A agência criada pela CBF para fiscalizar a saúde financeira dos clubes brasileiros concluiu os julgamentos de primeira instância de 12 equipes da Série A que tiveram algum tipo de atraso de pagamento comprovado. O órgão — a Anresf, Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol — é o braço da confederação responsável por aplicar o fair play financeiro, o conjunto de regras que exige que os clubes vivam dentro de suas possibilidades, pagando em dia o que devem a jogadores, comissões técnicas, outras equipes e ao poder público. Para isso, os clubes precisam informar periodicamente à agência como está a situação dos pagamentos. Quatro deles receberam as punições mais graves: Grêmio, São Paulo, Atlético-MG e Internacional levarão um transfer ban — a proibição de registrar novos atletas — caso não quitem, em um prazo de 45 dias, as dívidas contraídas já em 2026. Outros seis foram advertidos: Corinthians, Botafogo, Vitória, Santos, Remo e Vasco. O Athletico-PR e o Coritiba foram julgados, mas sem nova sanção, apesar de terem dívidas em aberto na data de corte considerada pela Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf).
A diferença entre os dois grupos está na origem do débito. Para as obrigações assumidas antes de 1º de janeiro de 2026, há um período de transição que vai até 30 de novembro: nesse intervalo, o descumprimento só pode ser punido com advertência pública, acompanhada da recomendação de regularizar os débitos até a data-limite — e a advertência, como ressalta a própria agência, não dispensa o pagamento. Já para as obrigações assumidas a partir de 1º de janeiro de 2026, não existe período de transição: perante clubes nacionais, o prazo é de 45 dias para pagamento ou acordo escrito, sob pena de proibição de registrar novos atletas. Perante atletas e comissão técnica, os prazos são mais curtos, sob pena de multa em dinheiro. Para os débitos tributários de 2026, a regra geral foi advertência com recomendação de regularização até 31 de outubro.
Os casos mais graves: os quatro clubes na mira do transfer ban
O São Paulo tem dívidas com o Ceará e o Red Bull Bragantino que vinham de contratos de 2025 — por isso, foram enquadradas como anteriores a 2026. O clube também comprovou que pagou uma dívida com a Lazio, da Itália, mas depois da data de corte. Ficou em aberto uma dívida de 2026 com o Esporte Clube São José: a agência aplicou advertência pública, que abrange também o atraso com a Lazio, e deu 45 dias para o pagamento ao São José. Se o clube não pagar, ficará proibido de registrar novos atletas. O São Paulo ainda foi advertido porque deixou de declarar uma dívida com o Novorizontino — que já virou alvo de processo na própria agência.
O Atlético-MG tem dívidas de 2026 em aberto com Bahia e Santos, o que rendeu advertência e a ameaça de transfer ban. O clube tinha tributos de dezembro de 2025, vencidos em janeiro, que passaram para o grupo das dívidas anteriores a 2026. O Grêmio declarou pagamentos em atraso com outros clubes, do Brasil e do exterior, com um atleta e com autoridades públicas. Pelas dívidas de 2026 ainda em aberto, levou advertência pública, e tem 45 dias para pagar Capivariano e Votuporanguense — se não pagar, leva transfer ban. Há ainda um prazo de 15 dias úteis para pagar o atleta; se não pagar, terá de arcar com multa de R$ 100 mil. Pelos tributos de 2026, o clube gaúcho ganhou advertência. O Internacional, por sua vez, tem 45 dias para pagar Athletico-PR e Juazeiro Empreendimentos Esportivos — senão, transfer ban. Há também uma dívida com um jogador, sob pena de multa de R$ 100 mil, e, pelas dívidas de 2026 com clubes estrangeiros e autoridades públicas, a Turma aplicou advertência pública e recomendou a regularização até 31 de outubro.
Entenda a situação de alguns dos demais clubes advertidos
O Santos declarou pagamentos em atraso com atletas, comissão técnica, empregados e autoridades públicas, incluindo FGTS. Parte dessas dívidas era de 2026 — direitos de imagem e FGTS — e o clube quitou todas depois da data de corte de 30 de junho: os direitos de imagem entre 24 e 26 de agosto e o FGTS em 10 de setembro, já após a notificação da agência. Em agosto, pagou também 11 dívidas anteriores a 2026. Ainda restam dívidas em atraso com atletas e empregados, anteriores a 2026, parte coberta por acordos com dois atletas, parte em discussão na CNRD — a câmara da CBF que trata das disputas entre clubes — e o restante sem providência; todo o saldo deve ser regularizado até 30 de novembro. O Vasco declarou não ter dívidas em atraso com autoridades públicas, mas o relatório fiscal que o próprio clube anexou mostrava tributos federais vencidos e não pagos em 30 de junho, tanto anteriores a 2026 quanto de 2026. Na defesa, o clube atribuiu a diferença a uma falha interna de comunicação e mostrou que parcelou os débitos depois — e levou advertência pública para toda essa dívida.
O Athletico-PR, por sua vez, saiu sem sanções. A análise foi de uma dívida com o Vasco, que já havia sido julgada na janela anterior: o clube alegou que poderia compensar o valor com um montante que o Vasco lhe deve, mas a compensação não foi feita e a dívida não está resolvida. De todo modo, não levou punição — mas a pendência com o Vasco deve ser regularizada até 30 de novembro. Na prática, o balanço da agência mostra um futebol brasileiro ainda dependente do fôlego financeiro de seus clubes: mesmo entre os grandes da Série A, atrasos com jogadores, comissões, impostos e rivais são recorrentes, e o novo regulamento começa a cobrar a conta com prazos curtos e punições concretas — a mais temida delas, a proibição de contratar, já batendo à porta de quatro clubes.
Fonte: Uol; The Football.



