Quem passou pelas categorias de base certamente se lembra daquele companheiro que parecia destinado a ser craque. Era mais habilidoso, decidia jogos e chamava atenção desde muito jovem. Mesmo assim, muitos desses jogadores nunca chegaram ao futebol profissional.
Eu tive amigos assim. Alguns eram tecnicamente melhores do que jogadores que construíram carreiras longas. Isso me ensinou cedo que talento abre portas, mas não garante permanência.
Uma carreira exige treinamento, cobrança, concorrência, disciplina e, principalmente, capacidade de suportar frustrações.
Hoje, depois de 15 anos como jogador profissional e agora à frente de um clube, enxergo o mesmo problema por outro ângulo: muitas vezes tratamos uma promessa como craque antes que ela tenha construído uma carreira.
Empresários disputam atletas cada vez mais jovens. Clubes, com medo de perder talentos, aumentam salários e benefícios. Famílias começam a projetar independência financeira sobre um adolescente que ainda está em formação.
Antecipamos dinheiro, reconhecimento e protagonismo.
O problema não é o dinheiro. É entregar a recompensa antes do trabalho estar realizado.
Resiliência também se treina
A formação precisa incluir aquilo que chamo de microfrustrações.
Ficar no banco depois de uma semana ruim. Treinar com jogadores mais velhos e perder disputas. Esperar uma oportunidade. Precisar reconquistar a posição.
Não se trata de humilhar ou castigar. Trata-se de não retirar do caminho todas as dificuldades.
O profissional apresentará frustrações muito maiores: lesões, banco, mudanças de treinador, contratos não renovados e temporadas ruins.
Quem aprende a lidar com pequenos “nãos” na base chega mais preparado para enfrentar os grandes.
Resiliência também se treina.
O primeiro contrato não significa que o jogador venceu
O mesmo princípio deveria valer para a remuneração.
Defendo que o futebol brasileiro discuta um modelo de remuneração progressiva, especialmente nos primeiros contratos profissionais.
Não se trata simplesmente de estabelecer um salário baixo ou um teto único.
Como ponto inicial do debate, poderíamos discutir uma primeira faixa próxima de R$ 3 mil mensais, respeitando legislação e acordos coletivos, e construir uma escada de valorização.
Treinou no profissional? Evolui. Começou a jogar? Evolui. Acumulou minutos? Evolui. Virou titular e importante para a equipe? Evolui novamente.
Jogadores excepcionais naturalmente poderiam avançar mais rapidamente nessa escala.
A lógica é simples: quanto maior a entrega profissional, maior a recompensa.
O primeiro contrato precisa dizer ao jogador que sua carreira começou — não que ele já venceu.
Quando o salário impede o jogador de jogar
Existe ainda uma consequência que vejo hoje como dirigente.
Um jovem pode chegar aos 20 anos recebendo R$ 30 mil, R$ 40 mil ou R$ 50 mil sem ter se consolidado no profissional. Quando precisa ser emprestado para ganhar experiência, poucos clubes conseguem assumir esse salário.
No Monsoon, encontramos exatamente essa situação: um jogador de 20 anos, pertencente a um grande clube, precisa de minutagem e recebe aproximadamente R$ 50 mil mensais.
O clube de origem quer que assumamos integralmente o salário.
Para nós — e para grande parte dos clubes de Série C, Série D e estaduais — é inviável.
Resultado: o jogador não vem, continua sem minutos, o clube de origem continua pagando e nós ficamos sem um atleta que poderia nos ajudar.
Todos perdem. Principalmente o jogador.
Hoje o futebol é extremamente analítico. Clubes observam minutos, jogos como titular, desempenho, números e métricas físicas e técnicas.
Um jogador de 20 anos sem minutagem praticamente desaparece desse mercado.
A tentativa de proteger um ativo pode acabar criando um passivo.
Formar mais, jogar mais, vender mais
Essa discussão também é econômica.
Imagine dois modelos.
Um clube revela e vende um craque por €50 milhões por ano. Para chegar a €150 milhões, precisa repetir esse enorme acerto durante três temporadas.
Outro clube desenvolve e negocia dez jogadores por €15 milhões cada um. Chega aos mesmos €150 milhões em um ano.
É um exemplo hipotético, mas demonstra uma diferença importante de estratégia.
O segundo modelo depende menos de encontrar um fenômeno e mais de construir um processo: captar, formar, desenvolver, dar minutos, emprestar e vender.
E quanto mais jogadores chegam ao profissional preparados e com minutagem, maior também é a possibilidade de surgir entre eles aquele atleta excepcional de €50 milhões.
O jovem brasileiro precisa jogar
Esse debate não termina nos clubes.
O Brasil precisa continuar formando jogadores de alto nível. E formação não acontece apenas no treinamento.
Jogador se forma jogando.
Se o jovem não encontra espaço no clube principal, o empréstimo deveria ser uma alternativa. Mas quando um salário antecipadamente elevado inviabiliza também o empréstimo, ele fica sem minutos dentro e fora do clube.
Por isso, precisamos discutir um sistema mais racional.
A legislação já diferencia o atleta em formação do profissional. Um modelo nacional precisaria respeitar essas diferenças e ser construído com clubes, CBF, sindicatos, especialistas jurídicos, atletas, famílias e empresários.
O objetivo não é impedir que um jovem ganhe dinheiro nem que sua família melhore de vida.
É fazer com que a remuneração acompanhe a evolução esportiva, em vez de antecipá-la.
Potencial merece estrutura.
Talento merece oportunidade.
Desempenho profissional merece valorização.
E quanto maior a entrega, maior deve ser a recompensa.
Talvez nosso erro esteja justamente em tentar entregar ao garoto, aos 16 anos, a recompensa de uma história que ele ainda precisa escrever.
Vitor Hugo Manique de Jesus
Presidente, proprietário e CEO do Monsoon FC.
Empresário, ex-jogador profissional, com cerca de 15 anos de carreira como atleta e experiência em diferentes mercados internacionais, construiu posteriormente sua trajetória na gestão e nos negócios do futebol. Fundador da plataforma YouPro, atua no desenvolvimento de um clube-empresa, formação e valorização de atletas, infraestrutura esportiva, geração de receitas, investimentos e novos modelos de gestão para o futebol brasileiro.
Na Sou SAF, compartilha uma visão prática sobre os desafios de administrar um clube no Brasil, formação e negociação de atletas, sustentabilidade financeira, captação de investimentos, profissionalização da gestão e transformação do futebol em um negócio capaz de gerar valor esportivo, econômico e social.



