A maioria dos conselheiros do Guarani rejeitou a proposta, pelo menos por enquanto, apresentada pelo empresário Roberto Graziano para assumir a SAF do clube. O que parecia caminhar para um acordo acabou esbarrando em números, prazo e, principalmente, na falta de confiança dos conselheiros em relação ao modelo apresentado.
A proposta previa R$ 400 milhões para a SAF, divididos em 20 anos, além de R$ 350 milhões para o pagamento das dívidas. No papel, seriam R$ 750 milhões. Mas, na prática, os valores seriam diluídos durante duas décadas.
Como a minuta inicial não foi aprovada de imediato devido a divergências, o conselho deliberativo montou uma comissão com representantes das três chapas eleitas para negociar ajustes na proposta de SAF.
Para os críticos, o problema é o Guarani entregar o controle do futebol por um período muito longo sem receber uma injeção financeira imediata compatível com o tamanho do negócio. Além disso, o Brinco de Ouro foi incluído na operação, embora o estádio já pertença ao próprio Graziano.
Uma conta que não convenceu
Outro ponto questionado foi o valor das dívidas. Os R$ 350 milhões previstos podem diminuir consideravelmente após negociações com credores e parcelamentos. Com isso, parte dos conselheiros entende que o custo real para solucionar o passivo pode ser menor.
Também pesou o fato de que o Guarani já possui receitas importantes com suas participações no Campeonato Paulista e na Série B. Para os críticos, com uma gestão eficiente, seria possível buscar receitas adicionais por meio de patrocinadores, marketing e exploração comercial.
A questão, portanto, não é simplesmente ser contra a SAF. É saber se a proposta apresentada realmente transforma o Guarani ou apenas garante ao investidor uma posição privilegiada durante o período de controle do clube.
Sigilo e multa aumentaram a desconfiança
A falta de transparência também prejudicou a negociação. Os conselheiros tiveram acesso à minuta do pré-contrato, mas não poderiam divulgar seus detalhes. Em uma decisão que pode comprometer o futuro do clube por até 40 anos, o sigilo acabou aumentando a desconfiança.
Outro ponto polêmico foi a multa de 10% do contrato, equivalente a R$ 75 milhões, caso Graziano não fosse aprovado até 4 de setembro. Para alguns conselheiros, a cláusula funcionou como uma espécie de pressão pela aprovação.
A rejeição, porém, não significa necessariamente que o Guarani seja contra uma SAF. Significa que, pelo menos neste momento, a proposta não convenceu.
Se Graziano realmente quiser assumir o futebol do Bugre, terá de voltar à mesa de negociação com uma oferta mais clara, transparente e vantajosa para o clube.
No fim, a decisão dos conselheiros pode ter sido menos um “não à SAF” e mais um “não a este modelo de SAF”.
E talvez seja exatamente isso que o Guarani precisava fazer: antes de pensar no dinheiro de hoje, pensar no clube que quer deixar para as próximas gerações.
Fagner Ramos
Jornalista com experiência em rádio, jornal e revista e assessoria de imprensa. Ao longo da carreira, atuou na Rádio Central de Campinas, Rádio Brasil, afiliada à Jovem Pan e na CBN Campinas, desenvolvendo trabalhos na produção de conteúdo, apuração, redação e cobertura jornalística. Também possui atuação como produtor de programas esportivos, além de comunicação e gestão de conteúdo digital, unindo prática de redação jornalística com estratégia de posicionamento e relacionamento com a imprensa.



