A discussão sobre a venda das ações da Sociedade Anônima do Futebol do América Futebol Clube para o fundo árabe Global Seven Eleven Energy Oil FZ-LLC colocou o clube em uma encruzilhada, visto que o Coelho precisa urgentemente de injeção de novos recursos, mas a proposta apresentada trazia riscos importantes para o patrimônio, segundo dirigentes.
O parecer técnico-jurídico contratado pelo Alviverde apontou 25 pontos de risco grave e, por isso, o Conselho Consultivo recomendou a rejeição do documento. Esta análise apresenta, de forma mais direta, os principais problemas da proposta, os riscos para o patrimônio do clube, as dificuldades de gestão, a crise política e a situação financeira e esportiva do América.
O aporte de R$ 800 milhões: Como a compra funciona
A proposta dos compradores foi divulgada como um investimento de R$ 800 milhões em dez anos, podendo chegar a R$ 1,03 bilhão, porém, a análise mostrou que o único valor novo e garantido que seria colocado pelo fundo era de R$ 20 milhões, divididos em quatro parcelas mensais de R$ 5 milhões.
Os outros R$ 780 milhões não seriam, de fato, dinheiro colocado pelo fundo, já que pela interpretação do memorando, receitas que o próprio América já teria no futuro como direitos de transmissão, venda de jogadores, bilheteria, patrocínios e licenciamento seriam consideradas como geração de recursos e contadas como investimento dos compradores.
Considerando, por exemplo, receitas de R$ 70 milhões por ano, o próprio América geraria R$ 700 milhões em dez anos, se a média chegasse a R$ 80 milhões por ano, os investidores poderiam cumprir a promessa de R$ 800 milhões sem colocar esse valor do próprio caixa, o que na prática permitiria adquirir o controle do clube com um investimento direto muito baixo.
A proposta para pagar as dívidas do clube também apresentava problemas, o fundo assumiria as dívidas do América até o limite de R$ 197 milhões, mas o documento não apresentava um cronograma claro de pagamento aos credores.
Isso deixaria o clube sujeito a cobranças, sanções e processos judiciais no curto prazo, e além disso, se a dívida real fosse menor que R$ 197 milhões, a diferença não seria necessariamente usada em novos investimentos, os valores pagos aos credores poderiam ser considerados pelos compradores como parte da meta de investimento da SAF.
O patrimônio em jogo
A forma como o negócio foi apresentado levantou a preocupação de que o patrimônio do América poderia ser usado mais como fonte de exploração imobiliária do que como base para desenvolver o futebol.
Os principais pontos de preocupação estavam na forma como os imóveis do clube seriam entregues aos compradores:
a) Arena Independência: A proposta previa a cessão de uso do estádio para a SAF por 70 anos, sendo 35 anos com renovação automática por mais 35. O resultado operacional líquido seria dividido igualmente, 50% para cada lado, e a SAF ficaria responsável pelos custos de manutenção, porém, o memorando não estabelecia um cronograma ou um plano obrigatório para modernizar a arena.
b) Venda do CT Lanna Drumond: O contrato previa a transferência definitiva do principal centro de treinamento do América para a SAF. A SAF também poderia vender o terreno, desde que construísse um novo CT em outra área da Região Metropolitana de Belo Horizonte. O problema é que não havia regras claras sobre o tamanho, a qualidade ou o prazo para entrega do novo centro de treinamento.
c) Exploração do CT de Santa Luzia: O terreno, atualmente utilizado pelo futebol feminino, seria transferido para uma empresa imobiliária conjunta, os investidores ficariam com 80% do Valor Geral de Venda (VGV), enquanto a associação do América teria apenas 20%. Por isso, o parecer recomendou que essa operação fosse totalmente rejeitada e que o CT permanecesse sob controle exclusivo da associação.
Falta de transparência sobre o investidor e prazos muito curtos
Um dos principais problemas foi a falta de informações claras sobre o investidor que estaria por trás do negócio, o América-MG negociou sem receber documentos auditados suficientes para comprovar a capacidade financeira e a origem dos recursos do fundo sediado em Dubai e Gana.
As negociações foram intermediadas por Elias Webber, representante da GPA Capital, empresa com capital social de R$ 159 mil. Também não foi apresentada uma comprovação formal dos recursos nem uma confirmação firme dos parceiros do Oriente Médio sobre os termos do negócio.
Além da falta de transparência, os compradores deram ao clube pouco tempo para analisar a proposta. O América-MG teria apenas 30 dias para concluir a análise técnica, jurídica e fiscal do Memorando.
Essa pressa, junto com a falta de garantias financeiras e de um cronograma detalhado para pagamento das dívidas, foi considerada pelo corpo técnico do América como um risco muito alto.
A disputa política no América: Conselhos divididos e ano eleitoral
A discussão sobre a venda da SAF também mostrou uma divisão interna forte no América, o clube vive uma crise financeira e esportiva, mas seus diferentes órgãos de decisão não têm a mesma posição sobre a venda do controle do futebol.
De um lado, o Conselho Consultivo, formado por ex-presidentes e pessoas ligadas à história do clube, adotou uma posição mais conservadora.
