Quem acompanha o futebol feminino sabe que talento nunca faltou. O que mudou foi a dimensão do interesse do público, e, principalmente, a atenção que o mercado passou a dedicar a esse movimento.
Um levantamento divulgado em 26 de agosto de 2026 pela FSports, em parceria com Google Trends, Horizm e Ibope Repucom, durante o evento FF.Co – Comunidade do Futebol Feminino Brasileiro, em São Paulo, revela a força dessa transformação: nos últimos cinco anos, enquanto as buscas por competições femininas subiram 20% no mundo, no Brasil esse aumento chegou a 130%. No YouTube, a alta foi de 70% globalmente e de 200% no mercado brasileiro.
Os números mostram que a modalidade deixou de ocupar apenas um espaço de visibilidade esportiva. Passou a despertar interesse comercial, movimentar comunidades digitais e criar novas possibilidades para clubes, atletas, marcas e investidores.
Mas existe uma questão importante por trás dessa expansão: como transformar audiência em oportunidades concretas, com contratos seguros, proteção de direitos e receitas que contribuam para o desenvolvimento da modalidade?
Números que revelam a força do futebol feminino
O avanço pode ser observado em diferentes indicadores de alcance e engajamento.
A Seleção Brasileira Feminina aparece como a seleção feminina mais seguida do mundo no Instagram, com mais de 3 milhões de seguidores. No primeiro semestre de 2026, o perfil registrou aumento de 34% nas impressões e de 68% no engajamento, movimentando um potencial comercial de quase R$ 9 milhões em postagens no período.
O Campeonato Brasileiro Feminino também apresentou salto expressivo: 375% em impressões e 383% em engajamento. Até competições com perfis mais recentes demonstram esse potencial: a Copa do Brasil Feminina, com sete meses de existência no Instagram, já havia registrado alta de 95% em seguidores.
Mais do que números isolados, esses dados indicam uma mudança na relação do público com o futebol feminino. A torcida acompanha, compartilha, comenta e participa. A modalidade ocupa espaço no cotidiano digital e amplia sua capacidade de gerar valor.
Quando o interesse do público se transforma em valor para as marcas
Essa ascensão da audiência também modifica a forma como as marcas enxergam o futebol feminino.
A pesquisa aponta que o patrocínio de competições femininas pode influenciar positivamente a relação do consumidor com as marcas. Entre os resultados apresentados, estão o aumento de 23% na chance de escolha da marca patrocinadora em relação à concorrente, de 26% na intenção de compra de produtos relacionados às competições e de 24% na preferência pela marca apoiadora.
Esses indicadores ajudam a compreender por que o investimento no futebol feminino não deve ser visto apenas como uma ação de diversidade ou responsabilidade social. Existe também uma oportunidade de posicionamento, relacionamento com o público e construção de valor de marca.
Para clubes, federações e atletas, esse cenário representa a possibilidade de ampliar receitas e desenvolver novas parcerias. Para as empresas, significa associar seus produtos e serviços a uma modalidade que conquista cada vez mais espaço e relevância.
Entretanto, esse avanço comercial precisa vir acompanhado de planejamento. A valorização do futebol feminino não se sustenta apenas na exposição: depende de relações contratuais claras, direitos protegidos e distribuição adequada das receitas.
O crescimento do mercado exige estrutura jurídica
É nesse cenário que o Direito Desportivo ganha ainda mais relevância. O crescimento da modalidade amplia as relações entre atletas, clubes, federações, patrocinadores e investidores, e exige regras claras para que esse desenvolvimento seja sustentável.
A comercialização dos direitos do futebol feminino envolve licenciamento, transmissão, exploração comercial e uso de imagem. A exclusividade atribuída à FSports para a comercialização dos direitos de futebol feminino da CBF até 2029, conforme divulgado no levantamento, mostra a dimensão que esse mercado vem alcançando.
Nesse contexto, questões como direitos de imagem, propriedade intelectual, marcas, patrocínios, licenciamento e distribuição de receitas passam a ter impacto direto na relação entre os diferentes agentes do futebol.
A imagem de uma atleta, por exemplo, não se confunde automaticamente com a imagem da equipe, da seleção ou da competição. Da mesma forma, contratos de patrocínio e exploração comercial precisam definir direitos, prazos, contrapartidas, exclusividades e responsabilidades.
Mais do que acompanhar o crescimento do mercado, a estrutura jurídica precisa contribuir para que esse avanço se traduza em segurança, profissionalização e melhores condições para clubes e atletas.
A prevenção, nesse cenário, deixa de ser apenas uma proteção contra conflitos. Torna-se parte da construção de um futebol feminino mais organizado e preparado para crescer de forma sustentável.
O horizonte da Copa do Mundo Feminina de 2027
A proximidade da Copa do Mundo Feminina da FIFA de 2027 amplia ainda mais as possibilidades de expansão do futebol feminino brasileiro.
O interesse do público já se manifesta em diferentes frentes, como buscas por cidades-sede, informações sobre ingressos e programas de voluntariado. O torcedor não está apenas acompanhando a competição: está se preparando para vivenciar esse momento.
A realização do Mundial no Brasil representa uma oportunidade importante para ampliar a visibilidade da modalidade, aproximar novos públicos e fortalecer o mercado esportivo.
Mas o legado de um evento dessa dimensão não deve ser medido apenas pela audiência ou pela ocupação dos estádios, e sim pelo que permanecerá depois da competição: clubes mais estruturados, atletas mais valorizadas, relações comerciais mais equilibradas e uma organização esportiva capaz de sustentar o que foi conquistado.
O próximo passo é transformar interesse em desenvolvimento
O futebol feminino brasileiro vive um momento de expansão que não pode ser ignorado. Os números de audiência e engajamento mostram que o público está presente. As marcas começam a reconhecer o potencial comercial da modalidade. E o mercado passa a enxergar oportunidades que, durante muito tempo, foram negligenciadas.
O desafio agora é transformar esse interesse em desenvolvimento sustentável, o que exige investimento, planejamento, profissionalização e responsabilidade na construção das relações esportivas e comerciais.
O futebol feminino já conquistou espaço dentro de campo e nas plataformas digitais. Agora, o desafio é garantir que esse espaço se transforme em algo duradouro.
O futuro da modalidade não depende apenas de quantas pessoas estão assistindo, mas também de como o mercado se prepara para transformar audiência em direitos respeitados e oportunidades reais para quem faz o futebol feminino acontecer.
Fabiana Nardini
Advogada Desportiva, especialista em Direito no Futebol. Atua de forma estratégica com atletas, clubes e projetos esportivos. Trabalha na conexão entre jurídico, gestão esportiva e captação de recursos, transformando segurança jurídica em resultado: organização, crescimento e performance dentro e fora de campo. Integra análise de desempenho e treinamento mental à prática jurídica, com uma visão completa do esporte como negócio e ativo de investimento. Membro da Comissão de Direito Desportivo da OAB/AL. Atua ao lado de federações e ligas em Alagoas, contribuindo para a profissionalização, fortalecimento e desenvolvimento do esporte.



