O futebol global enfrenta uma de suas maiores crises de governança. A UEFA, apoiada por suas 55 federações membros, e a Concacaf, representante de 41 associações das Américas do Norte, Central e Caribe, posicionaram-se formalmente contra a proposta do presidente da FIFA de abrir o capital da Copa do Mundo e de outros torneios a investidores privados.
A origem do conflito está no plano apresentado pela presidência da FIFA para criar a FIFA Forward Enterprise. O projeto previa a captação de recursos via fundos de private equity por meio da venda de participações nos direitos da Copa do Mundo. Segundo as confederações, o plano foi elaborado em segredo, sem o conhecimento prévio dos órgãos de governança ou das federações continentais.
Em declaração conjunta publicada em 30 de julho, a UEFA anunciou a decisão extrema de boicotar todas as competições organizadas pela FIFA enquanto o projeto estiver em pauta.
“O Campeonato do Mundo não pode ser tratado como um produto de investimento. É um dos maiores legados desportivos do futebol […] Nenhuma parte dele deve, jamais, ser entregue a investidores privados. O Campeonato do Mundo não está à venda.”
Declaração Oficial da UEFA – A entidade europeia aponta os seguintes riscos e condições:
- Subordinação do esporte ao lucro: A presença de acionistas privados exigiria retorno financeiro permanente, condicionando calendários, formatos e decisões estratégicas aos interesses do mercado.
- Critério para retorno: As 55 seleções europeias só voltarão aos torneios da FIFA se o projeto for descartado de forma definitiva e com garantias jurídicas de que a governança do futebol jamais será entregue ao setor privado.
A Concacaf também manifestou forte oposição após reunião de emergência com seus presidentes e representantes no Conselho da FIFA. A confederação criticou a falta de transparência e o desrespeito ao devido processo legal.
As deliberações da Concacaf definiram três pontos centrais:
- Rejeição formal: Veto integral à criação da FIFA Forward Enterprise.
- Uso de reservas próprias: Questionamento sobre a necessidade de aporte externo após a realização da Copa do Mundo mais lucrativa da história, defendendo o uso dos fundos de reserva da própria FIFA para financiar o fomento do esporte.
- Respeito aos Estatutos: Exigência de que qualquer projeto de grande porte siga estritamente as instâncias de governança e os canais previstos nos estatutos da entidade.
O alinhamento entre UEFA e Concacaf expõe uma fratura profunda na administração do futebol mundial. A tentativa de comercializar fatias da Copa do Mundo reacendeu o debate sobre os limites da mercantilização do esporte e a necessidade de preservar a gestão das competições sob domínio institucional das federações e de seus torcedores.
Fontes:
- Comunicado de Imprensa Oficial da UEFA e de suas 55 federações nacionais (Publicado em 30 de julho de 2026). © 1998-2026 UEFA.
- Manifestação Oficial da CONCACAF e deliberações da Assembleia Extraordinária de Membros (Publicado em 30 de julho de 2026).
Arlindo Vicente Jr.
Administrador de Empresas e Advogado, com especialização em Direito Desportivo e em Gestão do Esporte. Membro efetivo do GEGE – Grupo de Excelência em Gestão do Esporte do CRA-SP e da Comissão de Direito Desportivo da OABSP, subseção Santos/SP.



