Como muitos clubes portugueses, o Benfica construiu uma relação histórica com o futebol brasileiro, recorrendo com frequência a jogadores do país para reforçar seu elenco. Nos últimos anos, porém, essa presença vem diminuindo. No atual grupo comandado por Marco Silva, há apenas um brasileiro: o zagueiro Gabriel Índio, que ganhou destaque pelo Athletic na Série B do Campeonato Brasileiro e foi contratado pelo clube. A redução também marcou a temporada anterior, quando o Benfica voltou a disputar uma campanha sem brasileiros em seu elenco pela primeira vez em 43 anos — um marco para um clube que, por décadas, tratou o mercado brasileiro como uma de suas principais fontes de reforço.
A mudança não é pontual, e sim o resultado de uma transformação na estratégia de contratações. O caso mais visível está na saída de nomes que eram presença constante no ataque: Everton Cebolinha e Arthur Cabral deixaram o Benfica para atuar no futebol brasileiro, em negociações que envolveram valores elevados. Ou seja, o clube não apenas deixou de contratar no Brasil como também passou a vender jogadores brasileiros de volta ao país em operações de grande porte — movimento que reforça a leitura de que o perfil das contratações mudou de forma estrutural.
O que explica a mudança de perfil
Um dos fatores centrais é a concorrência internacional. A disputa por jovens promessas se intensificou com a pressão de grandes clubes europeus, principalmente da Premier League e de LaLiga, acompanhada pela valorização dos atletas e pelo aumento dos investimentos necessários para contratá-los. Na prática, o Benfica passou a enfrentar competição mais dura e preços mais altos justamente no segmento em que costumava se destacar: a contratação de jogadores jovens, ainda em formação, a custos acessíveis e com potencial de valorização. Quando esse mercado encarece, o clube precisa redirecionar o dinheiro — e é aí que entram as outras duas frentes da nova estratégia.
A segunda frente é o fortalecimento das categorias de base do próprio Benfica. O clube ampliou os investimentos e passou a dar ainda mais espaço aos talentos formados em suas instalações. O trabalho ajudou a revelar nomes como João Neves, Rúben Dias, João Félix e Bernardo Silva, que ganharam projeção no futebol europeu após passarem pela estrutura de formação das Águias. O raciocínio é direto: um jogador revelado em casa chega ao time principal sem custo de compra e, se vendido depois, gera receita integral — enquanto um contratado no exterior exige desembolso inicial e disputa com concorrentes dispostos a pagar mais.
Diversificação geográfica: o novo mapa do elenco
A terceira frente é a diversificação geográfica das contratações, que faz parte da mesma estratégia. Atualmente, o elenco benfiquista reúne jogadores de diferentes nacionalidades, com presença de atletas da Escandinávia e do Leste Europeu. Schjelderup, Aursnes, Sudakov e Kaminski são exemplos dessa busca por talentos em diferentes mercados. O movimento sinaliza que o clube deixou de concentrar suas apostas em um único país e passou a espalhar a prospecção por regiões onde a relação entre custo e potencial de valorização se mostra mais favorável.
Na prática, os três fatores se combinam em uma mesma lógica de mercado. O Benfica segue apostando em jogadores jovens e baratos com potencial de revenda — só que, com o encarecimento das promessas brasileiras e a concorrência, passou a buscar esse perfil em outros lugares e a produzi-lo internamente. O resultado é um elenco com apenas um brasileiro hoje e com um histórico recente que já registrou uma temporada inteira sem nenhum jogador do país, algo que não acontecia havia mais de quatro décadas.
Fonte: CNN Brasil.



