — o desafio, porém, passa por encontrar um novo parceiro capaz de se aproximar dos valores previstos no contrato atual. A exposição das casas de apostas no futebol brasileiro é ampla: atualmente, 13 das 20 equipes que disputam a Série A têm empresas do segmento como patrocinadoras máster.
O embate com o manifesto dos clubes
Lula disse ter tomado conhecimento sobre o manifesto elaborado por clubes contra restrições às casas de apostas — e, segundo ele, ainda não havia recebido o texto. Os dirigentes argumentam que o fim das plataformas comprometeria o futebol brasileiro. A reação das equipes foi formalizada em um manifesto divulgado em 17 de setembro, intitulado “O fim do futebol brasileiro”. Entre as entidades que divulgaram o documento estão as federações de futebol de São Paulo e do Rio, além de clubes como Flamengo, Palmeiras, Santos, Vasco e São Paulo. Os clubes reconhecem os problemas sociais associados às apostas, mas defendem a fiscalização e a proteção dos usuários com a manutenção do mercado regulamentado. “Se acabar com o mercado regulado, as apostas não acabam. O futebol é quem acaba”, diz o documento. A versão da medida provisória em discussão no governo à época do manifesto previa proibir cassinos on-line, sem atingir diretamente apostas esportivas ou patrocínios.
Para rebater o argumento da dependência financeira, o presidente citou os títulos mundiais de Santos, Flamengo, Corinthians, Internacional, Grêmio e São Paulo — provocando, durante a enumeração, que Vasco e Palmeiras não haviam conquistado o título mundial citado por ele — e mencionou as cinco conquistas da seleção brasileira em Copas do Mundo, em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. “E os times eram muito melhores do que agora”, afirmou. Na avaliação de Lula, o dinheiro usado pelas bets para patrocinar os clubes vem dos próprios apostadores, e ele associou a atividade ao adoecimento de pessoas de baixa renda. “Agora chega a bet, que não oferece nenhum entretenimento para ninguém, sabe? E fica financiando os clubes com quem? Com dinheiro do pobre”, disse. O presidente pediu aos dirigentes que reconsiderem a defesa das plataformas e argumentou que os torcedores já contribuem para o financiamento das equipes ao comprar ingressos e camisas. “Eu acho uma insensatez. Se tiver algum dirigente de clube me ouvindo agora, pelo amor de Deus, reflita”, completou. O presidente também relacionou a medida à preocupação com o impacto das plataformas entre os jovens. “A minha preocupação é que hoje tem uma parte da juventude atrelada aos algoritmos. E se a gente não fizer essa luta, os algoritmos vão ganhar. Eu não tenho nenhum problema em dizer. Eu terei o imenso prazer de acabar com as bets”, declarou. “Em nome da boa política, em nome da sociedade brasileira que a gente vai acabar com isso e os times que aprendam a viver sem lavagem de dinheiro. É isso. Vai ser assim. E isso vai ser bom para a juventude”, acrescentou.
Na prática, o futebol brasileiro vive um impasse que mistura política e bilhões em contratos: de um lado, o governo sinaliza o fim das plataformas e sugere que os clubes se adaptem, inclusive por meio da lei da SAF; de outro, as agremiações alertam para a perda de receitas em um mercado que patrocina a maioria dos times da elite — e as próprias casas de apostas já se preparam para um eventual rompimento dos acordos. Enquanto o governo discute os próximos passos para o setor, clubes, patrocinadores e torcedores acompanham cada movimento de um embate que pode redesenhar o financiamento do futebol nacional.
Fonte: MKT Esportivo; Congresso em Foco.


