A CBF apresentou seu novo Sistema de Sustentabilidade Financeira (SSF), conhecido como fair play financeiro. Pela primeira vez no país, existe um modelo estruturado de regulação financeira que pode mudar fundamentalmente a forma como os clubes se comportam. Se estivesse vigente em 2024, seria caótico: 13 dos 20 clubes da Série A teriam sido reprovados e estariam sujeitos a punições. Apenas sete passariam: Flamengo, Palmeiras, Athletico-PR, Atlético-GO, Criciúma, Cuiabá e Juventude.
Esse diagnóstico preocupante reflete a realidade do futebol brasileiro. A maioria dos clubes vive em desequilíbrio financeiro crônico, gastando mais do que ganha e contraindo dívidas impagáveis. Os aprovados compartilham característica comum: receitas sob controle e custos proporcionais. Não é questão de tamanho — Flamengo e Palmeiras ultrapassaram R$ 1 bilhão em arrecadação, sim, mas times menores também passaram porque simplesmente mantêm gastos alinhados à realidade. O problema é falta de moderação.
Como funciona a regulação
O SSF funciona sobre quatro pilares bem definidos. Cada um ataca um problema específico do futebol brasileiro.
Dívidas em Atraso proíbe que clubes devam valores a outras agremiações, atletas e governo. Essencialmente, fim dos calotes. Quem está devendo não pode registrar novo jogador. É simples e direto, embora o desafio seja a falta de registro público consolidado de todas as dívidas. Governos estaduais mantêm seus dados, clubes credores guardam informações separadas. Falta transparência centralizada, mas a intenção é clara.
Equilíbrio Operacional exige que receitas superem despesas. Se houver prejuízo, o proprietário pode fazer aporte de capital; se não fizer, o clube entra em monitoramento e fica limitado a déficit máximo de R$ 30 milhões ou 2,5% das receitas por três temporadas. Isso muda tudo. Proprietários deixam de ter a opção confortável de simplesmente deixar a dívida crescer. Precisam escolher: lucram com o clube ou financiam prejuízos pessoalmente.
Custo do Elenco estabelece que gastos com salários, encargos sociais, direitos de imagem, amortizações e comissões a agentes não podem ultrapassar 70% das receitas na Série A. Isso é revolucionário para o futebol brasileiro. Muitos clubes gastam 80%, 90% ou acima de 100% atualmente — insustentável. Quando a receita cai, não conseguem cortar gastos rápido o suficiente. O limite força planejamento. Se você arrecada R$ 100 milhões, pode gastar apenas R$ 70 milhões com elenco. Os R$ 30 milhões restantes cobrem infraestrutura, funcionários, manutenção, categorias de base e projetos sociais.
Dívidas de Curto Prazo controla o que vence nos próximos 12 meses. Dívidas financeiras, fiscais, trabalhistas — tudo que precisa ser pago logo — não pode ultrapassar 45% das receitas operacionais. Esta é a regra mais sofisticada, reconhecendo que nem toda dívida é igual. Uma dívida que vence em cinco anos é fundamentalmente diferente de uma que vence em três meses. O SSF se concentra no curto prazo, que é o mais perigoso. Força disciplina em clubes que contraem empréstimos para cobrir furos de caixa.
O verdadeiro desafio
Há um problema fundamental: demonstrações contábeis brasileiras não são padronizadas nem detalhadas como deveriam. Custos com categorias de base, futebol feminino, esportes olímpicos e projetos sociais estão “isentos” nos cálculos do SSF — o que faz sentido, pois essas áreas não geram receita direta. Mas a maioria dos clubes não abre esses gastos. Não há transparência.
Red Bull Bragantino provavelmente passaria no crivo — é clube bem administrado. Mas não publica balanço integral. Sem notas explicativas, não há como avaliá-lo completamente. A primeira versão do fair play financeiro será imprecisa. Haverá questionamentos, ambiguidades, clubes discordando de avaliações. Mas isso é normal — sistemas regulatórios sempre começam com imperfeições.
Um sistema de fair play só funciona com consequências reais. A CBF estruturou um modelo escalonado: primeira violação leva a monitoramento; segunda, a advertência pública; terceira e adiante, multa, retenção de receitas, transfer ban, perda de pontos, rebaixamento e até cassação de licença. O escalonamento é inteligente — oferece chance de correção sem ser permissivo.
O verdadeiro desafio, porém, está na aplicação. Dirigentes brasileiros historicamente transgridem regras. Há cultura consolidada de encontrar brechas legais. Governadores têm interesse em que “seus” times ganhem. Judicializar punições é prática comum. Grandes clubes têm influência política. Se a CBF não punir consistentemente desde o início, o sistema vira letra morta.
Nenhum sistema no mundo é perfeito. A UEFA tem financial fair play desde 2011 com evolução constante. A Premier League tem regras próprias. LaLiga tem limites de folha. MLS tem salary cap. Todos geram polêmica e têm deficiências. O modelo da CBF representa progresso genuíno, mesmo que imperfeito.
Impacto nos próximos anos
Nos próximos anos, o impacto será gradual. No curto prazo (2025-2026), clubes receberão comunicados sobre violações. Alguns entrarão em monitoramento. Haverá questionamentos legais e administrativos. Espera-se redução de contratações financeiramente arriscadas e alguns times terão que vender atletas ou reduzir salários. Proprietários com problemas financeiros pessoais serão forçados a injetar capital ou aceitar prejuízos limitados.
No médio prazo (2027-2028), se a CBF aplicar punições com consistência, o comportamento mudará. Haverá consolidação: pequenos clubes falirão, outros serão comprados, grandes se reorganizarão. O cenário será inicialmente mais caótico, mas depois mais sustentável. Menos investimento superficial em elenco. Mais foco em gestão eficiente.
No longo prazo (2029+), se o sistema se enraizar, o futebol brasileiro finalmente terá base financeira sólida. Times poderão competir melhor internacionalmente com estrutura previsível. Investidores estrangeiros se interessarão mais, vendo certeza regulatória. A permissão de “cobrir prejuízo com aporte do proprietário” por até três anos é crucial — reconhece que projetos desportivos legítimos podem gerar prejuízo no curto prazo, mas força que seja financiado pessoalmente, não através de acúmulo de dívida. A isenção de categorias de base reconhece que essas áreas não geram receita, mas são importantes socialmente e para futuro do clube.
O fair play financeiro da CBF não é perfeito. Tem imprecisões, brechas e sua aplicação será desafiadora. Mas é necessário. O futebol brasileiro vive uma crise financeira crônica — clubes acumulam dívidas, violam direitos trabalhistas, entram em falência. Torcedores sofrem com falta de investimento e competência. O SSF oferece alternativa: regras claras, consequências reais, incentivos para boa administração. Se a CBF tiver a coragem de aplicar, os próximos anos serão desconfortáveis para muitos clubes. Haverá crises, vendas de atletas, redução de folha. Mas depois virá a estabilidade. Se não aplicar, o sistema vira um teatro e o futebol brasileiro continua caótico e insustentável. A bola está com a confederação agora.
Fonte: Material da CBF.
Danilo Superbi da Silva
Sócio-diretor da DASS Consultoria e da ElevateLaw Marketing Jurídico, Mestre em Negócios Internacionais pela MUST University, MBA em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria pela Fundação Getúlio Vargas, Administrador pela Universidade Federal de Viçosa e especialista em gestão empresarial.



