A relação entre a Fifa e a Uefa atingiu um novo nível de tensão após o presidente Gianni Infantino divulgar planos para criar uma empresa que administrará os direitos comerciais da Copa do Mundo e de outras competições, com a venda de até 20% de participação a investidores privados. O projeto, batizado de Fifa Forward Enterprise (FFE), prevê a criação de uma companhia avaliada em cerca de US$ 20 bilhões para explorar comercialmente direitos de televisão, patrocínios, hospitalidade, licenciamento e marketing do torneio. A Fifa continuará proprietária da Copa do Mundo e manterá o controle sobre regulamentos, calendário e organização — o que muda é a forma de explorar comercialmente o patrimônio.

Em nota oficial, a Uefa, presidida pelo esloveno Aleksander Ceferin, classificou como um “cruzamento de uma linha que nunca deveria ser cruzada” a potencial entrada de acionistas, mesmo que minoritários, na administração dos principais produtos da Fifa. “Nenhum de nós é dono do futebol. Não cabe à Fifa vendê-lo”, diz o comunicado. O receio dos europeus não se limita à entrada de investidores privados. A preocupação é que novos sócios passem a pressionar por calendários mais extensos, mais competições e formatos capazes de aumentar receitas, enquanto Infantino amplia sua influência política por meio da distribuição de recursos. A Uefa teme ainda a perda de protagonismo econômico e que interesses financeiros passem a influenciar decisões estratégicas do futebol mundial.
O bilionário da IA por trás do plano de Infantino
Liderando o grupo de investidores interessados na FFE está Joshua Kushner, de 41 anos, fundador da Thrive Capital e um dos nomes mais respeitados do Vale do Silício. Com fortuna estimada em US$ 5,2 bilhões, Kushner construiu carreira no mercado financeiro longe dos holofotes políticos que cercam seu irmão mais velho, Jared Kushner, ex-assessor de Donald Trump. Seu portfólio de investimentos inclui empresas como Instagram, Spotify, Stripe, GitHub, Twitch, Databricks e OpenAI. No esporte, é acionista minoritário do Memphis Grizzlies (NBA) e do San Francisco Giants (MLB).

Para Kushner, a operação faz sentido: depois de enriquecer apostando em inteligência artificial, ele passou a defender que alguns ativos jamais poderão ser substituídos pela tecnologia — uma Copa do Mundo, uma Olimpíada, uma franquia esportiva centenária. São propriedades únicas, escassas e capazes de mobilizar bilhões de pessoas. A lógica do projeto lembra a de grandes grupos empresariais que monetizam parte dos ativos sem abrir mão do controle: em vez de esperar o próximo Mundial para arrecadar, a Fifa receberia bilhões de dólares pela venda de uma participação minoritária na empresa responsável pela exploração comercial do torneio.
O projeto da FFE surge em meio a uma escalada de poder de Infantino nos últimos anos. Em 2023, a Fifa confirmou o novo Mundial de Clubes com 32 times. Em 2025, os Estados Unidos receberam a primeira edição do torneio. Em 2026, aconteceu a primeira Copa do Mundo com 48 seleções. Agora, o presidente da Fifa tenta transformar a Copa do Mundo no ativo financeiro mais valioso do esporte e, ao mesmo tempo, ampliar o poder político da Fifa sobre o futebol global. Se conseguir, não terá apenas encontrado um investidor — terá ajudado a criar uma estrutura capaz de sobreviver ao próprio mandato. No fim das contas, a disputa não é apenas por bilhões de dólares, mas pelo controle da próxima era do futebol.
Fonte: Estadão; CNN Brasil; blog Drible de Corpo, do Correio Braziliense.



