O Conselho Deliberativo do Flamengo aprovou, na noite desta terça-feira (15), a reforma estatutária que institucionaliza um modelo de gestão profissional no clube. O texto recebeu 92,39% dos votos — foram 643 favoráveis, 47 contrários (6,75%) e seis abstenções (0,86%), em um total de 696 conselheiros participantes. A proposta foi elaborada pela Comissão Permanente de Estatuto a partir do projeto batizado “Profissionalismo”, apresentado originalmente pelo presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap.
A votação teve como base um texto substitutivo, construído a partir das sugestões apresentadas pelos associados. Ao todo, 15 blocos de emendas, com 98 propostas, foram analisados — e cerca de 75% das sugestões foram incorporadas, total ou parcialmente, à versão final. O tema, porém, gerava divisão entre os conselheiros antes da votação: entre os apoiadores, havia a avaliação de que o estatuto, de 1992, estava defasado em alguns pontos e precisava de mudanças; já os contrários sustentavam que o texto, se aprovado, daria ainda mais poder a Bap e menos transparência aos conselheiros.
Como funcionará o novo modelo
A reforma estabelece uma divisão mais definida entre as funções de governança, supervisão e execução dentro do clube. A administração cotidiana fica sob responsabilidade de uma Diretoria Profissional, formada por executivos remunerados e escolhidos com base em critérios técnicos. A estrutura terá duas principais lideranças: o Diretor-Geral, responsável pela gestão corporativa, e o Diretor de Futebol, que ficará à frente do futebol profissional e das categorias de base.
A reforma também cria o Conselho Gestor (COGE), encarregado de acompanhar e supervisionar a atuação da diretoria. Ele será composto pelo presidente e pelo vice-presidente do Flamengo, por um Procurador-Geral e por entre nove e 12 membros de livre nomeação de Bap, para um mandato de três anos. O dirigente terá a prerrogativa de nomear e destituir os membros desse conselho, que precisarão lhe reportar autorização e mudanças. Entre as atribuições do grupo estão avaliar estratégias, metas, indicadores, riscos, estrutura organizacional e gestão de pessoas. Na prática, o novo modelo separa quem faz a governança de quem toca a operação diária do clube.
Além disso, as vice-presidências específicas serão extintas. A emenda incluiu no texto final sugestões de conselheiros, mas cita em vários itens a necessidade de veto ou aprovação do presidente, sobretudo nos temas relacionados ao departamento de futebol.
Governança, planejamento e a manutenção do modelo associativo
Entre as mudanças aprovadas estão a criação de Políticas de Governança e de novos instrumentos de planejamento. O orçamento anual passará a ser elaborado em conjunto com um plano estratégico de três anos, uma visão de cinco anos e indicadores para acompanhar o desempenho institucional do clube. O texto também estabelece novas regras sobre nepotismo e sobre a entrada, na estrutura profissional, de associados que já tenham ocupado cargos eletivos no clube — com restrições e períodos de quarentena antes de poderem ingressar na Diretoria Profissional.
A reforma não prevê a transformação do Flamengo em Sociedade Anônima do Futebol (SAF): o clube continuará sendo uma associação civil pertencente aos seus associados. O Conselho Deliberativo seguirá como instância máxima para as deliberações estruturantes previstas no estatuto e passará a ter novas atribuições, como a aprovação das Políticas de Governança. O Conselho de Administração manterá suas funções e passará a participar da revisão prévia dessas políticas, enquanto o Conselho Fiscal continuará responsável pela fiscalização econômico-financeira.
Com a aprovação, o novo texto passa a fazer parte do Estatuto do Flamengo — a mudança entra em vigor após um processo de quase dois anos de discussão interna e consolida um modelo de gestão que o clube vinha praticando, mas que até então não tinha respaldo formal nas regras da instituição.



