A crise financeira enfrentada por clubes tradicionais do interior de São Paulo tem feito a Sociedade Anônima de Futebol (SAF) ganhar espaço como uma possível alternativa para a sobrevivência e a reorganização das equipes. Na região de Araçatuba, a discussão ganhou força diante das dificuldades de clubes que dependem de receitas limitadas, patrocínios locais e, em alguns casos, recursos dos próprios dirigentes para manter o futebol profissional. Um dos casos é o da Associação Esportiva Araçatuba (AEA). O clube atravessou recentemente uma crise administrativa e financeira, marcada por atrasos salariais, saída de jogadores, afastamento do presidente Rodrigo Francisco da Silva por irregularidades nas contas e dificuldades para montar o elenco que disputaria as últimas competições. Diante desse cenário, a possibilidade de transformar o clube em SAF passou a ser discutida como uma alternativa para a reconstrução da instituição.
Em janeiro, a AEA recebeu uma proposta para a constituição e venda de sua SAF. A oferta foi apresentada por um grupo de empresários e encaminhada para análise jurídica do clube. O atual presidente, Guilherme Nishikawa, porém, afirmou à TV TEM que a prioridade, neste momento, é colocar as contas em ordem antes de avançar na discussão sobre o modelo. “A prioridade agora é calcular as contas e só depois discutir a implantação da SAF”, disse.
Outro clube tradicional da região que passou a discutir o modelo é o Bandeirante de Birigui. O presidente André Luiz Batista explica que existem dois caminhos possíveis: transformar o próprio clube em uma Sociedade Anônima de Futebol ou buscar um investidor para assumir o controle de uma SAF. “Ou você faz uma SAF do próprio clube e ele próprio se torna uma Sociedade Anônima de Futebol e cria um modelo de gestão, ou o que é o sonho de todo torcedor bandeirantino: pensar em uma SAF com um grande investidor. E, é claro, para isso o clube precisa estar bem equilibrado”, afirmou. O clube também realizou um estudo sobre a própria marca, com o objetivo de chegar mais estruturado a uma eventual conversa com investidores. A estratégia, segundo a diretoria, é organizar a casa antes de buscar recursos externos, já que um clube financeiramente mais equilibrado pode se apresentar de maneira mais estruturada diante de possíveis interessados. Outro clube da região, o Penapolense, também adota cautela: o presidente Nilson Moreira lembra que nem todas as SAFs brasileiras deram certo.
Criada pela legislação brasileira em 2021, a Sociedade Anônima de Futebol permite que clubes adotem uma estrutura empresarial, diferente do modelo tradicional de associação sem fins lucrativos. Nesse formato, a SAF pode receber investimentos privados e ter participação acionária. Na prática, o modelo abre a possibilidade de um clube buscar investidores para injetar recursos e participar da gestão. O dinheiro pode ser utilizado, por exemplo, na reorganização financeira, na estrutura das categorias de base, na melhoria das instalações e na formação de equipes mais competitivas. A experiência de outros clubes brasileiros também mostra que a adoção do modelo empresarial não elimina automaticamente os desafios administrativos e financeiros — a estrutura, os termos do acordo e a capacidade de gestão continuam sendo fatores importantes para o sucesso da operação.
O modelo, que até pouco tempo parecia distante da realidade de clubes do interior paulista, começa a ser discutido de forma mais concreta na região de Araçatuba. No caso da AEA, o foco imediato está na reorganização das contas antes de qualquer decisão. Já o Bandeirante trabalha para chegar mais estruturado a uma eventual busca por investidores. Em comum, os dois clubes enfrentam o mesmo desafio: encontrar um modelo de gestão que permita manter o futebol profissional, recuperar a saúde financeira e criar condições para voltar a competir dentro de campo.
Fonte: ge.Globo.



