A negociação pela venda da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do América-MG chegou ao fim na noite de terça-feira (10/2), com o encerramento das tratativas entre o clube mineiro e o GPA Capital, fundo de investimento que havia iniciado as conversas em novembro de 2025. A decisão foi comunicada via e-mail assinado por Elias Weber, fundador do grupo, gerando versões diferentes sobre quem realmente encerrou as negociações.
O desfecho marca o fim de meses de discussões sobre uma proposta avaliada em quase R$ 1 bilhão, que previa não apenas a compra de ações, mas também a reestruturação completa da gestão do clube, incluindo investimentos em infraestrutura e exploração de patrimônio imobiliário.
A informação sobre o fim do negócio entre América e GPA Capital foi dada inicialmente pela Itatiaia. A No Ataque e O Tempo Sports avançaram na apuração.
A versão do GPA Capital: indefinição e falta de disposição
No e-mail enviado às 20h53 de terça-feira, Elias Weber argumentou que o fundo realizou “inúmeras reuniões, debates e concessões” para atender aos pleitos do América. Porém, segundo o representante do GPA Capital, o clube “seguiu enfrentando dificuldade em avançar para uma decisão definitiva”, com a “reapresentação recorrente de pedidos de alterações sobre pontos que já haviam sido amplamente discutidos e alinhados”.
Weber concluiu que esse “movimento contínuo de revisões e indefinições, sem horizonte claro de conclusão”, levou o fundo à convicção de que não havia “disposição necessária para a efetiva conclusão do negócio”. O representante do GPA Capital, em conversa posterior, foi ainda mais direto: “Foram três reuniões presenciais, fora as online. Entendemos que alguns conselheiros não estão com vontade de fazer o negócio acontecer. E o que mais me chateou foi que recebi essa informação pela imprensa, não fui nem comunicado pelo América”.
A reportagem do No Ataque, inclusive, divulga um trecho do email enviado por Elias Weber.
A versão do América: proposta não resguardava premissas básicas
O vice-presidente do Conselho Consultivo, Paulo Lasmar, contestou a narrativa do GPA Capital. Segundo ele, “a narrativa contida no e-mail não espelha com precisão a realidade das negociações”. Lasmar afirmou que o Conselho Consultivo deliberou, em reunião na segunda-feira (9/2), que o Memorando de Entendimentos (MOU) “não resguardava as premissas básicas da participação do América no negócio”.
O dirigente destacou que havia “situações comerciais que, no entendimento do Conselho, deveriam ser melhor avaliadas antes de qualquer assinatura”. Lasmar também afirmou que “o América procurou os investidores para consultá-los a respeito das deliberações do Conselho Consultivo, mas não obteve retorno”. Na visão do clube, a retirada da proposta partiu do GPA Capital, não do América.
Divisão interna no Conselho Deliberativo
Um conselheiro do América, que preferiu não se identificar, revelou que a proposta foi discutida durante seis meses por um Grupo de Trabalho composto por quatro membros do Conselho Deliberativo. Na votação, o resultado foi dois votos favoráveis e dois contrários, evidenciando uma divisão clara entre os conselheiros.
O conselheiro favorável à venda destacou que a proposta ia além de uma simples transação de ações: “O América SAF teria uma nova diretoria profissional com executivos recrutados no mercado e um conselho de administração de cinco membros (dois indicados pelo clube). Não é somente um negócio de venda da SAF, mas uma estruturação muito mais ampla que visava, além do resultado no futebol, à exploração do patrimônio imobiliário”.
Alguns detalhes da proposta bilionária
A reportagem da No Ataque menciona ter tido acesso a detalhes da proposta feita pelo GPA Capital que estava disposto a adquirir 80% das ações da SAF do América, mantendo 20% com a associação (em contraste com a divisão atual de 90% para SAF e 10% para o clube associativo). O investimento total era de aproximadamente R$ 1 bilhão, estruturado da seguinte forma:
Quitação de dívidas:
R$ 187 milhõesseriam destinados imediatamente ao pagamento das dívidas da associação e da SAF — valor próximo ao passivo não circulante deR$ 186,6 milhõesregistrado em maio de 2025.
Investimento em futebol:
R$ 800 milhõesseriam diluídos em 10 anos, com correção pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPCA), destinados ao desenvolvimento do futebol.
Transferência de ativos:
- O Centro de Treinamento Lanna Drumond seria transferido como ativo para a SAF, com promessas de melhorias nos campos, implementação de alojamentos e outros aprimoramentos.
- O Estádio Independência permaneceria com o clube associativo, mas seria objeto de uma Sociedade em Conta de Participação (SPC) para exploração comercial, com obras de estacionamento vertical e gramado sintético, visando transformá-lo em palco para shows e eventos culturais. Os custos seriam arcados pelo fundo, e o América receberia 50% do lucro.
Exploração imobiliária em Santa Luzia:
- Uma Sociedade de Propósito Específico (SPE) seria criada para exploração comercial de um terreno do América localizado em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O projeto envolveria incorporação imobiliária (casas, apartamentos e lotes). O GPA Capital arcaria com os custos de construção, e o América (associação) receberia 20% das receitas das vendas (VGV).
Pontos de discordância que travaram o acordo
Além da questão da exclusividade e das revisões contínuas, havia divergências sobre:
- A origem dos recursos financeiros — alguns conselheiros exigiam maior transparência sobre de onde viria o capital.
- A redação do MoU — o Conselho considerava o documento frágil em termos de garantias para o clube.
- A falta de clareza sobre investimentos no futebol — havia preocupação com a efetiva alocação de recursos no departamento de futebol.
O que vem agora
O América segue como SAF desde 2022, mas sem um acionista majoritário à frente da operação. Com a retirada do GPA Capital, o clube precisará buscar novos interessados. Existe uma previsão de que o ex-presidente Marcus Salum, principal responsável pela busca de investidores, vai se pronunciar oficialmente sobre o tema em coletiva de imprensa nesta quinta-feira (12/2), no CT Lanna Drumond.
Fonte: Itatiaia; No Ataque; O Tempo.



