O Estudiantes de La Plata derrotou o Flamengo nos pênaltis na noite desta quinta-feira (22) e avançou para a final da Copa Libertadores, na qual vai encarar o Palmeiras, que eliminou o Fluminense. A classificação esportiva, porém, carrega um significado que vai além da tabela: sob a liderança do presidente Juan Sebastián Verón, ex-jogador do clube, o “Pincha” assumiu um posicionamento solitário no cenário argentino ao defender publicamente a abertura do futebol local ao capital privado, batendo de frente com a ideologia vigente e com as diretrizes rígidas da Associação de Futebol Argentino (AFA).
O debate argentino gira em torno das SADs — a sigla usada no país para o modelo de clube-empresa, equivalente à SAF brasileira. Verón sustenta que a discussão não deveria ser travada como disputa ideológica, mas como direito de escolha de cada instituição. “O Brasil já passou por esse debate. A SAF trouxe investimento, profissionalizou a gestão e devolveu competitividade a clubes que estavam afundados em dívidas. A Argentina não precisa copiar o modelo brasileiro, mas precisa ao menos dar aos seus clubes o direito de escolher que caminho querem seguir”, afirmou.
Um impasse jurídico e o preço político de discordar
Esse embate institucional não ocorre no vácuo e reflete uma guerra política que se arrasta há anos na Argentina. Desde que assumiu o poder, o presidente Javier Milei transformou a liberação das SADs em uma de suas grandes bandeiras para modernizar o esporte e atrair capital estrangeiro, mas o processo encontra-se atualmente em um forte impasse jurídico. Embora o governo federal tente forçar a abertura comercial por meio de decretos de necessidade e urgência, a AFA, controlada por Claudio “Chiqui” Tapia, tem conseguido travar as medidas nos tribunais e chegou a alterar o próprio estatuto para prever a punição com desfiliação imediata de qualquer clube que adote capitais externos.
Nesse tabuleiro de pressões que divide o país, o Estudiantes desponta praticamente como o único clube de peso a desafiar o sistema da federação. O preço dessa posição já foi cobrado: Verón sofreu duras suspensões do tribunal disciplinar da entidade máxima argentina após protestar publicamente contra o sistema centralizador da AFA, o que explicita o custo político de contrariar o status quo do futebol local. Para Thiago Freitas, COO da Roc Nation Sports no Brasil, empresa de entretenimento norte-americana, a abertura para a constituição das SADs na Argentina promoveria no país um conjunto de mudanças maior e mais célere do que o visto no Brasil — ainda que com frutos colhidos a médio e longo prazo.

Receita própria e uma aliança que redesenha a política do futebol argentino
A busca por novos rumos institucionais não se limita ao discurso. No plano comercial, o Estudiantes reconfigurou a exploração de seu espaço físico por meio do “Mercado Uno”, um polo gastronômico e comercial integrado à base da bancada principal do estádio Jorge Luis Hirschi, que opera diariamente para o público em geral — modelo que transforma o estádio em fonte de receita fora dos dias de jogo, em vez de patrimônio ocioso entre uma partida e outra.
O movimento também ganhou dimensão política. Um encontro recente e mantido em sigilo no Estádio Monumental de Núñez, entre Verón e o presidente do River Plate, Stefano Di Carlo, teve como objetivo central selar uma aliança política histórica e criar uma mesa de trabalho permanente para formular propostas conjuntas sobre os calendários, a renegociação das receitas de transmissão televisiva e a descentralização do poder político exercido por Tapia na AFA. Na prática, dois dos clubes mais tradicionais do país passam a atuar de forma coordenada em pautas que historicamente eram definidas apenas pela cúpula da federação — e é nesse ponto que a final da Libertadores deixa de ser apenas um resultado esportivo.
Fonte: CNN Brasil.



