O futebol brasileiro sempre conviveu com política. Nos clubes associativos, as eleições internas fazem parte da história e da própria estrutura de gestão dessas instituições.
Mas, em anos eleitorais, uma pergunta ganha força nos bastidores: até que ponto as disputas políticas podem impactar o desempenho dentro de campo?
Embora o debate normalmente se concentre em chapas, campanhas e mudanças de diretoria, os efeitos vão muito além da administração. Eles atingem o planejamento esportivo, o ambiente interno, a estabilidade institucional e, consequentemente, o rendimento do time.
E isso não é apenas percepção. Cada vez mais, o Direito Desportivo e a governança esportiva tratam a estabilidade institucional como um fator estratégico para a continuidade e a competitividade dos clubes.
Futebol também é gestão, e instabilidade também entra em campo
No alto rendimento, bons jogadores e preparo físico não são suficientes. O desempenho de um clube depende de planejamento consistente, organização, segurança financeira e continuidade de projeto.
Em anos eleitorais, porém, esse equilíbrio tende a ficar mais sensível. Mudanças de gestão frequentemente provocam troca de profissionais, revisão de contratos, interrupção de projetos e redefinição de prioridades esportivas e administrativas. Quando essas transições acontecem de forma desorganizada, o impacto ultrapassa os bastidores e chega diretamente ao campo.
O futebol brasileiro já apresentou exemplos claros disso.
Em 2021, o Sport Club do Recife viveu forte turbulência política, chegando a ter cinco presidentes diferentes no mesmo ano. Em meio à instabilidade institucional, o clube enfrentou dificuldades esportivas importantes, incluindo a pior campanha de sua história no Campeonato Pernambucano e o rebaixamento para a Série B do Campeonato Brasileiro.
Outro exemplo frequentemente lembrado no cenário gaúcho envolve o Grêmio Esportivo Brasil (popularmente conhecido como Brasil de Pelotas) e o Esporte Clube Pelotas. Enquanto o Brasil de Pelotas conseguiu manter maior continuidade administrativa durante seu período de crescimento esportivo, conquistando acessos consecutivos da Série D para a Série C e depois para a Série B, o Pelotas enfrentou períodos de maior instabilidade gerencial e política, convivendo com campanhas irregulares e rebaixamentos.
Por outro lado, clubes como Sociedade Esportiva Palmeiras e Clube de Regatas do Flamengo conseguiram atravessar ciclos eleitorais preservando planejamento de longo prazo e maior profissionalização da gestão. Isso não elimina divergências internas, mas reduz os impactos das mudanças políticas sobre o futebol.
Esses cenários mostram que estabilidade institucional não é apenas uma questão administrativa. Ela influencia diretamente o ambiente, a continuidade do trabalho e a capacidade competitiva do clube.
E, no futebol moderno, isso também é desempenho.
O impacto jurídico e institucional das mudanças de gestão
Do ponto de vista jurídico e institucional, períodos eleitorais exigem atenção redobrada. Mudanças de comando podem afetar contratos de atletas e comissão técnica, acordos comerciais, planejamento financeiro, continuidade de projetos esportivos e até o cumprimento de obrigações regulatórias e estatutárias.
Além disso, disputas políticas internas frequentemente acabam judicializadas, especialmente quando envolvem questionamentos sobre processos eleitorais, legitimidade de decisões ou regras de governança.
O resultado é um ambiente de instabilidade que interfere diretamente no cotidiano do clube e dificulta a construção de projetos consistentes no longo prazo.
Instabilidade também afeta performance
No esporte de alto rendimento, ambiente interno é fator de performance.
Quando existem dúvidas sobre o futuro da gestão, mudanças constantes de direção e conflitos nos bastidores, o reflexo aparece no dia a dia do futebol: perda de continuidade no trabalho técnico, insegurança no elenco, desgaste emocional e dificuldade em manter confiança no projeto esportivo.
Atletas, comissão técnica e funcionários convivem diariamente com o ambiente institucional do clube. Quando esse ambiente se torna instável, a tendência é que o desempenho também oscile.
Por isso, cada vez mais clubes buscam mecanismos capazes de proteger o departamento de futebol das mudanças políticas imediatas.
Governança: o caminho para mais estabilidade
Nesse contexto, a governança esportiva ganha protagonismo.
Mais do que burocracia, governança significa criar estruturas capazes de garantir continuidade institucional, transparência, clareza na tomada de decisões e maior profissionalização da gestão, independentemente de quem esteja na presidência.
Na prática, isso envolve:
- Profissionalização dos departamentos;
- Planejamento de longo prazo;
- Definição clara de competências;
- Redução de interferências políticas no futebol;
- Maior segurança jurídica e administrativa.
O avanço das SAFs no Brasil reforçou ainda mais esse debate. Clubes como o Esporte Clube Bahia passaram a adotar modelos empresariais justamente na tentativa de reduzir impactos políticos diretos sobre a gestão do futebol, buscando mais previsibilidade e estabilidade institucional.
Muito além das eleições: o verdadeiro desafio dos clubes
O desafio do futebol brasileiro não está em eliminar a política dos clubes, algo praticamente impossível dentro da realidade histórica e institucional dessas organizações. O verdadeiro desafio é impedir que disputas políticas comprometam a continuidade do projeto esportivo.
Clubes fortes raramente são construídos em apenas uma gestão. Eles dependem de estrutura sólida, planejamento de longo prazo e capacidade de atravessar mudanças sem perder direção.
E é justamente nos anos eleitorais que isso fica mais evidente.
Mais do que mudanças de comando, esses períodos revelam o nível de organização e maturidade institucional de um clube. Estruturas sólidas conseguem passar por transições preservando planejamento, ambiente interno e estabilidade esportiva. Já estruturas fragilizadas tendem a transformar disputas políticas em crises que afetam diretamente o desempenho.
Porque, no futebol moderno, performance não começa apenas no campo.
Ela também é construída na gestão, na governança e na capacidade de manter estabilidade mesmo nos momentos de maior pressão.
Fabiana Nardini
Advogada Desportiva, especialista em Direito no Futebol. Atua de forma estratégica com atletas, clubes e projetos esportivos. Trabalha na conexão entre jurídico, gestão esportiva e captação de recursos, transformando segurança jurídica em resultado: organização, crescimento e performance dentro e fora de campo. Integra análise de desempenho e treinamento mental à prática jurídica, com uma visão completa do esporte como negócio e ativo de investimento. Membro da Comissão de Direito Desportivo da OAB/AL. Atua ao lado de federações e ligas em Alagoas, contribuindo para a profissionalização, fortalecimento e desenvolvimento do esporte.



