A confirmação de que a família Lamacchia avança para adquirir a SAF do Vasco da Gama coloca o mercado diante do seu maior dilema ético e regulatório desde a Lei da SAF.
Como Executivo de Finanças e Colunista na Sou SAF, analiso essa operação não com o coração do torcedor (que clama por solvência), mas com a frieza do Compliance.
Se essa transação for aprovada sem restrições severas, estaremos oficializando o “conflito de interesses cruzado” na Série A.
Aqui estão os 3 pontos cegos técnicos, e os cenários práticos que assustam:
A origem do capital (funding source) e o UBO
No Direito Empresarial, existe a figura do Ultimate Beneficial Owner (beneficiário final). Juridicamente, os CNPJs podem ser distintos. Mas economicamente, a fonte de liquidez do Palmeiras (patrocínio master/presidência) e do provável “Novo Vasco” (propriedade) bebe da mesma matriz patrimonial familiar. A pergunta para a Liga e para a CBF é: O princípio de Arm’s Length (independência entre partes) sobrevive quando o financiador de dois rivais dorme sob o mesmo teto?
O risco do “Distressed Asset” O Vasco é um ativo em estresse financeiro grave. No M&A, a pressa do vendedor (A-CAP) costuma relaxar as travas de governança do comprador. O risco de trocar uma “aventura americana” (777) por um “conflito doméstico” é real.
Vamos desenhar o risco na prática? (cenários hipotéticos)
Imagine o meio da temporada. O Palmeiras briga pelo título contra o Fluminense. O Vasco está no meio da tabela, sem riscos. A janela abre. O artilheiro do campeonato está no Vasco. De repente, uma “oportunidade de mercado” transfere esse jogador para o Palmeiras — facilitada pelo trânsito livre entre os donos — corrigindo falhas de elenco do time verde.
Ou o inverso: O Vasco precisa de um goleiro para a Copa do Brasil para eliminar um rival direto do Palmeiras (ex: Flamengo). O Palmeiras, que tem sobrando, cede o atleta “por empréstimo amigável”.
Isso é saudável? Deixamos de ter um futebol de competitividade para ter um de “ecossistema de parcerias”?
A conclusão do executivo: Assim como no mundo corporativo, onde o nepotismo e o conflito de interesses destroem a meritocracia, no futebol a “multipropriedade cruzada” destrói a integridade esportiva.
Não existe Clube A e Clube B na mesma divisão em ligas sérias (vide RB Leipzig e Salzburg, que a UEFA separa).
Se a família Lamacchia quer o Vasco, a regra de compliance deveria ser clara: Divestment (desinvestimento) total do Palmeiras. Ter os dois é transformar o Brasileirão em um jogo de cartas marcadas.
Dinheiro salva o caixa. Governança salva a instituição.
Qual sua opinião: É possível criar travas contratuais para evitar isso ou o conflito é inevitável?
Saiba mais sobre a A Segunda Onda das SAFs: Por que 2026 será o ano da “correção de rota” e dos negócios bilionários.
Felipe Araujo
Executivo com especialização em Gestão de Clubes de Futebol e MBA em Gestão Financeira. Felipe Moreira une a experiência de liderança em multinacionais à análise técnica do ecossistema das SAFs. É o criador da newsletter ‘Sala do Diretor’, referência em inteligência de mercado e gestão esportiva com mais de 3.500 assinantes qualificados. Tenho mais de 100 publicações, gosto de olhar o mercado e sempre escrevo com olhar administrativo sobre a realidade.



