Por Fernando Araujo
Nos últimos anos, o termo SAF (Sociedade Anônima do Futebol) ganhou espaço nas conversas sobre futebol. A mídia fala o tempo todo sobre o assunto, mas, na maioria das vezes, de forma superficial. Muitos resumem a SAF à ideia de que o clube foi “vendido” e agora tem um “dono”. Mas essa visão simplista ignora a verdadeira essência dessa transformação: a busca por gestão profissional e responsabilidade no futebol brasileiro.
Para entender por que isso é tão importante, é preciso lembrar de onde viemos. Os clubes nasceram como associações sem fins lucrativos, o que fazia sentido há décadas, quando o futebol era muito mais social do que empresarial. O objetivo era reunir pessoas em torno de uma paixão, fortalecer laços comunitários e promover o esporte. Só que o tempo passou, o futebol virou um negócio bilionário — com contratos de TV, patrocínios, direitos de imagem e estrutura complexa — e a roupa de associação deixou de servir.
O grande problema é que, nas associações, não existe dono nem acionista responsável. Quando a gestão é ruim e o clube se endivida, ninguém responde pessoalmente por isso. É como se o prejuízo fosse de todos, mas a culpa não fosse de ninguém. Essa falta de responsabilização destruiu o equilíbrio financeiro de diversos clubes brasileiros ao longo das décadas.
A SAF surge, então, como uma nova estrutura de governança. Isso significa transparência nas contas, decisões técnicas, metas claras e gestores que prestam contas de suas ações. É trazer o futebol para o século XXI, com práticas empresariais que respeitem a paixão do torcedor, mas também o dinheiro investido. Ser SAF não é vender o clube — é mudar a forma de administrá-lo, tornando-o sustentável e profissional.
Durante muito tempo, ouvimos que o Campeonato Brasileiro era o mais equilibrado do mundo. E era mesmo. Mas esse equilíbrio, em boa parte, vinha da desorganização coletiva. Todos os clubes estavam no mesmo barco: endividados, politizados e com gestões amadoras. Agora, o cenário começa a mudar. Clubes que se organizaram — alguns SAFs, outros ainda associações — estão se destacando, mostrando que gestão e planejamento fazem tanta diferença quanto o talento dentro de campo.
É claro que virar SAF não garante títulos nem imunidade contra o rebaixamento. O que garante é profissionalismo e cobrança. E essa cobrança é o que faltou durante muito tempo. Hoje, existem clubes que ainda são associações e funcionam bem, mas é difícil imaginar que continuarão assim no futuro. As mudanças de legislação indicam que o modelo associativo vai se tornar cada vez menos vantajoso. Há, inclusive, projeto de lei prevendo que clubes-empresa paguem 5% de impostos, enquanto associações pagarão 15%. Ou seja, a estrutura atual deixará de ser sustentável.
Transformar um clube em SAF não é uma traição à sua história. É uma forma de preservá-la. É dar ao torcedor a segurança de que o time será administrado com responsabilidade, e que quem tomar decisões erradas será cobrado por isso. É, no fundo, o que todo apaixonado por futebol quer: ver seu clube crescendo, competitivo e respeitado — dentro e fora de campo.
O futebol é emoção, é paixão, é identidade. Mas paixão não pode ser desculpa para amadorismo. A SAF não veio para tirar o brilho do futebol brasileiro, e sim para garantir que ele continue existindo de forma saudável. É hora de entender que o futebol precisa ser tratado como o que ele é hoje: um grande negócio que depende de gestão séria para continuar sendo a maior paixão do país.
Ser SAF é assumir que o amor pelo clube continua o mesmo — mas agora, com responsabilidade, governança e profissionalismo.
Fernando Araujo
Advogado, graduado em Direito pela UNIMESP – Universidade Metropolitana de Guarulhos (antiga FIG). Pós Graduado em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho pela Faculdade Legale. Pós Graduado em Direito e Processo Previdenciário pela Faculdade Damásio. Sócio da LDVC Advogados. Criador de conteúdo digital jurídico. Participou de inúmeros cursos promovidos pela OAB, Legale, ESA (escola Superior da Advocacia), IBIJUS, Sebrae.



