Há momentos em que um clube perde partidas. Em outros, perde campeonatos. A Ponte Preta, infelizmente, parece estar perdendo algo muito mais valioso: sua capacidade de oferecer esperança ao próprio torcedor.
A derrota para o Criciúma foi dolorosa dentro de campo, mas o verdadeiro impacto veio depois do apito final. O meia Elvis transformou a entrevista em um desabafo que dificilmente será esquecido. Suas palavras não foram as de um atleta revoltado apenas por mais um resultado negativo. Foram as palavras de um profissional que se sente abandonado.
Ao afirmar que “estão brincando com as nossas vidas” e pedir que, se a diretoria não consegue trazer recursos, “saia do clube”, Elvis verbalizou aquilo que muitos torcedores já vinham sentindo há meses.
É claro que um jogador falar publicamente dessa maneira nunca é o cenário ideal. Mas talvez o mais preocupante seja perceber que quase ninguém se surpreendeu. Afinal, salários atrasados, transfer ban, ações judiciais de atletas, perda de credibilidade no mercado e uma sequência de resultados desastrosos já fazem parte da rotina da Macaca.
O futebol costuma refletir a gestão. Quando a administração falha, o campo cobra a conta. Não existe planejamento esportivo consistente quando falta segurança financeira. Não existe elenco motivado quando profissionais precisam se preocupar se conseguirão pagar suas contas no fim do mês.
A Ponte e o círculo vicioso
O clube, que sempre se orgulhou de sua história, de sua torcida apaixonada e de revelar grandes jogadores, hoje luta para preservar sua dignidade. A cada nova crise, perde força diante de patrocinadores, investidores e até mesmo de atletas que pensam duas vezes antes de aceitar uma proposta para vestir a camisa alvinegra. É nesse contexto que a discussão sobre a SAF deixa de ser ideológica.
Durante muito tempo, parte da torcida enxergou a Sociedade Anônima do Futebol como uma ameaça à identidade centenária da Ponte Preta. O receio é compreensível. Nenhum torcedor quer ver seu clube transformado apenas em um ativo financeiro. Mas também é preciso reconhecer a realidade.
A pergunta talvez não seja mais se a Ponte deve ou não se tornar uma SAF. A pergunta correta é: existe outro caminho viável para recuperar um clube endividado, sem capacidade de investimento e que perde competitividade a cada temporada?
A SAF, por si só, não resolve problemas. Existem exemplos de sucesso e também de fracassos no futebol brasileiro. O que faz diferença é a qualidade do projeto, a transparência da negociação e a escolha de investidores comprometidos com a reconstrução do clube.
Sem recursos novos, dificilmente a Ponte conseguirá romper o ciclo atual. O desabafo de Elvis também trouxe outro ponto importante. Quando ele afirma que, se a gestão não consegue trazer recursos, deveria abrir espaço para quem consiga, não está falando apenas de dinheiro. Está falando de responsabilidade.
Dirigir um clube do tamanho da Ponte Preta exige coragem para reconhecer limites. Permanecer no comando sem apresentar soluções concretas apenas prolonga o sofrimento de jogadores, funcionários e torcedores. A Ponte Preta é grande demais para viver de improvisos.
Sua história não pode ser resumida a notícias sobre atrasos salariais, ações trabalhistas e derrotas consecutivas. O futebol paulista precisa da Ponte forte. Campinas merece ver novamente seus estádios recebendo grandes jogos, e o futebol brasileiro perde quando uma instituição de mais de um século passa a frequentar manchetes apenas por suas crises.
Ainda há tempo para evitar um desastre maior.
Mas esse tempo está acabando.
Seja por meio de uma SAF séria, de uma profunda reformulação administrativa (algo que não deve acontecer) ou de uma união inédita entre diferentes grupos políticos do clube, alguma decisão estrutural precisa ser tomada imediatamente.
Porque, neste momento, o maior adversário da Ponte Preta não é o próximo time da tabela. É a própria incapacidade dos atuais dirigentes de mudar.
Fagner Ramos
Jornalista com experiência em rádio, jornal e revista e assessoria de imprensa. Ao longo da carreira, atuou na Rádio Central de Campinas, Rádio Brasil, afiliada à Jovem Pan e na CBN Campinas, desenvolvendo trabalhos na produção de conteúdo, apuração, redação e cobertura jornalística. Também possui atuação como produtor de programas esportivos, além de comunicação e gestão de conteúdo digital, unindo prática de redação jornalística com estratégia de posicionamento e relacionamento com a imprensa.



