O presidente do Vitória, Fábio Mota, enviou uma notificação extrajudicial à liga Futebol Forte União (FFU) pedindo esclarecimentos sobre os descontos nos repasses recebidos da Sports Media Entertainment (SME), principal investidora do bloco de clubes. No ano passado, a empresa pagou R$ 68,2 milhões aos baianos em troca de 15% dos valores recebidos por direitos de transmissão e publicidade. O incômodo do dirigente está no que ele classifica como “tratamento desigual”: segundo o clube, um rival direto na tabela do Campeonato Brasileiro não está sendo cobrado da mesma forma.
O Vitória integrava a Libra e, no segundo semestre do ano passado, mudou para a FFU em movimento idêntico ao realizado pelo Atlético-MG. Os dois clubes tinham compromissos com a Libra válidos até 2029, e, por isso, a mudança de bloco passará a ter efeito prático apenas em 2030. O acordo financeiro para a troca, porém, já foi firmado e os valores repassados. Agora, Mota afirma que, apesar de ambos terem feito a troca ao mesmo tempo, somente o Vitória vem sofrendo descontos. “Os contratos são iguais. São padrão, são iguais para todos. O que você muda é o que você vendeu, se 15%, se 20%, se 30%. No meu caso foi 15%, o dele também foi 15%. O contrato é padrão, então. São iguais com todos os clubes do Brasil, todos são iguais. E todos descontam. O único que não está descontando é o que foi junto comigo”, declarou ao Lance!.
Segundo o dirigente, a diferença de tratamento acarreta um desequilíbrio que vai além das finanças. “O Atlético, que fez o mesmo movimento que o Vitória, não está descontando nada, zero. O Atlético hoje é meu adversário na tabela, é um ponto de diferença. Eu estou brigando palmo a palmo com os caras. Então, eu entendo que isso desequilibra o campeonato, desequilibra a minha briga com o Atlético. Quando você tem um desequilíbrio do ponto de vista financeiro, você tem um desequilíbrio do ponto de vista técnico”, criticou. Mota também questionou as razões da distinção, mencionando as ligações dos proprietários do clube mineiro com o sistema financeiro — como Rubens Menin, principal acionista da SAF do Atlético-MG e que também comanda o Banco Inter, e Ricardo Guimarães, do Banco BMG. “Por que a FFU está fazendo isso? É porque, do lado do Atlético, você tem banqueiros, que são amigos dos caras, e, do lado do Vitória, você não tem banqueiros, porque o Vitória é menor, o Atlético é maior? Esse é o questionamento que eu estou fazendo”, afirmou.
Desde o início da temporada de 2026, os 15% devidos pelo Vitória à SME vêm sendo descontados na origem, antes de o dinheiro entrar no caixa do clube. A estimativa é que o montante retido represente aproximadamente R$ 15 milhões ao longo do ano — valor superior ao investido nas contratações de Baralhas e Erick. Em contrapartida, o Atlético-MG, que cedeu fatia idêntica e assinou contrato semelhante, continua recebendo integralmente suas receitas de televisão e publicidade, sem qualquer retenção. Procurada, a SME informou que “não comenta contratos celebrados individualmente com os clubes” e não negou a ausência de cobrança ao clube mineiro. A assessoria do Atlético-MG também optou por não se posicionar, sem negar que os descontos não estejam ocorrendo.
FBF pede intervenção do Cade
O caso ganhou novos contornos nesta segunda-feira (3), com o ingresso da Federação Bahiana de Futebol (FBF) no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). A federação pediu que o órgão impeça a FFU de manter o tratamento considerado desigual. “A matéria discutida não diz respeito apenas a direitos individuais de determinados clubes, mas ao funcionamento concorrencial de um mercado cuja estabilidade interessa a toda a coletividade esportiva. Eventuais práticas capazes de conferir vantagens econômicas seletivas entre clubes que disputam as mesmas competições possuem potencial para afetar a isonomia esportiva, a integridade das competições e a livre concorrência”, destacou a entidade. A FBF argumentou ainda que a SME é, a um só tempo, cocontratante de dezenas de clubes que disputam o mesmo campeonato e detentora de posição de governança no arranjo: “Ao definir de quem retém e de quem não retém, ela determina, de fora da disputa esportiva, quanto de receita cada concorrente terá disponível na temporada”.
No pedido, a federação solicita que o Cade assegure tratamento igualitário aos times, obrigando a SME a reter os repasses devidos pelo Atlético-MG e por quaisquer outros clubes que disputam a Série A, sob pena de multa diária de R$ 250 mil em caso de descumprimento. Requer ainda que as equipes da FFU tenham o direito de deixar a entidade caso se sintam prejudicadas pela prática apontada. Criada em 2022, a FFU é composta por clubes que romperam com a Libra por insatisfações relativas aos repasses sobre os direitos de transmissão.
Fonte: Lance; Meu Vitória; Metro1.



