O presidente da Fifa, Gianni Infantino, comunicou que desistiu do projeto de vender parte da entidade para investidores externos. A grande repercussão negativa e a oposição das confederações motivaram o cancelamento do plano, que previa a criação da Fifa Forward Enterprise (FFE), uma subsidiária avaliada em cerca de US$ 20 bilhões que concentraria a exploração comercial dos principais ativos da organização, incluindo a Copa do Mundo. Pouco mais de 20% da empresa poderia ser vendido a investidores privados, numa operação com potencial para arrecadar aproximadamente US$ 4,2 bilhões, mantendo a Fifa como acionista majoritária.
Em comunicado publicado nas redes sociais, Infantino reiterou a intenção original do projeto, mas destacou que, pela repercussão, a iniciativa já não atende ao objetivo esperado. “O projeto FIFA Forward Enterprise foi concebido para criar uma base que permitisse fortalecer ainda mais as Associações-Membro da FIFA e o nosso esporte em todo o mundo, especialmente nos países onde o apoio é mais necessário. Depois de ouvir atentamente todos os pontos de vista, ficou claro que o projeto criou divisões que, independentemente do nível de apoio recebido, já não atendem ao objetivo que motivou sua criação”, afirmou. O presidente da Fifa disse ainda que sua intenção é reunir novamente todas as partes interessadas nos próximos dias e semanas “em um espírito de interesse comum pelo nosso esporte, com o objetivo de continuar promovendo o crescimento do futebol em todo o mundo”.
Pressão das confederações e isolamento político de Infantino
A reação negativa ganhou proporções maiores do que a entidade esperava. A Uefa liderou o movimento contrário, chegando a alertar que seus membros poderiam boicotar competições organizadas pela Fifa caso a iniciativa fosse mantida. Os países europeus anunciaram, na quinta-feira (30), um boicote aos torneios organizados pela entidade, com a nota afirmando que “a Copa do Mundo da Fifa pertence ao futebol. Sempre pertencerá. E enquanto a Europa tiver voz, ela nunca estará à venda”. A posição foi acompanhada pela Confederação Asiática de Futebol (AFC) e pela Concacaf, que rejeitaram a proposta. Na América do Sul, a Conmebol foi a última a se posicionar, adotando um tom menos contundente, mas demonstrando preocupação e ressaltando que decisões comerciais jamais deveriam se sobrepor à essência esportiva do futebol. A CAF (África) e a OFC (Oceania) também convocaram reuniões para avaliar a proposta.
A pressão externa foi apenas parte do problema. Nos bastidores da própria Fifa, Infantino viu crescer a insatisfação com a forma como o projeto foi conduzido. O principal sinal de ruptura veio com a saída de Carlos Cordeiro, um dos principais assessores do presidente, que renunciou ao cargo e classificou a proposta como um mau negócio, argumentando que a entidade não precisava abrir espaço para investidores privados diante de sua sólida situação financeira. Pouco depois, o diretor de operações da Fifa, Kevin Lamour, endureceu o discurso, afirmando que a venda era “o projeto de uma pessoa só” e acusando Infantino de ter “enganado” integrantes da administração durante a elaboração da iniciativa. Com críticas vindas de dentro e de fora, a Fifa perdeu sustentação política para levar adiante um dos projetos mais ambiciosos da atual gestão. A Fifa, por sua vez, culpou a imprensa pela repercussão negativa, defendendo que “ninguém está vendendo o futebol”. O recuo representa uma vitória das confederações que defendiam maior debate antes de qualquer mudança estrutural e impõe a Infantino o desafio de reconstruir pontes com os dirigentes.
Confira o comunicado de Infantino
O projeto Fifa Forward Enterprise foi concebido para servir como base para o fortalecimento contínuo das Associações Membro da Fifa e do nosso esporte em todo o mundo, especialmente nos países onde o apoio é mais necessário. E, ainda mais, como afirmamos desde o início, para fazer isso somente se a maioria das Associações Membro da Fifa estivesse de acordo e sempre sujeito a um processo de consulta com elas, com o Conselho da Fifa, as Confederações e demais partes interessadas.
Após ouvir atentamente todas as opiniões, ficou claro que o projeto gerou divisões de tal natureza que, independentemente do nível de apoio, já não estão alinhadas com o objetivo inicialmente estabelecido.
Nosso propósito sempre foi — e sempre será — unir e melhorar.
Como resultado, esta proposta não seguirá adiante. Daqui em diante, minha intenção é reunir novamente todas as partes interessadas nos próximos dias e semanas, no espírito de interesse compartilhado pelo nosso jogo, com o objetivo de continuar desenvolvendo o futebol em todos os lugares, particularmente nos países que mais necessitam do nosso apoio.



