Muito embora a Sociedade Anônima do Futebol (SAF) tenha sido regulamentada desde 2021, com a criação da Lei 14.193/2021, ainda se percebe o surgimento de dúvidas, especialmente entre pessoas que não estão envolvidas diretamente na gestão do esporte e do futebol. A proposta deste artigo é contribuir com informações que possam alcançar todo leitor interessado pelo tema.
O nosso ponto de partida é a Lei 14.193/2021, que além da regulamentar, serviu como meio esclarecimento sobre as dúvidas que pudessem transitar no tema. Ela facilitou e deu condições para que os clubes tivessem uma gestão mais profissional e com rentabilidade e talvez seja este o pronto principal. Assim, a finalidade da SAF é proporcionar uma saída para os clubes que têm gestões apoiadas na paixão e sem planejamento e orçamento, comprometendo toda área financeira.
Vale a pena lembrar que em um passado recente da gestão esportiva, o amadorismo esteve presente. Assim, com muita frequência, testemunhamos uma gestão passional, voltada a interesses próprios e nem sempre à coletividade do clube. Nos estatutos clubístico, habitualmente, os associados não respondem pelos atos e débitos do clube, que reforça ainda mais essa conduta e posição amadora. As associações geralmente são isentas de alguns impostos e fica confortável para quem só vê interesses próprios. Diferente do cenário patrimonial, no Brasil, este delito ainda compensa.
A Lei de Responsabilidade Fiscal surgiu como uma tentativa de coibir esses atos, entretanto, quantos gestores foram indiciados por prevaricação com as finanças do clube? Caracteriza-se por uma doença nacional: a desobediência ao orçamento. O que é fato: tem que primar pela legalidade, impessoalidade, moralidade, eficiência, equilíbrio operacional, diversificação de matriz e receita e, infelizmente, mas não é regra geral, isso não ocorre.
Diante deste contexto, é compreensível o interesse pela SAF. De acordo com o Instituto de Pesquisa e Inteligência Esportiva (IPIE), acredita-se que já existam cerca de 130 SAFs no Brasil (IPE, 2026). E quais as vantagens e desafios deste modelo?
A SAF, de acordo com o estatuto, permite a migração total ou parcial do departamento de futebol. Atualmente, observam-se clubes endividados procurando a SAF com mais frequência, mas qualquer clube pode buscar um projeto SAF, pensando em rentabilidade. Desta forma, esta lei permite que clubes de futebol mudem para modelo empresarial, seguindo e respeitando todas as normas que dizem respeito à governança, controle e fontes de financiamento específicas.
Importante destacar alguns pontos: Primeiro, ao migrar o departamento de futebol, por exemplo, o clube cede seus ativos correlacionados. Tudo depende do que foi acordado, podendo, inclusive, o clube retomar o departamento em algum momento. Um outro aspecto significativo é que essa operação só ocorrerá se houver aprovação majoritária da assembleia do clube, ou seja, a assembleia é fundamental nesta primeira etapa.
Há pouco tempo, o Juventus, hoje um clube da série A2 do campeonato paulista e de mínima expressão nacional, mas que carrega uma história por muitos conhecida, obteve a aprovação da assembleia para esta transformação. A intenção, efetivamente, é trazer de volta o tempo de glória da equipe, já que a gestão do clube não tem força para a empreitada. Durante a assembleia, houve a aprovação de 83,85% com o projeto entre o clube e os investidores que ofertaram R$ 480 milhões pela compra de 90% do Juventus (Globo, 2025). Já na gestão, ações começam a despontar como o novo gramado sintético do estádio.
