A derrota para o Mirassol e a declaração de Luciano expõem uma crise que o dinheiro, sozinho, não resolve.
Quem olhou apenas para o placar de 3 a 0 viu uma zebra. Quem analisa gestão, viu a confirmação de uma tendência que venho alertando há tempos.
O Mirassol não goleou o São Paulo por acaso. Estamos falando de um clube que terminou o último Brasileirão à frente do próprio Tricolor. O que vimos em campo foi o choque frontal entre um projeto de eficiência e uma instituição presa ao passado.
Mas o que me preocupa, sob a ótica de negócios, não foi o desempenho tático. Foi o desastre corporativo que aconteceu na zona mista.
O “Sincericídio” como Falha de Liderança
Ao sair de campo derrotado na segunda rodada do ano, Luciano — a referência técnica e o maior salário do elenco — disparou: “Esse ano vai ser mais difícil que 2025”.
No mundo corporativo, isso tem nome: sabotagem institucional.
Imagine o Diretor Comercial de uma empresa listada na Bolsa dizendo aos acionistas em janeiro: “Olha, o ano vai ser péssimo”. O efeito disso no “chão de fábrica” (o vestiário) é devastador. Essa fala denota falta de Media Training, imaturidade e, acima de tudo, uma cultura organizacional doente, onde o indivíduo se sente maior que a marca.
Se eu estivesse na cadeira de Diretor do São Paulo, hoje mesmo chamaria Luciano para uma conversa definitiva. Um líder com mentalidade derrotista é capaz de contaminar todo o elenco. Vemos inúmeros casos na Europa de estrelas que não dão certo e voltam. Voltam porque “desaprenderam” a jogar? Negativo. Voltam porque não servem aos propósitos da marca. E, neste caso, a marca Tricolor é uma instituição secular; a “marca” Luciano é passageira.
O “Paradoxo Casares”: Vilão ou Gestor de Crise?
Aqui entra a análise impopular, mas necessária. É fácil culpar a gestão atual pelo naufrágio, mas precisamos ser honestos com a cronologia: Julio Casares não criou o iceberg; ele está apenas tentando manobrar o navio com um leme quebrado há 15 anos.
O São Paulo perdeu seu protagonismo muito antes desta gestão. O clube vive o rescaldo de administrações desastrosas (a “era soberana” cobrou seu preço) que corroeram o caixa e a credibilidade.
Pior é ver torcedor achando injusto que, no novo Mundial de Clubes, times como Botafogo, Fluminense, Flamengo e Palmeiras joguem e o São Paulo não. Afinal, onde ficou o tal “tradicionalismo”?
Pois é, amigo. Se for pensar assim, saiba de uma coisa: existem times na Itália com prateleiras cheias de taças jogando a Série B e C. O futebol moderno não perdoa erro e não vive de passado. Apenas um adendo: os rivais conquistaram a América nos últimos 6 anos, enquanto o São Paulo dormiu no berço da “soberania”.
A verdade dura? O fato de o São Paulo — com a dívida que tem e a política interna canibal que possui — não ter caído (ao contrário de gigantes como Santos, Cruzeiro, Palmeiras, Corinthians, Vasco, Internacional, Botafogo e Grêmio) é, ironicamente, um mérito de uma “gestão de sobrevivência”. O trabalho hoje é de contenção de danos.
A Ilusão da SAF
Muitos torcedores acreditam que a transformação em SAF seria a pílula mágica. “Vende que resolve”.
Eu discordo frontalmente.
O problema do São Paulo hoje é muito maior que o financeiro; é cultural. A SAF traz capital e processos, mas ela não corrige caráter institucional do dia para a noite.
Se o São Paulo virasse uma empresa hoje, mantendo líderes que “jogam a toalha” na segunda rodada e uma estrutura viciada, seria apenas uma empresa rica fadada à falência. O investidor sério (Smart Money) não olha apenas para a camisa; ele olha para o Capital Humano. E declarações como a de ontem afugentam qualquer cheque de nove dígitos.
O Mirassol venceu porque tem processo, tem comando e tem silêncio para trabalhar. O São Paulo perdeu porque ainda acredita que a tradição entra em campo.
Para 2026, o Tricolor precisa decidir o que quer ser: um museu de grandes glórias ou uma organização competitiva. E essa mudança não começa no caixa, começa na mentalidade.
E completo com um alerta: se hoje está ruim, cuidado. A Portuguesa vem com um projeto de SAF sólido e organizado. No futebol, tudo que é ruim pode piorar, e quem não se profissionaliza, é ultrapassado pelo vizinho.
Felipe Araujo
Executivo com especialização em Gestão de Clubes de Futebol e MBA em Gestão Financeira. Felipe Moreira une a experiência de liderança em multinacionais à análise técnica do ecossistema das SAFs. É o criador da newsletter ‘Sala do Diretor’, referência em inteligência de mercado e gestão esportiva com mais de 3.500 assinantes qualificados. Tenho mais de 100 publicações, gosto de olhar o mercado e sempre escrevo com olhar administrativo sobre a realidade.
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