A SAF do Botafogo protocolou nesta última sexta-feira (3 de abril de 2026) a abertura de duas ações judiciais contra o Lyon, clube francês integrante da rede multi-clubes Eagle Football. O montante total cobrado ultrapassa os R$ 745 milhões e refere-se a empréstimos e transferências realizados sob um sistema de caixa único (cash pooling) que, segundo o clube carioca, foi rompido unilateralmente pela nova gestão do Lyon sem a devida devolução dos valores.
O Botafogo classifica a medida como um “movimento irreversível” e afirma que adotará todas as providências legais para recuperar os ativos, fundamentais para a solidez de seu projeto esportivo. A inadimplência do clube francês teria gerado impactos diretos nas operações alvinegras, comprometendo o planejamento financeiro e resultando, inclusive, em um transfer ban imposto pela FIFA ao Botafogo no final de 2025.
Detalhes das ações e valores envolvidos
Os processos tramitam na Justiça do Rio de Janeiro, foro que, segundo a defesa da SAF, foi aceito pelo Lyon no momento da assinatura dos acordos. As ações dividem-se em dois blocos principais:
- Execução Extrajudicial (R$ 125 milhões): Referente a 21 milhões de euros em empréstimos e transferências efetuados em março de 2025, baseados em um contrato de crédito intragrupo. Esta modalidade permite, em tese, o direito de execução imediata em até três dias.
- Ação de Cobrança (R$ 573 milhões): Envolve 11 transferências de “vultosas quantias” realizadas entre março de 2024 e fevereiro de 2025. A defesa alega que o Lyon se beneficiou dos recursos para sanar sua insolvência financeira à época, mas não honrou os pagamentos.
- Empréstimo Bancário (R$ 45 milhões): O Botafogo cita ainda o repasse de R$ 323 milhões (via Banco XP) ao Lyon, no qual o clube francês se comprometeu a pagar juros de cerca de 7,6 milhões de euros, o que também não teria ocorrido.
Contexto da crise na Eagle Football
A disputa judicial expõe o racha interno no Grupo Eagle. John Textor deixou o comando direto do Lyon em junho de 2025, sendo substituído por controladores — incluindo a presidente Michelle Kang — que passaram a divergir do empresário americano. Recentemente, Textor perdeu poderes como diretor na Eagle Bidco, subsidiária que detém os clubes da rede, após intervenção da Justiça inglesa.
Enquanto o Lyon aciona o Botafogo na FIFA pela compra de Jeffinho, o clube brasileiro sustenta que seus aportes foram vitais para tirar o time francês de um cenário de rebaixamento e insolvência no final de 2022. O Botafogo reafirma que a recuperação desses valores é essencial para manter a competitividade que levou o clube aos títulos da Libertadores e do Brasileirão em 2024.
Leia a nota do Botafogo na íntegra:
“O Botafogo protocolou, na última sexta-feira (3), ações contra o Olympique Lyonnais na Justiça, em razão de dívidas que ultrapassam R$ 745 milhões. O objetivo é assegurar o retorno dos valores devidos, fundamentais para o fortalecimento do projeto esportivo Alvinegro, e resguardar o patrimônio do Clube.
Como é de conhecimento público desde a incorporação da SAF, em 2022, o Botafogo passou a integrar o Grupo Eagle, rede multiclubes liderada por John Textor. Como estratégia competitiva foi adotado por todos os clubes do grupo um modelo colaborativo de gestão financeira e de atletas. Esse modelo contribuiu para conquistas históricas do Botafogo, como a CONMEBOL Libertadores e o Campeonato Brasileiro de 2024. Para o Olympique Lyonnais, essa colaboração também teve um impacto histórico no primeiro ano sob o comando de John Textor, tirando o clube da zona de rebaixamento e queda iminente, e o classificando para a Liga Europa em apenas uma janela de transferência.
Eagle Football adquiriu o Olympique Lyonnais em situação de insolvência no final de 2022, com todos os bancos exigindo pagamento da dívida, e sob a ameaça de sanções pesadas do DNCG no primeiro dia de controle da Eagle.
Por esse contexto, o Botafogo realizou aportes financeiros sucessivos, totalizando mais de R$ 745 milhões, a título de empréstimos, com a clara expectativa de reembolso em condições previamente estabelecidas.
Posteriormente, em meio a conflitos internos entre sócios do Grupo Eagle, a nova presidente do Olympique Lyonnais rompeu unilateralmente o acordo de colaboração. Apesar de ter se beneficiado dos recursos recebidos, o clube francês deixou de cumprir as obrigações assumidas, recusando-se a efetuar o pagamento da dívida aos clubes do Grupo Eagle de R$745 milhões ao Botafogo, e outros €12 milhões ao RWDM Brussels. A inadimplência gerou impactos diretos na operação do Botafogo, comprometendo o planejamento financeiro e afetando a capacidade de renovação e contratação de atletas. Como consequência, o Clube foi, inclusive, alvo da aplicação de um Transferban pela FIFA no final de 2025.
A partir de agora, o Botafogo realiza esse movimento de forma irreversível: A SAF adotará todas as medidas legais cabíveis para recuperar integralmente os valores devidos pelo Olympique Lyonnais e assegurar a continuidade e a solidez de seu projeto esportivo.”



