O Brasil é um país profundamente desigual, e a profissão de jogador de futebol reflete essa disparidade de forma contundente. Um relatório produzido pela Agência Nacional de Regulação do Sistema de Sustentabilidade Financeira (ANRESF) em parceria com a CBF Academy, que lista a extensão e a remuneração anual média de todos os contratos assinados na janela de transferências de 2026, revela um abismo impressionante entre os salários pagos nas diferentes divisões do futebol nacional.
A diferença mais gritante está nos vínculos assinados pelos 692 jogadores que chegaram de clubes do exterior, incluindo brasileiros e estrangeiros. Para quem desembarcou em um clube da Série A, a remuneração média anual é de R$ 3,042 milhões, o equivalente a R$ 253,5 mil por mês. Os valores despencam nas divisões seguintes: na Série B, o salário médio anual cai para R$ 372,4 mil; na Série C, para R$ 99,8 mil; e na quarta divisão, para R$ 82,3 mil. No extremo oposto, os atletas contratados por clubes que não disputam nenhuma divisão nacional recebem uma média anual de apenas R$ 22,3 mil, ou R$ 1.858 mensais — pouco mais que o salário mínimo brasileiro, atualmente em R$ 1.621. Um jogador de time sem divisão ganha o equivalente a 0,7% do que recebe um atleta da elite nacional.
Negociações internas também expõem a desigualdade estrutural
A disparidade é um pouco menor quando se analisam os contratos firmados entre clubes brasileiros. Foram 7.581 negociações internas na janela de começo de ano em 2026, uma base bastante superior. Para quem assinou com clubes da Série A, a remuneração média anual é de R$ 1,714 milhão, ou R$ 143 mil mensais. Na Série B, o valor cai para R$ 318,4 mil anuais. Na Série C, a média é de R$ 121,4 mil, e na quarta divisão, de R$ 44 mil. Já os atletas que firmaram contrato com clubes sem divisão nacional recebem, em média, R$ 35 mil por ano, ou R$ 2,9 mil mensais — valor inferior ao salário médio de todos os brasileiros, que é de R$ 3,7 mil, segundo o IBGE. Os números revelam que, para a maioria dos jogadores que sonham em viver do futebol no Brasil, a realidade financeira está distante dos holofotes e dos milhões que circulam na elite do esporte.
Fonte: Por Paulo Cobos, colunista da ESPN.



