A Associação Nacional de Treinadores de Futebol (ANTF) manifestou preocupação com a sequência de mudanças nas comissões técnicas dos clubes portugueses e alertou que, ao fim de oito rodadas, já foram registradas dez saídas nos dois principais campeonatos nacionais. Em comunicado divulgado nesta quarta-feira (21), a entidade classificou os números como “um sinal de instabilidade que merece uma reflexão séria por parte de todos os agentes do futebol português”. Entre os casos recentes que ajudam a compor esse quadro estão a saída de Carlos Carvalhal do Famalicão, após a eliminação na Taça de Portugal, e a de Carlos Vicens do comando do Sporting de Braga, depois de três derrotas consecutivas.
Sem questionar a autonomia dos clubes para escolher seus treinadores, a associação contesta a tendência de responder aos resultados negativos com a substituição de quem lidera a comissão técnica. Na avaliação da ANTF, essa decisão não deve ser uma reação automática às dificuldades competitivas, sobretudo quando os projetos ainda estão em fase inicial. “A mudança de treinador não pode continuar a ser encarada como a resposta imediata aos resultados menos positivos”, defende a entidade, destacando que a construção de equipes competitivas depende de condições que exigem continuidade. Tempo, planejamento e confiança são, segundo a associação, indispensáveis para consolidar métodos de trabalho e desenvolver projetos esportivos sustentáveis.
Avaliação mais ampla e responsabilidade compartilhada
O comunicado também aborda os critérios usados para avaliar o desempenho dos treinadores. Embora reconheça que a exigência faz parte do futebol profissional, a ANTF considera insuficiente uma análise limitada aos resultados mais recentes, sem levar em conta as circunstâncias em que o trabalho é realizado. Os recursos disponíveis, o contexto de cada equipe e as decisões estratégicas das diretorias devem integrar essa avaliação, sustenta a associação. O apelo aponta para uma distribuição mais abrangente das responsabilidades, em vez de concentrar no treinador todas as consequências dos períodos negativos. “A responsabilidade deve ser analisada de forma global, evitando que o treinador seja, sistematicamente, o primeiro e único alvo perante as dificuldades”, afirma a entidade que representa os técnicos.
A ANTF esclarece, no entanto, que a defesa da estabilidade não equivale a exigir a manutenção de um treinador em quaisquer circunstâncias. O que a associação reivindica é uma gestão capaz de distinguir a necessidade de mudar de uma decisão precipitada, garantindo que os profissionais tenham condições de demonstrar o valor de seu trabalho. “Estabilidade não significa permanência a qualquer custo; significa decisões ponderadas, projetos coerentes e condições para que o trabalho desenvolvido possa ser devidamente avaliado”, diz o documento. O apelo aos clubes passa, assim, por privilegiar o planejamento e a continuidade, enquadrando as decisões sobre as comissões técnicas em uma estratégia esportiva consistente. A associação pede maior rigor e responsabilidade na gestão e reafirma o compromisso com a valorização e a dignificação da profissão. “O futebol português precisa de exigência e ambição, mas também de estabilidade e visão de futuro”, conclui a ANTF.
Na prática, o alerta expõe um dilema conhecido de quem comanda clubes de futebol: a pressão por resultados imediatos costuma encurtar o tempo de trabalho dos treinadores, enquanto a construção de um projeto esportivo sólido depende justamente do tempo que raramente é concedido. Ao pedir que as diretorias avaliem o desempenho considerando recursos, contexto e planejamento, a associação desloca o debate do resultado isolado para a gestão como um todo — uma discussão que interessa não apenas a Portugal, mas a qualquer mercado em que a troca de treinador seja tratada como primeira resposta à crise.
Fonte: Diário de Notícias.



