Mais do que nove troféus, um resgate histórico: as conquistas entre 1918 e 1926 revisitam os primeiros capítulos do futebol em Alagoas e recolocam o CRB no topo entre os maiores campeões do estado.
A história do futebol também é feita de documentos, registros, competições e decisões institucionais. Em Alagoas, uma decisão recente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) acaba de reescrever oficialmente parte dessa história.
Em 4 de agosto de 2026, a CBF reconheceu os títulos estaduais conquistados pelo Clube de Regatas Brasil (CRB) entre 1918 e 1926, período anterior à criação da Federação Alagoana de Futebol (FAF), em 1927. Foram nove conquistas, correspondentes aos anos de 1918 a 1926, todas organizadas pela antiga Liga Alagoana de Futebol.
Títulos que durante décadas não entravam na contagem oficial do Campeonato Alagoano passaram a integrar a história reconhecida pela principal entidade do futebol brasileiro. E isso muda bastante a leitura sobre quem é o maior campeão de Alagoas.
O que mudou?
Antes do reconhecimento, a contagem oficial considerava as conquistas estaduais a partir de 1927. Com a decisão da CBF, os nove títulos anteriores foram incorporados à trajetória do CRB, que já havia sido campeão alagoano em 2026 e chegou, assim, a 45 títulos estaduais, ultrapassando o CSA, que tem 40.
O CRB passa a ser reconhecido oficialmente pela CBF como o maior campeão estadual de Alagoas. Mais do que somar troféus a uma lista, a decisão amplia a própria linha do tempo do futebol alagoano.
Como uma competição anterior à Federação pode ser reconhecida?
É aqui que a decisão ganha seu aspecto jurídico e institucional mais interessante. A Federação Alagoana de Futebol foi fundada em 1927; antes disso, o futebol no estado já era organizado por ligas, entre elas a Liga Alagoana de Futebol, responsável pelas competições em que o CRB conquistou os títulos agora reconhecidos.
A CBF entendeu que essas competições fazem parte da história oficial do futebol estadual e que havia elementos suficientes para reconhecer as conquistas. Para chegar a essa conclusão, o CRB apresentou um dossiê histórico e documental, reunindo provas sobre a existência das competições e os resultados obtidos pelo clube no período.
O documento mais relevante desse dossiê é uma certidão lavrada em 1951 pela própria Confederação Brasileira de Desportos (CBD, precursora da CBF), assinada por seu 1º secretário, que já listava os campeões alagoanos desde 1918. Ou seja: não se tratou de acrescentar títulos por tradição do clube, mas de uma análise documental que levou a uma decisão institucional.
A entidade fundamentou sua competência no próprio Estatuto Social, que lhe atribui responsabilidade sobre a organização, regulamentação e qualificação das competições de futebol, incluindo o registro histórico de conquistas relacionadas à estrutura do futebol brasileiro. A resolução foi aprovada por unanimidade pela Diretoria da CBF.
O caso não é isolado. A própria CBF citou, na decisão sobre o CRB, precedentes de reconhecimento histórico de títulos: a RDP nº 03/2010, que unificou títulos brasileiros de clubes com efeitos retroativos a 1959, e a RDP nº 02/2023 (segundo a nota oficial da CBF sobre o caso do CRB), que reconheceu o Torneio dos Campeões de 1937 como Campeonato Brasileiro daquele ano e o Atlético-MG como campeão.
Esses precedentes mostram que reconhecer, décadas depois, uma conquista histórica não é algo novo no futebol brasileiro, existe um caminho institucional já testado para que documentos antigos produzam efeitos no reconhecimento oficial de competições e títulos.
Os nove títulos valem para tudo?
Não. E esse é talvez o ponto mais importante para entender a decisão.
A CBF reconheceu oficialmente as conquistas para fins históricos e institucionais, mas deixou claro que isso não altera os rankings oficiais que administra: os nove títulos não somam pontos ao Ranking Nacional de Clubes (RNC) e não geram, por si só, vantagem esportiva em competições nacionais.
O CRB ganhou nove títulos em sua história oficial, mas não ganhou pontos no ranking da CBF por causa deles. Reconhecimento histórico, aqui, não é sinônimo de benefício esportivo ou financeiro imediato.
