Depois de conquistar o acesso para a Série B, o Santa Cruz foca em se transformar em uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF) — a empresa que passará a administrar o futebol profissional do Tricolor do Arruda. O processo, iniciado em 2025, atravessou atropelos e mudanças de rumo, e agora entra em uma fase decisiva: a audiência dos credores, que deve ser marcada entre o fim de novembro e o início de dezembro. Sob o comando de Thairo Arruda, que, além de investidor, será CEO — o executivo-chefe da operação —, e de Danilo Caixeiro, sócio dele na Matix, a SAF Tricolor contará com empresários internacionais de países como Colômbia, Estados Unidos e Itália.
Quem são os novos investidores
A lista de nomes reforça o perfil profissional do grupo. Entre os investidores está o norte-americano Dave Horin, com mais de 30 anos de experiência em finanças e gestão executiva: ele passou por empresas como KPMG e Jefferies e integrou a Eagle Football Holdings, grupo ligado a John Textor. Outro nome é Paraj Tyle, também dos Estados Unidos, ligado à PTA Ventures — o empresário esteve no Arruda e participou da ratificação da operação da SAF no Conselho Deliberativo, e é primo de Sheel Tyle, empresário que integra o grupo de proprietários do Portland Trail Blazers, franquia da NBA. Completam a lista o italiano Gianpaolo Callioni, formado pela Universidade Bocconi, e o colombiano Carlos Garcia, fundador e CEO da LogistiX — ambos com experiência no setor empresarial internacional.
Um detalhe técnico explica a forma como a operação avança: em vez de constituir uma empresa do zero, o grupo capitaneado por Thairo comprou as ações da Cobra Coral Participações S.A., criada pelo grupo de empresários de Minas Gerais composto por Iran Barbosa, Alexandre Kubitschek, Marcus Bittar e Fernando Vieira Alves. A justificativa é burocrática: “Para constituir uma Sociedade Anônima é muito complicado. Tem toda uma burocracia, tem prazo, tem regulamentações. A lei de Sociedades Anônimas é uma das leis mais longas e técnicas que a gente conhece. São quase 300 artigos de leitura completamente intrincada. É coisa para gente do mercado financeiro mesmo”, explica o advogado Rafael Luna. A compra da estrutura já existente evita atrasos no cronograma. Nos bastidores, o clima é de trabalho intenso: “Os caras estão trabalhando diuturnamente, de madrugada, cobrando posicionamentos, checagem de contrato, validação de tudo. Cada ponto tem sido tratado de maneira exaustiva por esse novo grupo, sem buscar holofotes, focados no que está pactuado em contrato”, declarou um dirigente. Na avaliação do advogado, “é um grupo mais bem constituído, bem mais profissional, com investidores estrangeiros reconhecidos”.
Audiência de credores, leilão judicial e o que falta para a virada
O próximo passo do Santa é a audiência dos credores, prevista para o fim de novembro ou início de dezembro — o clube já está em recuperação judicial há quatro anos. “O Santa Cruz já vai para quatro anos de recuperação judicial com as dívidas suspensas”, completa Rafael. Para os credores, a aprovação das renegociações parte de uma conta pragmática: “O plano do Santa Cruz prevê um desconto no valor total das dívidas e o parcelamento do saldo remanescente em longos anos. Para o credor, aceitar um desconto grande é viável porque, se o plano for rejeitado, a falência é decretada. É melhor receber 20% ou 30% de algo ao longo do tempo do que ficar com 100% de nada”, detalha o advogado.
Com o plano de recuperação aprovado e as dívidas renegociadas, o passo seguinte é a realização de um leilão judicial para a compra da UPI — a Unidade Produtiva Isolada. Na prática, a UPI representa a transferência dos ativos, dos direitos comerciais e da operação do futebol do Santa Cruz, incluindo marcas, receitas e a gestão da modalidade, para o grupo investidor, adquirida de forma limpa e livre de dívidas anteriores. Indo a leilão, os direitos da SAF podem ser comprados por outros investidores, em caso de oferta maior que a atual — o que, em tese, beneficiaria o Tricolor, que ganharia vantagem competitiva na negociação. Os empresários liderados por Thairo têm, por outro lado, o direito de cobrir a melhor oferta e a preferência em caso de empate: caso haja competição na hora do leilão, o grupo atual obtém preferência jurídica. “Se um eventual investidor terceiro cobrir a oferta no leilão, a SAF atual tem direito a receber uma indenização pelos custos operacionais e pela auditoria realizada. Contudo, é muito difícil que apareça outro grupo investidor para fazer frente à proposta da Cobra Coral Participações”, explica Rafael Luna. Depois disso, a SAF com Thairo e os investidores pode, de fato, começar a atuar no Santa Cruz.
A trajetória até aqui, porém, ajuda a explicar a cautela. A estrutura inicial da SAF sofreu reveses porque o grupo anterior perdeu o lastro financeiro — o suporte econômico que dava garantia à operação — em duas ocasiões: primeiro com a Reag Investimentos, liquidada por ligações com o PCC, e depois com a derrocada ligada ao Banco Master. Com isso, a operação ficou desprovida de garantias, abrindo caminho para a chegada do novo grupo.
Fonte: Diário de Pernambuco.



