O Fluminense completa nesta terça-feira um ano de negociações com a Lazuli Partners para construir a proposta de compra da SAF tricolor. Foi em 8 de setembro de 2025 que o fundo fez sua apresentação pública em reunião do Conselho Deliberativo transmitida ao vivo. Desde então, as conversas seguem em andamento, mas sem avanço definitivo: o clube tenta melhorar os termos da oferta, especialmente o valor do aporte inicial, e existe a expectativa de que a proposta reformulada seja apresentada ainda neste ano, para dar início ao debate sobre a venda.
Fontes ligadas ao mercado consideram normal o tempo levado para a negociação. A expectativa era avançar logo após a eleição do clube, mas o pleito acabou congelando as discussões até o seu resultado, o que gerou um certo atraso no cronograma. Outro ponto que segurou o projeto foi a espera pela publicação do balanço de 2025.
O cenário financeiro que motiva a venda
A negociação acontece em um momento de aperto nas contas tricolores. O presidente Mattheus Montenegro explicou, em evento no Rio de Janeiro no começo de agosto, que o clube conseguiu equacionar a dívida, mas não reduzi-la. Em 2019, o passivo era de R$ 860 milhões; hoje, é de R$ 1,05 bilhão. Segundo ele, os valores são corrigidos pela Selic e, sem esse fator, já estariam em torno de R$ 1,5 bilhão. Montenegro destacou ainda o papel do RCE — um mecanismo jurídico criado pela Lei da SAF (Lei nº 14.193/2021) que permite aos clubes de futebol reestruturar e pagar suas dívidas de forma organizada, funcionando como uma alternativa à recuperação judicial. “O RCE foi fundamental para a gente, porque sem ele tinha penhoras todo dia. Com ele, conseguimos fôlego para planejar”, afirmou.
Apesar dos esforços, a alta taxa de juros do país dificulta a quitação dos débitos, mesmo com o pagamento das parcelas do acordo judicial. A dívida tributária está parcelada por um prazo de 10 anos, a cível segue no RCE e ainda há acordos extrajudiciais. No dia a dia, o clube se mantém dentro do prazo de tolerância do vencimento das parcelas, o que impede acionamentos na Justiça e transfer bans — e, quando o fluxo de caixa aperta, a diretoria senta com o credor para renegociar os prazos.
A espera por receitas e o impacto na temporada
Outro dado revela a fragilidade do momento: a meta orçamentária do Fluminense para 2026 previa arrecadação de cerca de R$ 200 milhões em vendas de jogadores. Com as janelas das principais ligas da Europa já encerradas, o clube não passou perto desse valor. Esse cenário é o fio condutor do processo de criação da Sociedade Anônima do Futebol: o entendimento é de que a melhor maneira de resolver o problema — trazendo um aporte que ajude a solucionar o sufocamento causado pelas dívidas — é vendendo as ações da sociedade anônima.
No fim de agosto, o Fluminense recebeu uma advertência de grau mínimo da Anresf, a agência de regulação e sustentabilidade do futebol, por atraso em pagamento de parcelas de dívidas com outros clubes, empregados e autoridades públicas. Sobre a premiação da Copa do Mundo, Montenegro detalhou o destino do dinheiro: o clube recebeu R$ 290 milhões líquidos, dos quais R$ 72 milhões foram destinados à premiação dos jogadores, R$ 20 milhões ao pagamento de voos ao longo do torneio e R$ 50 milhões a acordos judiciais. Agora, a atenção se volta para a proposta reformulada da Lazuli Partners, que deve reabrir o debate sobre o futuro da SAF tricolor ainda neste ano.
Fonte: ge.Globo.