Dentre os benefícios da SAF, está o regime tributário, que nos primeiros cinco anos há um tributo mensal unificado, limitado a 5% sobre as receitas mensais (fazendo-se exceção a transferências de atletas). A partir do sexto ano, passa a 4%, entretanto incide sobre todas as receitas da empresa, inclusive vendas de direitos econômicos de jogadores. A lei prevê a possibilidade da emissão de debêntures do futebol, engajando e permitindo que os torcedores comprem títulos, com resgate após dois anos. Outra vantagem significativa está no compromisso que a empresa passa a ter sobre o futebol no clube e sociedade, como investimentos estruturais para a prática de futebol; transporte e alimentação para jogadores de base durante períodos de recreação e treinamento; capacitação de ex-jogadores para ministrar e conduzir atividades; contratação de profissionais auxiliares, como preparadores físicos, nutricionistas e psicólogos; aquisição de equipamentos e insumos necessários para o desenvolvimento do futebol.
A SAF apresenta desvantagens. Talvez a maior delas seja o desacordo de interesse no transcurso da parceria. Um exemplo é o Botafogo. De cara, teve um resultado relevante, exitoso, com conquistas e transações de jogadores. Depois, o próprio investidor, John Textor, falou sobre o fracasso, indicando problemas financeiros, como o aumento significativo da dívida líquida e a pressão para honrar pagamentos, especialmente por contratação de jogadores. O Bahia, investe na estrutura do clube, cumprindo com o pagamento de dívidas. De acordo com a CNN (2025) apesar do caixa estar positivo, há problemas financeiros, com um prejuízo de R$ 246,5 milhões em 2024. Outro desafio diz respeito à gestão da relação com o clube social, principalmente depois que uma parte foi vendida para o City Football Group. Há de se lembrar que muitos investidores têm mais de um clube, assim, a prioridade para eles será sempre a lucratividade, independente da equipe.
Essa talvez seja a dificuldade dos gestores do clube, entenderem que pelo olhar do investidor, tudo é negócio, querem lucro, sem se importar prioritariamente com as conquistas. Se não der lucro não importa. Um outro exemplo é o caso do Vasco solicitou a dissolução do negócio com a 777 Partners por não atender os interesses do clube, visto a crise que a investidora estava mergulhada em processos financeiros e judiciais nos Estados Unidos e Reino Unido.
O Clube pode ter sim uma gestão de excelência. O Clube é uma empresa, mas seu caráter formal é o estatuto. Palmeiras e Flamengos são bons exemplos, entretanto, no passado, foram clubes que sofreram, mas que se engajaram em um processo de transformação que envolve transparência ao torcedor, ajuste de contas, profissionalização e um excelente planejamento orçamentário em busca do superavit e o recorrente reinvestimento nos equipamentos, equipe, profissionais. O caminho é longo, requer profissionalismo e disciplina e o resultado não surge de um dia para o outro.
Para finalizar, vale a pena lembrar que a tradição do clube sempre permanece. Em outras palavras, as cores, o brasão, o hino, o mascote são patrimônios que devem permanecer intactos, especialmente por conta da força e da ligação com os associados e torcedores. Retomando uma vez mais o Juventus, os cannolis continuam intactos nos intervalos dos jogos.
Arlindo Vicente Jr.
Administrador de Empresas e Advogado, com especialização em Direito Desportivo e em Gestão do Esporte. Membro efetivo do GEGE – Grupo de Excelência em Gestão do Esporte do CRA-SP e da Comissão de Direito Desportivo da OABSP, subseção Santos/SP.
Deborah Palma
Mestre em Administração pela Florida Christian University, EUA. Docente e conteudista na pós-graduação, também foi diretora de Esportes e Coordenadora do Curso de Graduação em Educação Física da Universidade Anhembi Morumbi, tendo também implantado o MBA em Gestão e Marketing de Entidades Esportivas, em parceria com o clube espanhol Real Madrid. Foi como observadora aos Jogos Olímpicos de Londres, Rio, NFL, NBA, Roland Garros, US Open, dentre outros. Foi a primeira brasileira a dar aulas na Escuela de Estudios Universitarios Real Madrid, na Espanha.