Esse conselho analisou os 25 riscos apontados no parecer e recomendou a rejeição do MoU, e também apresentou medidas que considerava necessárias, como reduzir a cessão do Independência para 10 anos e impedir a venda do CT Lanna Drumond.
Por outro lado, parte do Conselho estava dividida, muitos conselheiros, preocupados com a falta de dinheiro e com o risco de o clube não conseguir pagar suas obrigações, defendiam mais flexibilidade e uma negociação rápida.
A situação ficou ainda mais difícil porque 2026 é ano eleitoral, a eleição para a presidência e para os cargos do conselho pode gerar aumento nas disputas internas e a venda da SAF passou a ser usada também como tema de disputa política.
Para tentar controlar a situação e evitar novos vazamentos do parecer, o presidente do Conselho de Administração, Márcio Vidal, centralizou a comunicação e proibiu manifestações externas de conselheiros e dirigentes. Com possibilidade de responsabilização civil e judicial, essa medida, porém, aumentou a desconfiança dentro do clube.
Contudo, a figura que efetivamente atuou como peça-chave e catalisadora na não realização da venda da SAF foi Marcus Salum, que mesmo sem cargo formal é quem dá a última cartada nos assuntos do América. Salum foi o principal arquiteto da resistência contra a assinatura do MoU, assim como foi quem declinou das inúmeras propostas que ocorreram desde 2021.
Essa falta de unidade prejudicou diretamente a negociação, o vazamento de documentos sigilosos e a demora para cumprir as etapas de aprovação do América que envolvem o Conselho Consultivo, o Conselho Deliberativo e a Assembleia Geral de Sócios desagradaram os proponentes.
A dificuldade do América de agir de forma unificada e organizada acaba por prejudicar uma das maiores possibilidades de investimento já discutidas pelo clube, tal medida também pode ser vista como forma da ala conservadora adiar ao máximo a sua saída do poder da instituição.
As finanças em colapso e o risco da Série C
A atual administração, adota uma postura mais conservadora e contrária à perda do controle do futebol, tem apontado os problemas do MoU como justificativa para rejeitar a proposta, porém, os balanços financeiros do América-MG de 2023 a 2025 mostram que a situação financeira do clube também se agravou muito nos últimos anos.
Os números mostram uma forte queda nas receitas e um grande aumento das dívidas:
| Indicador Financeiro Consolidado | Exercício 2023 | Exercício 2024 | Exercício 2025 |
| Receita Operacional Líquida | R$ 187,88 milhões | R$ 49,03 milhões | R$ 40,06 / R$ 41,52 milhões |
| Déficit Líquido do Exercício | R$ (22,13) milhões | R$ (58,44) milhões | R$ (60,35) milhões |
| Patrimônio Social (Líquido) | R$ 50,41 milhões | R$ (17,74) milhões (Passivo a Descoberto) | R$ (78,10) milhões (Passivo a Descoberto) |
| Déficit Acumulado Histórico | R$ (112,68) milhões | R$ (178,22) milhões | R$ (244,22) / R$ (245,61) milhões |
| Passivo Circulante (Curto Prazo) | R$ 56,12 milhões | R$ 78,30 milhões | R$ 112,24 milhões |
Os números mostram os seguintes problemas:
A) Colapso de Receitas: A receita operacional caiu de R$ 187,88 milhões em 2023 para R$ 49,03 milhões em 2024 e para R$ 40,06 milhões em 2025. Isso representa uma queda de 78,6% em apenas dois anos, entre os fatores principais que justificam a diminuição de arrecadação estão o rebaixamento para a Série B e a dificuldade de criar novas fontes estáveis de receita.
B) Déficits Crônicos e Insolvência: O clube teve prejuízos de R$ 22,13 milhões em 2023, R$ 58,44 milhões em 2024 e R$ 60,35 milhões em 2025, com isso, a situação patrimonial piorou bastante.
O patrimônio líquido passou de R$ 50,41 milhões positivos em 2023 para R$ 17,74 milhões negativos em 2024 e R$ 78,10 milhões negativos em 2025. O déficit acumulado chegou a R$ 244,22 milhões no final do último exercício.
C) Estrangulamento de Curto Prazo: As dívidas e obrigações que vencem no curto prazo, incluindo salários, encargos e fornecedores, aumentaram de R$ 78,30 milhões em 2024 para R$ 112,24 milhões em 2025. Sem capital de giro próprio, o clube fica sob forte pressão para manter suas atividades do dia a dia.
Essa forte dificuldade financeira e a falta de dinheiro em caixa também afetaram diretamente o dia a dia do clube em 2026, principalmente com os atrasos nos salários.
Conforme divulgado pela imprensa esportiva, o América enfrenta atrasos no pagamento de seus colaboradores desde janeiro de 2026, situação que se agravou nos últimos dois meses. Atualmente, jogadores do elenco profissional e integrantes da comissão técnica acumulam mais de 60 dias de salários atrasados.
