A troca de acusações entre Corinthians e Palmeiras no fim do último ano recolocou em evidência um tema sensível e recorrente no futebol nacional: o aliciamento de jogadores nas categorias de base. O episódio ganhou repercussão por envolver denúncias de “roubo” de atletas, questionamentos sobre o papel dos clubes formadores e relatos de retaliações nos bastidores — um ambiente em que, muitas vezes, crianças e adolescentes acabam no centro de disputas esportivas, financeiras e políticas.
Mais do que um conflito pontual entre rivais, o caso passou a ser tratado como um retrato de um problema estrutural: a corrida cada vez mais agressiva por promessas ainda em formação, em um cenário em que a captação de talentos se tornou parte determinante do modelo de competitividade e de geração de receitas no futebol brasileiro.
O papel do MCFFB e a exclusão do Corinthians
O pano de fundo do atrito foi o Movimento dos Clubes Formadores do Futebol Brasileiro (MCFFB), criado para estimular práticas éticas e reduzir situações de aliciamento. A denúncia do Palmeiras contra o Corinthians, relacionada à contratação de um atleta de 14 anos sem aval do clube formador, resultou na exclusão do Timão do movimento e abriu espaço para que novos episódios envolvendo jovens atletas ligados ao Parque São Jorge entrassem no radar do debate.
O presidente do MCFFB, Augusto Oliveira, ressaltou que o movimento atua desde 2012 para mediar conflitos e buscar soluções com diálogo, mas que condutas consideradas incompatíveis com o regimento interno são combatidas de forma conjunta pelos clubes participantes. Ele destacou, ainda, que o regimento é claro sobre o tema mencionado no caso.
Disputa por talentos e impacto direto no atleta em formação
O debate sobre aliciamento na base, segundo profissionais do setor, precisa ultrapassar o limite do direito esportivo e da rivalidade institucional. A crítica central é que a fragilidade de acordos e a ausência de consenso entre clubes tendem a recair sobre o elo mais vulnerável do processo: os atletas em formação, ainda em fase de desenvolvimento pessoal e emocional.
Nesse contexto, o diretor-presidente do Inter de Minas, Thiago Gosling, defende que a prioridade deve ser o ser humano, e não o negócio. Ele sustenta que o assédio existe e faz parte do ambiente do futebol, mas que a proteção ao jovem atleta passa por acolhimento, estrutura, informação e participação da família, e não por retenção forçada.
Outros casos que ampliam o debate e mostram recorrência do problema
A discussão ganhou ainda mais força por se somar a episódios anteriores que evidenciam como o tema atravessa diferentes clubes e estados.
Em 2019, o América-MG acusou o Cruzeiro de aliciar Vitor Roque, então com 14 anos, artilheiro da categoria. A transferência do jovem para o rival mineiro gerou ameaças de boicote e resultou na exclusão do Cruzeiro de competições de base, como a Nike Premier Cup, em meio à repercussão.
Na visão do presidente do Cuiabá, Cristiano Dresch, o aliciamento enfraquece os clubes por colocá-los em confronto direto e tende a se intensificar, já que a venda de atletas segue como uma das principais fontes de receita do futebol brasileiro. Ele observa que o crescimento do mapeamento e do scout amplia a pressão por captação precoce.
Mais recentemente, o Corinthians também denunciou aliciamento considerado “ilícito e imoral” envolvendo o Bahia e o City Football Group, após a saída do atacante Kauê Furquim, de 16 anos, que assinou com o Esquadrão com pagamento de multa rescisória e sem comunicação prévia ao clube paulista.
Em outra frente, houve o caso do santista Kauan Basile, que ficou perto de se transferir para o Athletico-PR. Situações semelhantes já ocorreram em 2022, quando Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Santos solicitaram que o clube paranaense não disputasse a Copinha sob alegação de práticas semelhantes; o Athletico-PR entrou em acordo e participou do torneio. Depois, o clube também ficou fora da Copa Nike Sub-15, e nos bastidores dirigentes avaliam que há condutas recorrentes em desacordo com o código de ética do MCFFB.
A dimensão jurídica e o risco de insegurança para clubes e famílias
O tema também cresce como preocupação jurídica. A advogada Talita Garcez, especialista em direito desportivo, destaca que as normas da Fifa impõem limites e buscam preservar a estabilidade das relações entre clubes — especialmente quando existem vínculos formativos e contratos registrados. O problema, segundo ela, é que parte do meio ainda enxerga a base como um mercado informal, quando o ambiente exige transparência, segurança jurídica e responsabilidade social.
A leitura é reforçada por Cristiano Caús, especialista em direito desportivo e sócio da CCLA, que aponta uma distorção grave no processo formativo quando o aliciamento antecipa uma lógica de mercado. Para ele, ainda que certas operações sejam formalmente legais, há risco de afronta a princípios de proteção ao atleta em formação, além de aumento da insegurança jurídica e impactos no desenvolvimento pessoal dos jovens.
O que o movimento diz fazer para proteger atletas mais novos
Ao detalhar sua atuação, o MCFFB reforça que sua missão é fomentar o futebol de base por meio da integração entre clubes e gestores, propondo ações corretivas e inovadoras para melhores práticas de formação. Augusto Oliveira explicou que o movimento atua como mediador em casos envolvendo atletas menores de 14 anos, no primeiro ano de contrato de formação ou a partir do ano em que o atleta completa 10 anos, desde que atendidas as exigências previstas no regimento.
Com o debate reaceso por conflitos recentes, a discussão passa a apontar para uma necessidade de mudança mais ampla: fortalecer regras, ampliar o diálogo entre clubes e criar mecanismos mais eficazes para proteger atletas que ainda estão construindo não apenas uma carreira, mas também sua trajetória de vida.
Fonte: Lance.



