Entrevista com a Dra. Denise Guerzoni – Promotora de Justiça Coordenadora do CAOVD – Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Combate à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher
Quais dados e contextos específicos foram determinantes para o Ministério Público de Minas Gerais realizar a campanha “Cartão Vermelho ao Feminicídio”?
Os dados do estudo “Futebol e Violência contra a Mulher” (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2022) foram determinantes para o Ministério Público de Minas Gerais reconhecer a necessidade de ampliar o diálogo com os homens, sobretudo no contexto do futebol — um espaço de forte identificação coletiva e simbólica no país. O levantamento apontou que, nos dias de jogos, os registros de ameaças contra mulheres aumentam em 23,7%, e os casos de lesão corporal dolosa, em 20,8%. Esses números revelam uma correlação preocupante entre o comportamento social em torno do futebol e a reprodução de padrões de violência de gênero.
Diante desse cenário, o MPMG compreendeu que seria essencial desenvolver uma ação que unisse prevenção, sensibilização e mobilização social, utilizando a linguagem e os símbolos do esporte mais popular do Brasil para promover uma mensagem de respeito e igualdade. A campanha “Cartão Vermelho ao Feminicídio” nasce, assim, como uma resposta concreta a esse diagnóstico, reafirmando o compromisso da instituição com a promoção dos direitos das mulheres, a mudança de comportamentos e o enfrentamento das violências de gênero em todos os espaços — inclusive nos de lazer e convivência, tradicionalmente ocupados por homens.
Considerando a estratégia de utilizar a força do esporte, quais foram os principais desafios na mobilização e engajamento de clubes, atletas e veículos de mídia para a execução das ações propostas pela campanha?
O principal desafio tem sido integrar dois universos muito distintos: o sistema de justiça, onde a campanha se origina, e o mundo esportivo, com toda a sua força simbólica, emocional e cultural. O Ministério Público está engajado na responsabilização do agressor e no seu papel fundamental de acolher as vítimas, enquanto o esporte atua na esfera da influência social e cultural. Reunir essas duas dimensões — a da justiça e a da cultura — em torno de uma causa comum exigiu diálogo, sensibilidade e construção de confiança.
O alcance que os clubes, atletas e entidades esportivas possuem é imenso, especialmente entre o público masculino. Por isso, envolvê-los não é apenas uma estratégia de comunicação, mas uma forma de replicar a mensagem da proteção às mulheres a partir de vozes que têm legitimidade e alcance popular. Cada parceiro que se soma à campanha amplia o poder de transformação social dessa iniciativa.
Superar barreiras institucionais, agendas distintas e linguagens diferentes foi, e continua sendo,um exercício de cooperação e propósito coletivo. Mas é justamente nessa convergência entre justiça e esporte que está a força da campanha: transformar a paixão nacional em um instrumento de conscientização e prevenção, mostrando que proteger as mulheres é um compromisso de todos.
Diante da gravidade do feminicídio e do impacto que a campanha “Cartão Vermelho ao Feminicídio” busca gerar, qual é o sentimento pessoal da senhora, Dra. Denise, ao liderar uma iniciativa tão desafiadora e, ao mesmo tempo, tão essencial para a sociedade? Qual é a sua maior esperança com os resultados desta campanha?
Liderar uma campanha como o “Cartão Vermelho ao Feminicídio” é, ao mesmo tempo, um grande desafio e uma profunda responsabilidade. O feminicídio é a forma mais extrema da violência de gênero, e, por isso, exige de nós, enquanto instituição e enquanto sociedade, uma resposta à altura.
Do ponto de vista pessoal, sinto que esta campanha simboliza a possibilidade real de transformar cultura em prevenção.A minha maior esperança é que o Cartão Vermelho ao Feminicídio desperte consciência e gere mudança de comportamento. Que a mensagem chegue a cada homem, a cada torcedor, e o leve a repensar suas atitudes, suas palavras e seus exemplos. E que, com o tempo, possamos olhar para trás e perceber que essas ações simbólicas e educativas contribuíram para salvar vidas e construir uma sociedade mais justa e segura para as mulheres.
Para uma campanha dessa envergadura, é fundamental ter uma equipe dedicada e parcerias estratégicas. Gostaria de detalhar quem são os principais atores envolvidos na idealização e execução do “Cartão Vermelho ao Feminicídio” dentro do Ministério Público, e quais outras instituições e figuras públicas, como clubes esportivos e mídias, têm sido parceiras cruciais nesse esforço coletivo?
A execução da campanha “Cartão Vermelho ao Feminicídio” só está sendo possível graças a uma ampla articulação institucional e ao envolvimento de diferentes atores comprometidos com a causa. No âmbito do Ministério Público de Minas Gerais, foi fundamental contar com o apoio do Procurador-Geral de Justiça, Dr. Paulo de Tarso, cujo engajamento foi decisivo para que o projeto se consolidasse como uma prioridade institucional.
Destaco também a contribuição do Dr. Cláudio Maia, coautor do projeto e coordenador da COJUR/MPMG, e do Dr. Thiago Ferraz, Secretário-Geral da Procuradoria-Geral de Justiça, que desempenharam papéis centrais na construção jurídica e administrativa da iniciativa. As equipes da Assessoria de Comunicação (Asscom) e do Centro de Apoio Operacional de Enfrentamento à Violência Doméstica (CAOVD) também tiveram participação essencial em todas as etapas, desde o desenvolvimento conceitual até a mobilização de parceiros e a execução das ações.
Externamente, o projeto contou com o envolvimento inspirador do Dr. Paulo Lasmar, vice-presidente do Conselho Deliberativo do América Futebol Clube, cuja sensibilidade e visão foram determinantes para conectar o universo esportivo à pauta do enfrentamento à violência de gênero.
A campanha recebeu o apoio e a adesão de grandes nomes e instituições do esporte mineiro e nacional, que se tornaram porta-vozes da mensagem de respeito e igualdade: América Futebol Clube, Clube Atlético Mineiro, Cruzeiro Esporte Clube, Minas Tênis Clube (nas equipes masculina e feminina de vôlei), Sada Cruzeiro Vôlei e o ex-tenista profissional Bruno Soares. Cada um desses parceiros levou a causa para dentro e fora das quadras e dos estádios, utilizando a visibilidade e o poder simbólico do esporte para reafirmar o compromisso com a vida e com os direitos das mulheres.
O Instituto Casa da Palavra desempenha papel fundamental na execução do eixo educacional da campanha, responsável por ações formativas voltadas à discussão sobre masculinidades e enfrentamento da violência de gênero.
Também merece destaque a parceria com os veículos de comunicação e profissionais da imprensa, que vêm desempenhando papel essencial na divulgação e amplificação da mensagem da campanha. A colaboração de meios como o Estado de Minas, o jornal O Tempo, a Rádio Itatiaia, a Band Minas, a TV Horizonte e do jornalista Luís Tito tem sido determinante para levar o tema ao grande público, fortalecer o debate social e inspirar novas adesões à causa.
Por fim, diversos outros parceiros vêm se somando à iniciativa, demonstrando que essa é uma causa coletiva, que ultrapassa fronteiras institucionais. Cada nova adesão reforça o propósito central da campanha: transformar o esporte em uma plataforma de promoção do respeito e da não violência contra as mulheres.



