O Clube Atlético Juventus concluiu oficialmente na última sexta-feira (31) o processo de transformação em Sociedade Anônima do Futebol, encerrando o modelo associativo e transferindo o controle do departamento de futebol a investidores privados. Porém, a torcida Setor 2 do Juventus-SP comunicou que encerra suas atividades, este que é um grupo simbólico de resistência e identidade juventina fundado há quase duas décadas. Em comunicado publicado nas redes sociais, a Setor 2 declarou que o clube “foi entregue” e que novo modelo representa uma ruptura definitiva com a essência popular, afirmando que “o Juventus que defendemos acabou”. O grupo, que nasceu em momento de afastamento entre o clube e a comunidade e se consolidou como movimento cultural e político nas arquibancadas resgatando o orgulho juventino, caracterizou a SAF como modelo que “transforma a identidade do clube em mera estética explorável e o futebol em produto”.
A trajetória da Setor 2 e o resgate da identidade popular
A Setor 2 surgiu há quase duas décadas em contexto específico: um momento de afastamento significativo entre o Clube Atlético Juventus e a sua base social. Esse distanciamento refletia a realidade de clube que historicamente operava como instituição de bairro mas que havia perdido a capacidade de mobilizar a comunidade em torno de um projeto coletivo. O grupo nasceu como uma resposta a essa lacuna, funcionando não apenas como uma torcida organizada convencional, mas como um “movimento cultural e político nas arquibancadas da Rua Javari”.
Num comunicado de despedida, o grupo afirmou: “Nos piores momentos da história do nosso futebol, conseguimos fazer nascer um movimento que deu ao Juventus algo inédito: uma massa de torcedores que deixou no passado os velhos jargões do ‘clube de bairro'”.
Esse trabalho de reconstrução identitária tem uma importância que transcende o futebol. Torcidas organizadas frequentemente funcionam como espaços de organização social e política em bairros periféricos, oferecendo aos jovens senso de pertencimento, identidade coletiva e poder de agência em espaços público. Para a Setor 2, construir uma “massa de torcedores” significava criar uma comunidade de juventinos com consciência de si mesmos e capacidade de mobilização coletiva. Essa dimensão social é um elemento que a Setor 2 evidencia em sua despedida.
A SAF como ruptura com a base social: perspectiva da torcida organizada
O comunicado da Setor 2 estrutura uma crítica à SAF a partir de argumento sobre a ruptura de identidade e a transformação de relação entre clube e comunidade. O grupo afirma que a SAF “transforma a identidade do clube em mera estética explorável e o futebol em produto”. Essa caracterização sugere uma compreensão de que a transformação em modelo empresarial privatiza não apenas a gestão financeira e operacional, mas também o significado cultural e simbólico que o clube tem para comunidade.
A crítica implícita é que, em modelo de SAF, o clube deixa de ser instituição social enraizada em comunidade e se torna um ativo financeiro de investidores. Nessa lógica, a identidade do Juventus — sua história, sua relação com bairro da Mooca, sua tradição — passa a ter valor instrumental como elemento que pode ser “explorado” para gerar receita e atração de consumidores, não como uma expressão legítima de comunidade. O grupo caracteriza essa transformação como uma “cultura de desprezo” ao futebol juventino, sugerindo que o modelo empresarial necessariamente desdenha da dimensão popular que a torcida havia resgatado.
A compreensão da Setor 2 é de que a transformação em SAF não é uma continuidade com mudança gerencial, mas uma mudança fundamental de natureza da instituição. Enquanto clube associativo (mesmo com crises e dificuldades) era, em princípio, instituição de seus associados e comunidade, clube transformado em SAF é empresa de seus acionistas. Para a Setor 2, essa mudança de natureza jurídica representa mudança equivalente em sua natureza política e cultural — e por isso justifica o encerramento de atividades de um grupo que havia investido duas décadas na reconstrução de identidade juventina.
Fonte: Agência Futebol Interior.



