Durante os primeiros anos da SAF (Sociedade Anônima do Futebol), era comum encontrar discursos que tratavam o novo modelo como a solução definitiva para os problemas dos clubes brasileiros. Bastaria atrair investidores, reorganizar a estrutura jurídica e os resultados apareceriam naturalmente. Com o passar do tempo, porém, a prática mostrou que o futebol continua sendo muito mais complexo do que isso.
Os casos de Paraná Clube, Juventus da Mooca e Portuguesa, todos envolvidos em projetos de SAF, ilustram bem essa realidade. Embora tenham seguido caminhos semelhantes na busca por uma gestão mais profissional, os resultados esportivos em 2026 foram bastante diferentes.
O Paraná Clube conseguiu uma resposta rápida. Depois de um período marcado por dificuldades financeiras e pelo rebaixamento no Campeonato Paranaense, o clube encontrou na SAF uma oportunidade para reorganizar suas contas, estruturar melhor o departamento de futebol e recuperar a competitividade. O retorno à elite estadual foi o primeiro grande resultado de um processo que ainda está em construção, mas que já demonstra sinais positivos.
O Juventus da Mooca também escreveu um capítulo especial em sua história. Após 19 anos longe da elite do futebol paulista, o tradicional Moleque Travesso voltou à primeira divisão. Mais do que um acesso, a conquista simboliza a recuperação de um clube centenário que enfrentou anos de limitações financeiras e pouca capacidade de investimento. O sucesso esportivo reforçou a confiança da torcida e mostrou que projetos consistentes podem devolver protagonismo a equipes tradicionais.
Se Paraná e Juventus comemoram, a Portuguesa oferece um contraponto importante.
A Lusa também adotou o modelo SAF cercada de expectativa. Afinal, trata-se de um dos clubes mais tradicionais do futebol paulista, dono de uma rica história e de uma torcida apaixonada. A esperança era de que a profissionalização da gestão criasse as condições necessárias para recolocar o clube nas principais divisões do futebol nacional.
Entretanto, a realidade ainda é diferente. A Portuguesa segue disputando a Série D do Campeonato Brasileiro e não conseguiu transformar a mudança de modelo administrativo em crescimento esportivo. Isso não significa que o projeto esteja condenado ao fracasso, mas evidencia que a SAF, isoladamente, não resolve problemas acumulados durante décadas.
Talvez essa seja a principal lição que esses três clubes oferecem ao futebol brasileiro.
SAF não resolve jogo
A SAF não entra em campo. Quem entra são jogadores, treinadores e dirigentes responsáveis por transformar recursos em resultados. O novo modelo pode facilitar investimentos, ampliar a transparência, profissionalizar a administração e melhorar a governança. No entanto, nenhuma dessas vantagens substitui planejamento, boas decisões e continuidade.
Outro ponto que merece atenção é o tempo. Muitos torcedores passaram a enxergar a SAF como um mecanismo de transformação imediata, quando, na verdade, a reconstrução de um clube costuma exigir anos de trabalho. Mesmo os acessos conquistados por Paraná Clube e Juventus não representam o fim do processo. Permanecer competitivos, consolidar a saúde financeira e crescer de forma sustentável serão desafios ainda maiores.
Ao mesmo tempo, o caso da Portuguesa mostra que investidores, por si só, não garantem sucesso. É preciso definir uma estratégia clara para o futebol, formar equipes competitivas, investir de maneira inteligente e criar uma cultura de gestão que sobreviva aos resultados de curto prazo.
O futebol brasileiro começa a acumular exemplos suficientes para mudar o foco da discussão. A pergunta deixou de ser se a SAF funciona ou não. Os casos mostram que ela pode funcionar. A questão agora é como ela é implementada.
Paraná Clube e Juventus demonstram que uma SAF bem estruturada pode acelerar a recuperação de clubes históricos. A Portuguesa lembra que a simples mudança de modelo jurídico não altera automaticamente a realidade esportiva.
No fim das contas, o sucesso continua dependendo daquilo que sempre diferenciou os clubes vencedores: gestão competente, planejamento de longo prazo, responsabilidade financeira e decisões tomadas com visão estratégica. A SAF pode ser um excelente instrumento para alcançar esses objetivos, mas nunca será um atalho capaz de substituir uma administração eficiente.
Fagner Ramos
Jornalista com experiência em rádio, jornal e revista e assessoria de imprensa. Ao longo da carreira, atuou na Rádio Central de Campinas, Rádio Brasil, afiliada à Jovem Pan e na CBN Campinas, desenvolvendo trabalhos na produção de conteúdo, apuração, redação e cobertura jornalística. Também possui atuação como produtor de programas esportivos, além de comunicação e gestão de conteúdo digital, unindo prática de redação jornalística com estratégia de posicionamento e relacionamento com a imprensa.