Qual é o impacto real para o CRB?
O primeiro impacto é simbólico: o CRB passa a carregar oficialmente a marca de 45 títulos estaduais e assume a liderança isolada entre os maiores campeões de Alagoas. Mas o valor de uma conquista histórica não termina no número de troféus, há também um impacto institucional e de marca.
Um clube de futebol não vende apenas jogos; vende história, identidade, pertencimento e memória. E nove títulos conquistados há mais de um século carregam esse tipo de valor.
Essa nova narrativa pode alimentar campanhas institucionais, conteúdos para torcedores, produtos licenciados, camisas comemorativas e ações de sócio-torcedor. O resgate também pode fortalecer projetos como um futuro museu do clube, transformando documentos e conquistas antigas em patrimônio cultural.
Diretamente, não há impacto financeiro: a CBF não anunciou premiação nem acréscimo de pontos no ranking nacional. O impacto econômico é indireto e potencial, uma marca reconhecida oficialmente como a maior campeã do estado pode usar essa posição na estratégia comercial, fortalecendo o valor da marca, atraindo patrocinadores, viabilizando coleções retrô e valorizando negociações comerciais. Nada disso é automático: o reconhecimento cria uma propriedade narrativa e institucional que, com estratégia, se transforma em valor econômico.
Uma lista rara no futebol brasileiro
Com o reconhecimento das conquistas de 1918 a 1926 somado ao título de 1927, o CRB passa a contabilizar dez títulos estaduais consecutivos: um decacampeonato entre 1918 e 1927.
Isso coloca o clube ao lado de apenas outros dois casos no país: o América-MG, que conquistou dez Campeonatos Mineiros seguidos entre 1916 e 1925, e o ABC, do Rio Grande do Norte, com dez títulos estaduais consecutivos entre 1932 e 1941.
O reconhecimento dos títulos do CRB, portanto, insere o clube numa tradição histórica rara no futebol brasileiro, a de poucos decacampeonatos estaduais já registrados no país.
Mais do que nove títulos, uma disputa sobre memória
A decisão da CBF mostra algo que costuma passar despercebido: a história esportiva também depende de documentos, registros e reconhecimento institucional. Um título conquistado há mais de cem anos pode continuar relevante, mas para ser reconhecido oficialmente décadas depois é preciso demonstrar que aquela competição existiu, que havia uma organização responsável por realizá-la e que o resultado pode ser comprovado.
Foi esse trabalho documental, do dossiê do clube à certidão de 1951 da CBD, que sustentou o pedido do CRB, e que reforça, de quebra, a importância de preservar arquivos de clubes, federações e ligas: fotografias, jornais, atas, regulamentos e súmulas podem parecer parte de um passado distante, mas guardam enorme relevância jurídica, esportiva e institucional.
O reconhecimento dos nove títulos do CRB não muda o resultado de nenhuma partida disputada há mais de cem anos. O que muda é a forma como essas conquistas passam a ser oficialmente registradas, e essa é a principal dimensão da decisão.
No futebol, números ajudam a contar histórias, mas antes dos números existe a memória. Ao reconhecer os títulos conquistados pelo CRB entre 1918 e 1926, a CBF admitiu que a história do futebol alagoano começou antes de 1927, e que as competições organizadas naquele período também fazem parte dessa trajetória.
Para o CRB, o resultado é histórico: 45 títulos estaduais e a condição de maior campeão de Alagoas. Para o futebol alagoano, fica uma lição maior: preservar a memória esportiva também é preservar patrimônio, identidade e história.
Fabiana Nardini
Advogada Desportiva, especialista em Direito no Futebol. Atua de forma estratégica com atletas, clubes e projetos esportivos. Trabalha na conexão entre jurídico, gestão esportiva e captação de recursos, transformando segurança jurídica em resultado: organização, crescimento e performance dentro e fora de campo. Integra análise de desempenho e treinamento mental à prática jurídica, com uma visão completa do esporte como negócio e ativo de investimento. Membro da Comissão de Direito Desportivo da OAB/AL. Atua ao lado de federações e ligas em Alagoas, contribuindo para a profissionalização, fortalecimento e desenvolvimento do esporte.



