No futebol, quando a maré desce, o que estava encoberto salta aos olhos. As turbulências recentes envolvendo SAFs reacenderam a tentação de apontar o modelo como culpado de tudo. É um atalho sedutor — e enganoso. A SAF não fabrica tempestades; ela acende a luz do vestiário onde velhos vazamentos já existiam. O que hoje vira manchete ontem era ruído de fundo: estatutos permissivos, improviso travestido de método, contas empurradas com a barriga.
O placar honesto diz o básico: não há varinha de condão. Seja associação, seja empresa, qualquer clube afunda se faltar gestão qualificada, governança que funcione e responsabilidade com o dinheiro. Sem isso, discute‑se rótulo enquanto o conteúdo escapa pelos dedos.
SAF não cria crise — expõe o que estava escondido
Lá fora, a maioria dos protagonistas atua sob a lógica empresarial. Não vencem por causa do CNPJ, mas porque jogam com manual claro: controles internos que valem, transparência levada a sério, disciplina orçamentária e métodos de gestão que sobrevivem às oscilações do resultado da rodada.
Por aqui, insistimos em inverter a ordem: antes de decidir quem toma as decisões e com quais regras, travamos guerra de siglas. SAF precisa ser ponte para o futuro — não ambulância para dívidas do passado.
Mudar a placa na porta não muda a cultura. O improviso sabe usar terno, dar entrevista, trocar a razão social — e seguir igual. Transformar o futebol do clube em SAF exige diligência de verdade sobre quem aporta recursos e de onde vem esse capital, além de freios e contrapesos que protejam o patrimônio tangível e intangível: a marca, a história, o elo com a arquibancada.
Se esses cuidados falham, o defeito não está no desenho do modelo, mas em quem conduz a obra. Sem equipe técnica e transparência cotidianas, a SAF vira crachá novo para práticas antigas.
Nota ao leitor: a Lei 14.193/2021 estruturou a Sociedade Anônima do Futebol — trouxe trilhos de governança, mecanismos de financiamento e caminhos para tratar passivos. O que ela não faz é terceirizar a responsabilidade de quem decide.
“Meu clube nunca será SAF”: o futebol ensina a desconfiar de sentenças definitivas
Entre gigantes organizados e vencedores, a resistência é alta. Há medo de diluir identidade, pano de fundo político e más referências que alimentam desconfiança. Mas o jogo tem viradas. Orçamentos apertam, receitas oscilam.
O nunca de hoje pode ser o vamos conversar de amanhã. Enquanto houver taça na prateleira e contas em ordem, o associativo é zona de conforto. E tudo bem — desde que a conta fecha porque há gestão, e não porque o relógio parou.
Apito final
A SAF não resolve sozinha e não estraga sozinha. É ferramenta jurídica e financeira — nada mais, nada menos. Nas mãos certas, com projeto, disciplina e prestação de contas, vira alavanca. Nas mãos erradas, vira desculpa. O resultado não se decide no contrato social; joga‑se e ganha‑se no campo da governança. É ali que o placar muda.
Danilo Superbi da Silva
Sócio-diretor da DASS Consultoria e da ElevateLaw Marketing Jurídico, Mestre em Negócios Internacionais pela MUST University, MBA em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria pela Fundação Getúlio Vargas, Administrador pela Universidade Federal de Viçosa e especialista em gestão empresarial.



