Se você acha que esse negócio de clube virar empresa e SAF/SAD é coisa de outro mundo ou do universo moderno, você está redondamente enganado. Lá em meados dos anos 2000 o Vitória EC da Bahia já costurava essas ideias. Foi o primeiro clube a se tornar um clube-empresa, trouxe nada mais nada menos que Petkovic direto do Real Madrid. Isso mesmo: o Vitória não vendia ao Real, o Real que vendia ao clube. Não só ele — nomes consagrados como Bebeto também pararam no Barradão. Em uma época de parcerias de outro mundo, o clube se destacou pela pura ousadia.
O Vitória sempre foi um clube à frente do seu tempo. Enquanto muitos ainda dormiam no modelo associativo tradicional, o Leão da Barra já entendia que futebol de alto nível exige capital, estrutura e coragem para tomar decisões impopulares. Aquela era dourada do final dos anos 90 e início dos 2000, com Bebeto, Túlio, Petkovic e companhia, mostrou o DNA rubro-negro: ousadia acima de moralismo.
Futebol Baiano e sua nova face
Se nos anos 2000 e até 2014 era comum ver o “Bavi” brigando nas divisões inferiores ou num sobe-e-desce constante, essa página virou. Os dois rivais deram novos contornos ao futebol do Nordeste.
O Esporte Clube Bahia virou SAF e recebeu o City Football Group nos seguintes momentos:
- Dezembro de 2022: Aprovação da Bahia SAF e venda de 90% das ações para o City Group (mais de 98% de aprovação). Operação estimada em torno de R$ 1 bilhão.
- 4 de maio de 2023: Closing oficial. O City Group assumiu 90% do controle, transformando o Bahia no 13º clube da rede global de Abu Dhabi.
O Vitória ainda não é SAF, mas o processo está avançado: contratou o escritório CSMV Advogados (André Sica) para a estruturação jurídica e a FTI Capital Advisors para prospectar investidores nacionais e internacionais (com viagem recente a Londres). Presidente Fábio Mota e os principais candidatos nas eleições prometem avançar forte em 2026, com meta de constituição ainda este ano ou no máximo em 2027.
Patrocínios +18: a máfia que paga as contas
Se tem uma coisa que mantém o Vitória nos holofotes é a coragem nos patrocinadores — literalmente proibidos para menores de 18 anos.
- Bet7k (master): R$ 16 milhões fixos por temporada (pode chegar a R$ 20 milhões com bônus). Contrato de 3 anos (2025-2027). Maior patrocínio da história do clube.
- Fatal Model: Iniciado em 2023 (maior patrocínio de mangas da época), ampliado para barra frontal em 2025. Saiu do masculino em janeiro de 2026 e segue como master do feminino.
- Skokka: Substituiu a Fatal Model no masculino em janeiro de 2026. Recurso usado, entre outras coisas, para custear sete voos fretados no Brasileirão.
Valuation, ROI e infraestrutura
Segundo a Sports Value (6ª edição – Top 30 clubes brasileiros 2025):
- Enterprise Value: US$ 156 milhões (≈ R$ 826 milhões)
- Crescimento: +250% em um ano
- Brand Value: US$ 31 milhões
Elenco (Transfermarkt 2026): € 41,73 milhões (≈ R$ 260 milhões).
O Barradão passa por modernização, com projeto de arena estimado em R$ 460 milhões via investimento privado. Dívida operacional: R$ 407,7 milhões (em renegociação).
Conta de chegada do ROI: de US$ 45 milhões em 2024 para US$ 156 milhões hoje — multiplicação de 3,46x em 12 meses. O penta da Copa do Nordeste injetou R$ 4,6 milhões diretos + forte impacto em visibilidade, sócios e atratividade para investidores.
O que eu faria se fosse o diretor executivo hoje?
Com o título e o valuation em alta, aceleraria tudo:
- Captação de capital estrangeiro imediata — já teria fechado ou estaria em fase avançada com fundo soberano ou private equity. O penta é a prova de execução que o mercado busca.
- Explosão de merchandising — abriria lojas e quiosques em capitais com grande público nordestino (SP, RJ, DF, Fortaleza, Recife). Grandes eventos impulsionam vendas de camisas em 350-400%. O Vitória pode se tornar o hub comercial do Nordeste.
- A ousadia que gera valor: a linha Bavi — criaria uma joint-venture ou linha compartilhada com o rival. Quiosques conjuntos, produtos lifestyle, coleções colaborativas. Porque rivalidade não precisa ser só dentro de campo. Juntos, Bahia e Vitória representam uma das maiores bases de torcida do país. Monetizar essa paixão pode gerar milhões em receita incremental com baixo custo, fortalecendo a marca regional.
Isso não é sorte. É pragmatismo de alto nível. Enquanto um rival conta com dinheiro ilimitado de Abu Dhabi, o Vitória prova que ousadia baiana ainda escreve história.
O que vocês acham? No futebol brasileiro de 2026, quem paga as contas define o que é “certo”? Ou ainda vale fingir moralidade enquanto o caixa não fecha?
Felipe Araujo
Executivo com especialização em Gestão de Clubes de Futebol e MBA em Gestão Financeira. Felipe Moreira une a experiência de liderança em multinacionais à análise técnica do ecossistema das SAFs. É o criador da newsletter ‘Sala do Diretor’, referência em inteligência de mercado e gestão esportiva com mais de 3.500 assinantes qualificados. Tenho mais de 100 publicações, gosto de olhar o mercado e sempre escrevo com olhar administrativo sobre a realidade.



