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A distância entre o ingresso mais barato e o mais caro diz muito sobre como o futebol precifica seus eventos

€70 e €950. Esse é o intervalo oficial na precificação de ingressos da final da Champions League 2026 entre PSG e Arsenal em Budapeste. Uma diferença de mais de 13 vezes entre o ingresso mais acessível e o mais caro, para o mesmo jogo, no mesmo estádio, na mesma noite.

Esse número não é uma anomalia. É uma tendência que vem se consolidando ao longo dos anos, e que revela muito sobre como o futebol pensa e ainda não pensa o suficiente sobre precificação.

 

O que os dados das finais revelam

Olhando os preços oficiais das últimas cinco finais da Champions League, publicados diretamente pela UEFA, o padrão é claro:

Em 2022, no Stade de France em Paris, o ingresso mais barato custava €70 e o mais caro €690. Uma diferença de cerca de 10 vezes.

Em 2023, em Istambul, os valores se repetiram: €70 na base e €690 no topo.

Em 2024, em Wembley, a UEFA migrou para libras esterlinas: £60 na categoria Fans First e £610 na Categoria 1. A proporção se manteve próxima de 10 vezes.

Em 2025, em Munique, a categoria mais acessível subiu para €90, sinalizando uma primeira elevação no piso de preços.

Em 2026, em Budapeste, o topo da tabela chegou a €950 enquanto a base voltou a €70. A distância entre piso e teto atingiu o maior patamar da série: mais de 13 vezes.

A própria UEFA confirma que os ingressos da categoria Fans First são reservados exclusivamente para torcedores dos clubes finalistas, enquanto as categorias superiores são abertas ao público geral via sorteio. Ou seja, quem paga mais nem sempre é o torcedor mais fiel. Muitas vezes é o público corporativo, turístico ou especulativo.

 

O problema não é o preço alto. É a ausência de método.

Cobrar mais por assentos melhores é uma lógica legítima e amplamente praticada em qualquer setor. O teatro faz isso. O cinema faz. O transporte aéreo faz com sofisticação crescente há décadas.

O que chama atenção no futebol não é a existência de categorias diferentes, mas a forma como essas diferenças são definidas. Em muitos casos, a grade de preços é construída com base em tradição, intuição ou benchmarking informal com edições anteriores, sem simulação de cenários, sem análise de elasticidade de demanda por setor, sem projeção de impacto na ocupação e na percepção do público.

O resultado é uma dispersão de preços que pode parecer arbitrária para quem está de fora, e frequentemente é percebida como injusta pelo torcedor.

 

Recorrência: o desafio que se repete a cada temporada

Esse não é um problema pontual de uma final histórica. É uma tarefa recorrente para qualquer clube que disputa competições ao longo da temporada.

Um clube que participa da fase de grupos, das oitavas, das quartas, das semifinais e de uma eventual final precisa definir grades de preços para cada uma dessas etapas, considerando adversários diferentes, estádios diferentes, momentos diferentes da temporada e níveis de demanda que variam semana a semana.

Multiplicado por diferentes competições nacionais e internacionais, o volume de decisões de precificação ao longo de uma temporada é expressivo. E cada decisão tomada sem dados representa tanto uma oportunidade perdida de receita quanto um risco de desgaste com o torcedor.

 

O impacto na percepção de justiça

A distância entre o ingresso mais barato e o mais caro não é apenas uma questão financeira. Ela carrega uma mensagem implícita sobre quem o clube considera prioritário.

Quando o ingresso de base se mantém acessível e o topo da tabela sobe progressivamente, o clube sinaliza que quer manter o torcedor comum dentro do estádio enquanto monetiza o interesse corporativo e turístico nas categorias premium. É uma estratégia equilibrada, e a UEFA tem adotado exatamente esse modelo nas finais.

Mas quando a dispersão é mal calibrada, o efeito pode ser inverso. Um setor subestimado em relação à demanda real deixa receita na mesa. Um setor superestimado afasta o torcedor e cria cadeiras vazias. Ambos os cenários impactam negativamente, um no faturamento, o outro na atmosfera e na imagem do evento.

A percepção de justiça pelo público não é um dado subjetivo e intangível. Ela tem impacto direto na fidelização, no engajamento e nas vendas futuras. Um torcedor que sente que pagou um valor desproporcional em relação ao que recebeu tende a rever sua disposição de compra nas próximas temporadas.

 

Dados para decidir, não para justificar

A evolução dos preços das finais da Champions mostra que a UEFA tem, ao menos em parte, uma estratégia: segurar o piso e elevar gradualmente o teto. Mas até que ponto essa estratégia leva em conta as especificidades de cada edição, cada estádio, cada perfil de público?

Para clubes que tomam essas decisões de forma independente, sem o aparato institucional de uma federação, o desafio é ainda maior. A definição da grade de ingressos muitas vezes recai sobre uma equipe pequena, com pouco tempo, sem ferramentas adequadas e sob pressão de prazos operacionais.

É exatamente nesse contexto que a inteligência de dados deixa de ser um diferencial e passa a ser uma necessidade. Simular cenários antes de publicar os preços. Projetar receita por setor. Testar o equilíbrio entre categorias. Medir o impacto de diferentes combinações na ocupação e na percepção do público.

Essas não são perguntas difíceis de responder. São perguntas que simplesmente ainda não estão sendo feitas com a frequência e o método que merecem.

 

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NOTA EDITORIAL

O tema já movimenta empresas no Brasil e no mundo. No cenário internacional, destacam-se a Digonex, especialista em precificação dinâmica para esportes e entretenimento, e a Eventellect, que usa machine learning para gestão de inventário e pricing em tempo real. No Brasil, o mercado de ticketing para o futebol tem crescido com plataformas como a FutebolCard, maior operadora de ingressos do futebol nacional, e a Ingresse, que além da venda de ingressos oferece inteligência de dados sobre comportamento do torcedor a clubes como Grêmio, Botafogo, Bahia e Fortaleza. Ambas atuam na camada de operação e venda. A camada de inteligência de precificação, anterior à definição e publicação dos preços, ainda é um espaço em construção no país.

É nesse espaço que a Strategic Plan Tech posicionou em 2026 o Strategic Plan Tickets (SPT), que usa Inteligência Artificial para apoiar a definição de grades de ingressos com método e critérios objetivos. O modelo vai além da maximização de receita: gera cenários alternativos que reduzem a dispersão entre setores e calcula um índice de equilíbrio de precificação, transformando a percepção de justiça em um dado mensurável. Uma abordagem que, além de apoiar a decisão interna, pode representar um diferencial na comunicação do clube com seu torcedor.

Tiago Corrêa

Possui graduação em Matemática pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), mestrado em Ciência, Tecnologia e Sociedade pela UFSCar e doutorado em Tecnologia pela Unicamp. Tem experiência em pesquisa e inovação em Ciência de Dados, Inteligência Artificial, precificação, além de atuação em gestão de projetos e equipes. 

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