Em crise financeira, Guarani e Ponte Preta encaram o limite do modelo associativo
Donos de histórias centenárias e protagonistas de um dos maiores clássicos regionais do futebol brasileiro, Guarani e Ponte Preta vivem hoje um cenário de forte pressão econômica, que coloca em xeque o modelo associativo e abre espaço para uma possível mudança estrutural.
No caso do Guarani, a situação é delicada, mas apresenta sinais de organização. O clube acumula uma dívida superior a R$ 300 milhões e enfrenta um desequilíbrio crônico entre receitas e despesas. O Bugre tem buscado uma saída por meio da recuperação judicial, tentando reorganizar suas finanças e criar um ambiente mais seguro para o futuro. O clube deve já no próximo mês se transformar em SAF. Tudo vai depender do que os conselheiros decidirem.
Já a Ponte Preta vive uma realidade ainda mais preocupante. Sua dívida gira em torno de R$ 340 milhões, valor que supera o próprio patrimônio do clube, o que indica uma situação de maior fragilidade. Com receitas consideradas baixas, tendo em vista custos elevados, a Macaca enfrenta dificuldades ainda maiores para equilibrar as contas. A margem de recuperação sem uma mudança significativa é pequena, e o risco de aprofundamento da crise é constante. Diferente do Guarani, que dá sinais de reorganização, a Ponte parece mais pressionada por uma solução imediata e começa de maneira muito tímida a discutir uma SAF no clube.

Crise financeira
Esse cenário evidencia o esgotamento do modelo associativo tradicional para clubes desse porte. A baixa geração de receitas, a dependência da venda de jogadores e o acúmulo de dívidas ao longo dos anos criaram um ciclo difícil de romper. É justamente nesse contexto que a SAF surge como uma alternativa. Ao permitir a entrada de investidores e a profissionalização da gestão, o modelo promete trazer capital, reorganizar dívidas e oferecer um planejamento mais consistente a longo prazo. Para clubes como Guarani e Ponte Preta, isso significaria, principalmente, ganhar fôlego financeiro e condições de voltar a ser competitivo.
SAF seria a solução?
No entanto, é preciso cautela. A SAF não é uma solução automática, nem uma garantia de sucesso. O futebol brasileiro já apresenta exemplos de projetos que não atingiram as expectativas, seja por falta de investimento contínuo, má gestão ou interesses desalinhados entre investidores e clube. O risco de perder controle sobre decisões importantes e até parte da identidade institucional também preocupa torcedores. Em muitos casos, a transformação em empresa pode representar apenas uma troca de problemas, caso não seja bem conduzida.
Ao analisar os dois clubes de Campinas, é possível perceber que, embora a solução possa ser a mesma, os contextos são diferentes. Para o Guarani, a SAF aparece como uma oportunidade estratégica de crescimento, já que o clube está em processo de reorganização e pode negociar em condições mais equilibradas. Para a Ponte Preta, por outro lado, a SAF se apresenta quase como uma necessidade, diante da dificuldade de recuperação dentro do modelo atual.
No fim das contas, a discussão não deve se limitar a ser contra ou a favor da SAF. A questão central está nas condições em que essa transformação será realizada. Quem será o investidor, qual será o projeto de longo prazo, como será garantida a governança e até que ponto a identidade do clube será preservada são perguntas fundamentais que precisam ser respondidas antes de qualquer decisão. Guarani e Ponte Preta estão diante de um momento decisivo, em que o futuro fora de campo pode definir os rumos dentro dele. Mais do que escolher virar empresa, será essencial escolher como e com quem dar esse passo.
Fagner Ramos
Jornalista com experiência em rádio, jornal e revista e assessoria de imprensa. Ao longo da carreira, atuou na Rádio Central de Campinas, Rádio Brasil, afiliada à Jovem Pan e na CBN Campinas, desenvolvendo trabalhos na produção de conteúdo, apuração, redação e cobertura jornalística. Também possui atuação como produtor de programas esportivos, além de comunicação e gestão de conteúdo digital, unindo prática de redação jornalística com estratégia de posicionamento e relacionamento com a imprensa.