No último mês, a diretoria conseguiu pagar apenas os funcionários administrativos com salários de até R$ 2.500. Os demais funcionários e profissionais continuam sem receber, e a situação vem causando dificuldades financeiras pessoais e também problemas no funcionamento interno do clube, além de aumentar o clima de tensão e desânimo entre os colaboradores, o que pode afetar o ambiente de trabalho e a estabilidade do futebol.
A crise financeira dificultou a montagem de um elenco competitivo, o que é evidente dentro de campo, já que na Série B do Campeonato Brasileiro, o América está na penúltima posição com 14 pontos em 25 partidas, e a probabilidade estatística de rebaixamento para a Série C é superior a 99%.
Se a situação financeira já é muito grave, uma queda para a Série C sem a entrada urgente de recursos de uma SAF pode piorar ainda mais o cenário.
Na Série B, uma das principais receitas é a cota de transmissão, hoje estimada em cerca de R$ 14 milhões por ano, na Série C, não existe o mesmo pagamento centralizado de direitos de transmissão; a ajuda indicada para logística é de aproximadamente R$ 1,35 milhão.
Uma perda de receita desse tamanho dificultaria ainda mais o pagamento das dívidas bancárias e a manutenção de uma folha salarial profissional, além de que as punições pelo descumprimento do fair play financeiro da CBF já começam a vigorar, podendo prolongar a crise do América por vários anos.
O dilema da vulnerabilidade
Uma análise das demonstrações contábeis e das informações disponíveis mostra o América Futebol Clube preso entre duas situações muito difíceis, o que já ocorreu em outras vezes, e o clube se viu atropelado pela marcha da história.
De um lado, a proposta apresentada pelo fundo Global Seven Eleven de fato, apresentava riscos jurídicos importantes, na prática, a estrutura da proposta permitia que boa parte do investimento fosse formada pelo próprio faturamento futuro do clube, o que deixava o América assumindo grande parte do risco da operação.
Por outro lado, também é preciso reconhecer que a própria diretoria que barrou o negócio, teve participação crucial na construção do cenário atual.
Nos últimos anos, o faturamento do clube caiu de cerca de R$ 187 milhões para R$ 40 milhões, enquanto os prejuízos anuais passaram dos R$ 60 milhões e o patrimônio líquido ficou negativo em aproximadamente R$ 78 milhões.
Além disso, essa mesma direção já havia resistido à transformação do clube em SAF em momentos mais favoráveis, quando o América estava na Série A, apresentava uma situação financeira melhor e tinha um valor de mercado muito maior.
O risco de uma nova crise esportiva e financeira também lembra momentos importantes da própria história do América, ao longo de mais de cem anos, o clube já enfrentou períodos de forte declínio por não acompanhar algumas das grandes mudanças que transformaram o futebol brasileiro.
Um dos exemplos mais marcantes aconteceu em 1933, quando o futebol brasileiro passou pela profissionalização e preso à ideia de manter um futebol amador, o América rejeitou a mudança.
Enquanto Atlético-MG e Cruzeiro, então Palestra Itália, avançavam rapidamente para o profissionalismo e modernizavam suas estruturas, o América continuava preso a ideias ultrapassadas e o resultado foi uma sequência de campanhas ruins e um longo período sem grandes conquistas estaduais, até a retomada do título em 1948 após uma seca de 23 anos.
Décadas depois, outro momento de transformação aconteceu com a inauguração do Mineirão, em 1965, o futebol mineiro entrou em uma nova fase, marcada pelo crescimento do público, das receitas e da exploração comercial do esporte.
Mais uma vez, o América teve dificuldades para acompanhar essa mudança, enquanto seus principais rivais ampliavam sua estrutura e sua capacidade de gerar receitas e engajamento, o Coelho perdeu espaço no cenário estadual e nacional e passou por novas crises e rebaixamentos nas décadas seguintes.
Agora, diante do risco de queda para a Série C e de uma imagem cada vez mais desgastada no mercado, especialmente por causa dos atrasos salariais e das disputas internas, o América tem pouco tempo e pouca margem para errar.
A postura de proteção adotada por Marcus Salum pode ser considerada juridicamente justificável diante dos problemas da proposta apresentada pelo fundo árabe, mas também teve como consequência o afastamento dos investidores, deixando o clube sem uma fonte imediata de recursos para enfrentar a crise.
O desafio, portanto, é encontrar um equilíbrio, o América precisa proteger seu patrimônio e sua história, mas também precisa estar aberto a novos modelos de gestão e parceria que permitam sua recuperação financeira.
Se a atual administração continuar hesitando diante de novas possibilidades de capitalização, o clube poderá perder oportunidades importantes justamente no momento em que mais precisa de recursos.
O risco é que a resistência às mudanças, que já marcou outros momentos da história do América, volte a cobrar um preço alto, em um cenário de crise financeira, salários atrasados e ameaça de queda para a Série C. Insistir em um modelo que já não consegue sustentar o clube pode aprofundar ainda mais o declínio esportivo e institucional do Coelho.
Rafael Inácio da Silva Caldas
Advogado especialista em Direito Desportivo e Negócios no Esporte.



