As obras de reforma e ampliação do Estádio Conde Rodolfo Crespi, a icônica Rua Javari, na Mooca, tornaram-se alvo de controvérsia técnica e jurídica. Iniciadas em maio pelo Clube Atlético Juventus, as intervenções não possuem o aval da Prefeitura de São Paulo nem do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp). Por se tratar de um conjunto tombado desde 2016, qualquer alteração estrutural exige aprovação prévia e rigorosa dos órgãos de defesa do patrimônio, o que ainda não ocorreu.
O cronograma de obras avançou logo após o clube garantir o retorno à elite do futebol estadual. Relatos de moradores e registros audiovisuais confirmam a demolição de alambrados, bancos de reservas em concreto, uma arquibancada lateral e um ginásio de futsal. Atualmente, os pedidos de restauro e de alvará de reforma seguem em análise técnica no Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) e na Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento. Somente após o parecer favorável do DPH é que o Conpresp poderá deliberar sobre a legalidade das intervenções, o que coloca o início antecipado das atividades em uma situação de irregularidade administrativa.

Obras antecipadas e o desafio das exigências federativas
A pressa na execução das reformas está atrelada ao planejamento da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) que gere o Juventus. O objetivo central é triplicar a capacidade do estádio, saltando dos atuais 5 mil para 15 mil lugares. Essa ampliação é uma exigência da Federação Paulista de Futebol para que o clube possa mandar seus jogos da Série A1 em casa no ano de 2027. No entanto, especialistas em preservação alertam que, por o tombamento incidir sobre o lote integral, nenhuma ação poderia ser executada enquanto o projeto estivesse “em aprovação”.
A SAF da Juventus optou por não detalhar o projeto nem comentar as possíveis irregularidades no início dos trabalhos. Paralelamente às demolições, o clube iniciou a comercialização de itens históricos, como cadeiras numeradas originais e pedaços do antigo alambrado, utilizando o apelo nostálgico para “eternizar um pedaço da Javari”. Embora a resolução de tombamento permita alterações em construções erguidas após o projeto original, o rito legal exige uma apreciação “caso a caso” que, legalmente, deve preceder o uso de marretas e máquinas no canteiro de obras.
Histórico de desvios e a proteção do patrimônio histórico
A atual tentativa de requalificação ocorre sob a sombra de um escândalo financeiro envolvendo gestões anteriores. Em 2022, o clube arrecadou cerca de R$ 2,3 milhões através da venda de “potencial construtivo”, um mecanismo legal onde o proprietário de um imóvel tombado transfere o direito de construir para outro local, desde que o dinheiro seja obrigatoriamente aplicado na conservação do bem protegido. Contudo, uma sindicância interna e um inquérito policial investigam o desvio desses recursos, que teriam sido utilizados para quitar empréstimos pessoais de ex-dirigentes, resultando em uma multa de R$ 2,9 milhões aplicada pela prefeitura, atualmente suspensa para análise.

O Estádio Conde Rodolfo Crespi, inaugurado em 1941, é protegido por sua relevância arquitetônica e histórica para a capital paulista. As regras de preservação estabelecem que muros, bilheterias, entrada principal, arquibancadas e o próprio campo de futebol devem ser mantidos integralmente. O projeto de restauro enviado pela SAF em março deste ano aponta degradações estruturais, como rachaduras e infiltrações, além de “edificações espúrias” que prejudicariam a leitura visual do estádio. A decisão final do Conpresp sobre o projeto e sobre as punições por obras não autorizadas dependerá da conclusão das análises técnicas que ainda tramitam nos corredores municipais.
Fonte: g1.Globo.



