A CazéTV, canal operado pela LiveMode e principal detentora dos direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2026 no ambiente digital, alterou sua postura em relação à exposição de marcas de apostas esportivas. Após registrar recordes históricos de audiência, como os 19 milhões de dispositivos conectados simultaneamente na vitória do Brasil sobre a Escócia, o canal reduziu drasticamente a presença de elementos publicitários das chamadas “bets” durante suas exibições ao vivo. A mudança ocorre em meio a uma crescente pressão de órgãos reguladores e lideranças políticas sobre o modelo de propaganda adotado pela plataforma.
Anteriormente, a publicidade de marcas como Bet365, Betnacional e KTO era onipresente na cobertura. Além dos intervalos comerciais, o canal utilizava QR codes fixos na tela e análises de comentaristas sobre as probabilidades (odds) de eventos ocorrerem durante as partidas. Essa prática passou a ser questionada após situações em que o público teria sido induzido ao erro por análises apresentadas como “dicas” de investimento, resultando em perdas financeiras para milhares de espectadores.
Questionamentos políticos e denúncias de indução ao erro
A intensificação da fiscalização sobre o canal ganhou força após denúncias protocoladas no Ministério Público Federal (MPF). Parlamentares como Erika Hilton e Pastor Henrique Vieira solicitaram que a Justiça barre a divulgação de apostas durante os jogos, enquanto o deputado Chico Alencar cobrou providências da Secretaria de Prêmios e Apostas, vinculada ao Ministério da Fazenda. O ponto central das críticas é a forma como as análises esportivas foram misturadas a incentivos diretos para apostas, muitas vezes com promessas de ganhos que não se concretizaram.
Um dos episódios citados envolveu uma medalhista olímpica que, durante uma transmissão para mais de 2 milhões de pessoas, afirmou que determinada aposta tinha “grandes chances de acontecer”, o que acabou não ocorrendo. Para as autoridades, esse tipo de conteúdo disfarçado de análise técnica pode configurar uma prática abusiva, uma vez que utiliza a credibilidade de ídolos e comentaristas para incentivar comportamentos de risco financeiro em um público diverso e, muitas vezes, leigo.

Investigação preliminar e possíveis violações legais
O Ministério da Justiça abriu uma investigação preliminar para apurar as publicidades exibidas pela CazéTV ao longo do Mundial. O procedimento foca em partidas específicas, como Inglaterra x Gana, Argentina x Áustria e Uruguai x Cabo Verde, onde teria havido indução direta ao ato de apostar. A investigação busca identificar se o canal violou os artigos 36 e 37 do Código de Defesa do Consumidor, que tratam da identificação e veracidade da publicidade, além do artigo 39, que versa sobre práticas abusivas.
Além do Código de Defesa do Consumidor, a apuração verifica o descumprimento das normas de comunicação comercial aplicáveis à exploração de apostas de quota fixa no Brasil. Com 104 jogos transmitidos, sendo 49 exclusivos, a CazéTV detém uma responsabilidade social ampliada pelo alcance de sua audiência. O desfecho desta investigação poderá redefinir os limites da publicidade esportiva em plataformas de streaming, especialmente no que diz respeito à integração de ferramentas de aposta diretamente no conteúdo editorial das transmissões.
Fonte: Máquina do Esporte.



