O futebol brasileiro vive um momento de consolidação das SAFs (Sociedades Anônimas do Futebol). Se antes temas como balanços financeiros, dívidas e recuperação judicial ficavam restritos aos bastidores, hoje fazem parte da realidade acompanhada de perto por clubes, investidores e torcedores.
Em meio a diferentes experiências com o modelo, dois clubes nordestinos chamam atenção por caminhos bastante distintos: Bahia e Fortaleza.
Os dois escolheram a SAF para profissionalizar a gestão do futebol, mas fizeram isso de maneiras completamente diferentes. Enquanto o Bahia trouxe um dos maiores grupos globais do futebol, o Fortaleza optou por manter o controle do clube sobre sua SAF.
Afinal, o que diferencia esses dois modelos? E como estruturas tão diferentes podem buscar o mesmo objetivo: sustentabilidade e competitividade no futebol?
Bahia: a força de um investidor global
No Bahia, a transformação em SAF veio acompanhada da entrada do City Football Group (CFG), conglomerado internacional que passou a deter 90% das ações da SAF tricolor.
O clube utilizou a estrutura prevista pela Lei nº 14.193/2021, a Lei da SAF. A operação transferiu para a nova sociedade os ativos relacionados ao futebol, enquanto o Grupo City assumiu o controle majoritário e passou a realizar aportes na estrutura.
Um dos principais movimentos foi a reorganização do passivo e o fortalecimento do patrimônio da SAF por meio dos aportes realizados pelo investidor.
Em 2025, por exemplo, mais de R$ 900 milhões foram registrados como adiantamentos para futuro aumento de capital, contribuindo para uma mudança significativa na estrutura patrimonial da empresa.
O patrimônio líquido da SAF, que era negativo, passou a superar R$ 650 milhões.
Mais do que colocar dinheiro no futebol, o modelo busca construir uma estrutura empresarial capaz de sustentar investimentos, reorganizar obrigações e ampliar a capacidade de crescimento do clube.
Outro diferencial está na conexão com o City Football Group. O Bahia passou a fazer parte de uma rede internacional de clubes, compartilhando estruturas, conhecimento, metodologia e possibilidades de desenvolvimento esportivo e comercial.
É um modelo baseado em capital, escala e integração internacional.
Fortaleza: uma SAF sem abrir mão do controle
O Fortaleza seguiu uma rota diferente.
O clube também criou sua SAF, mas sem transferir o controle para um investidor externo. A estrutura permanece vinculada ao próprio Fortaleza Esporte Clube, preservando o poder de decisão da associação.
A escolha representa uma alternativa importante dentro do modelo criado pela Lei da SAF: profissionalizar a estrutura do futebol sem necessariamente vender o controle para um investidor.
A criação da SAF separou juridicamente a operação do futebol da associação, permitindo uma estrutura empresarial própria para administrar suas atividades. Isso cria mecanismos de organização patrimonial e financeira e ajuda a profissionalizar a gestão.
A estrutura também exige maior organização administrativa, demonstrações financeiras e mecanismos de controle, fortalecendo a transparência e a governança.
No Fortaleza, a estratégia é preservar o controle associativo e, ao mesmo tempo, criar uma estrutura empresarial capaz de organizar e desenvolver o futebol.
É um modelo baseado em autonomia, continuidade e crescimento sustentável.
Dois modelos, dois impactos no futebol
As diferenças entre os modelos também aparecem na operação esportiva.
No Bahia, a entrada de um grupo internacional ampliou a capacidade de investimento, permitindo maior estrutura financeira para contratações, categorias de base e infraestrutura.
O desafio está em transformar esse investimento em resultados esportivos consistentes ao longo do tempo, equilibrando planejamento de longo prazo e a pressão por resultados imediatos.
No Fortaleza, o crescimento acontece com maior dependência das receitas próprias do clube, como bilheteria, programa de sócios, patrocínios, direitos de transmissão e premiações.
Nesse cenário, gestão, planejamento, análise de mercado e eficiência na utilização dos recursos ganham ainda mais importância.
Afinal, qual modelo é melhor?
A resposta é: não existe uma fórmula única.
Bahia e Fortaleza mostram que a SAF não precisa seguir um único caminho.
Um clube pode utilizar o modelo para atrair um grande investidor e se conectar a uma estrutura internacional.
Outro pode utilizar a mesma legislação para profissionalizar sua gestão, organizar sua operação e preservar o controle associativo.
O ponto central não está apenas em quem controla a SAF, mas em como essa estrutura é construída, administrada e utilizada para garantir sustentabilidade ao futebol.
Bahia e Fortaleza escolheram rotas diferentes. Mas a lição é a mesma: a SAF pode mudar a estrutura de um clube, mas é a qualidade da gestão que determina o destino.
Fabiana Nardini
Advogada Desportiva, especialista em Direito no Futebol. Atua de forma estratégica com atletas, clubes e projetos esportivos. Trabalha na conexão entre jurídico, gestão esportiva e captação de recursos, transformando segurança jurídica em resultado: organização, crescimento e performance dentro e fora de campo. Integra análise de desempenho e treinamento mental à prática jurídica, com uma visão completa do esporte como negócio e ativo de investimento. Membro da Comissão de Direito Desportivo da OAB/AL. Atua ao lado de federações e ligas em Alagoas, contribuindo para a profissionalização, fortalecimento e desenvolvimento do esporte.



