Algumas ainda enfrentam turbulências, cobranças e desconfiança da torcida.
Durante décadas, o futebol brasileiro sobreviveu muito mais pela paixão do torcedor do que pela organização dos clubes. Dívidas milionárias, salários atrasados, decisões políticas e gestões improvisadas acabaram se tornando parte da rotina de gigantes nacionais. Mas a chegada das SAFs começou a mudar esse cenário — ainda que em ritmos diferentes.
Nem toda SAF virou exemplo. Algumas ainda enfrentam turbulências, cobranças e desconfiança da torcida. Outras, porém, conseguiram mostrar que futebol também pode ser administrado com planejamento, metas e visão de longo prazo.
Hoje, quando se fala em SAF organizada, já não basta contratar jogadores caros ou aparecer nas manchetes. O que começa a chamar atenção é a capacidade de estruturar o clube fora de campo: reduzir dívidas, profissionalizar departamentos, fortalecer as categorias de base, aumentar receitas e criar estabilidade.
Entre os modelos que mais ganharam destaque nos últimos anos está o Esporte Clube Bahia. Desde a chegada do Grupo City, o clube passou a apresentar uma gestão mais moderna, com investimentos em estrutura, análise de desempenho e fortalecimento institucional. O Bahia deixou de ser visto apenas como um clube tradicional do Nordeste para entrar nas discussões nacionais sobre gestão profissional.
Outro caso frequentemente citado é o do Botafogo. Apesar das oscilações dentro de campo, o clube conseguiu reorganizar áreas administrativas, aumentar receitas e recuperar competitividade esportiva, embora nos últimos meses a sensação seja de que o projeto tenha perdido parte do embalo inicial e financeiramente a coisa parece que tem desandado.
O Coritiba também começa a ganhar espaço entre os exemplos de SAF mais organizadas. Mesmo longe do protagonismo financeiro de outros clubes, o Coxa Branca vem apostando em uma gestão mais equilibrada, com foco em responsabilidade financeira, reorganização interna e fortalecimento da estrutura do clube. A SAF coxa-branca tenta construir um modelo sustentável, sem movimentos tão agressivos no mercado, mas buscando estabilidade a médio e longo prazo.
Reestruturação
Já o Cruzeiro Esporte Clube talvez represente um dos exemplos mais simbólicos de reconstrução. Depois de viver uma das maiores crises da história do futebol brasileiro, o clube iniciou um processo de reorganização financeira e retomada de credibilidade. O caminho ainda é longo, mas o cenário atual é muito diferente daquele encontrado poucos anos atrás.
O Clube Atlético Mineiro aparece em outro patamar: o de uma SAF que nasceu já convivendo com alta competitividade e enorme pressão por resultados imediatos. O desafio do clube é equilibrar investimentos pesados com sustentabilidade financeira — algo que ainda gera debates entre analistas e torcedores.
Nem tudo se resolve com SAF
Enquanto isso, o caso do Club de Regatas Vasco da Gama mostra justamente que transformar um clube em SAF não resolve tudo automaticamente. O Vasco viveu mudanças administrativas importantes, mas também enfrentou conflitos internos, crises esportivas e questionamentos sobre o modelo adotado. O episódio serviu como alerta para quem imaginava que apenas a entrada de investidores seria suficiente para mudar completamente a realidade de um clube.
No fim das contas, o ranking das SAFs mais organizadas do Brasil vai além de títulos ou posição na tabela. Organização hoje significa transparência, responsabilidade financeira e capacidade de pensar o clube para os próximos anos — não apenas para o próximo campeonato.
E talvez essa seja a maior mudança no futebol brasileiro: pela primeira vez em muito tempo, parte da torcida começou a entender que gestão também ganha jogo, mesmo que os resultados dentro de campo levem um pouco mais de tempo para aparecer.
Fagner Ramos
Jornalista com experiência em rádio, jornal e revista e assessoria de imprensa. Ao longo da carreira, atuou na Rádio Central de Campinas, Rádio Brasil, afiliada à Jovem Pan e na CBN Campinas, desenvolvendo trabalhos na produção de conteúdo, apuração, redação e cobertura jornalística. Também possui atuação como produtor de programas esportivos, além de comunicação e gestão de conteúdo digital, unindo prática de redação jornalística com estratégia de posicionamento e relacionamento com a imprensa.



